LITERATURA E PSICANÁLISE


Coordenadores
Profa. Dra. Cleusa Rios Pinheiro Passos (USP)
Profa. Dra. Adélia Bezerra de Meneses (UNICAMP)
Resumo: Em linhas gerais, as relações entre Literatura e Psicanálise recortam um campo no qual a Arte da Palavra e o Saber Inconsciente reciprocamente se iluminam e fecundam. A proposta deste simpósio é apontar tais relações, ocorridas em mais de um nível, se considerarmos que a Literatura - como toda arte - é um espaço em que o inconsciente se permite aflorar ; e a Psicanálise, antes de mais nada, é o reconhecimento dessa instância psíquica. Vista do ângulo da Literatura, ela será encarada como um "dado" teórico a mais para a leitura da obra literária, exercendo, no processo interpretativo, um papel interno e "desvendador". Cabe esclarecer que não se ignorará, em maior ou menor grau, outros aspectos compositivos, tais como a tradição literária, a história, traços de diferentes conhecimentos etc, sempre transfigurados literariamente. Logo, serão realizadas tanto análises/interpretações de temas e procedimentos, presentes em textos da Literatura Universal e em produções brasileiras, quanto se lançará um olhar mais acurado sobre questões da história dos vínculos entre os dois campos em nosso país. "

Subtema: Literatura e outros saberes

“Angústia”: sombras de uma subjetividade incivilizada
por Carmen de Fátima Henriques da Matta

Resumo
Antonio Candido, em Ficção e Confissão, sugere que Luís da Silva, personagem de Angústia, de Graciliano Ramos, seria a mais dramática da moderna ficção brasileira. A dor metaforizada no romance não seria somente de ordem psíquica; expressaria também causas objetivas oriundas de uma realidade sócio-histórica determinada por um meio, um tempo e um lugar. O desamparo que marca a trajetória do protagonista teria causas psicológicas e sócio-históricas atuando em concomitância; e a literatura intervém como mediadora dessas ambivalências. Motivações subjetivas do personagem imiscuem-se a aspectos civilizatórios, junção que resulta em uma existência infeliz no âmbito de uma comunidade e na integração com o mundo. Para elucidar esses pontos, fundamentais noções do ensaio O mal-estar na civilização, de Sigmund Freud, contribuem para nossa análise. O desespero e a melancolia evocados no romance suscitam também um diálogo com aspectos pertinentes da atualidade – já levantados por Graciliano e sua geração de escritores modernistas na década de 1930. O diálogo se faz com alguns caminhos tomados pelas ficções contemporâneas, em que medida estas expressariam uma subjetividade coletiva, em um cenário marcado pela ausência de utopias, por múltiplas temporalidades, subtextos, pela fragmentação de sentidos, entre outras características marcantes deste primeiro decênio do século XXI.

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Solidão e melancolia em “Pela passagem de uma grande dor”, de Caio Fernando Abreu
por Clóvis Meireles Nóbrega Júnior

Resumo
Considerado como um dos importantes contistas da literatura brasileira contemporânea, Caio Fernando Abreu procurou desenvolver sua ficção acima dos convencionalismos de toda e qualquer ordem, evidenciando, em suas obras, uma temática singular, juntamente com uma linguagem tida como fora dos padrões “normais” / “tradicionais”, até então cultivados em nossa literatura. Tal afirmação pode ser percebida em Morangos mofados, conjunto de narrativas publicado pelo autor em 1982. Nosso objetivo consistirá em apresentar, de modo sucinto, alguns aspectos da contística de Caio Fernando Abreu. Mais precisamente, nos valendo de alguns pressupostos da teoria da literatura, da narratologia, com G.Genette, e da psicanálise, Freud e Melanie Klein, procuraremos averiguar de que modo se processa, em “Pela passagem de uma grande dor”, uma das narrativas do escritor, a composição das personagens por nós denominadas melancólico-solitárias. Não obstante, examinaremos, ainda, uma possível aproximação/relação destes “seres de papel” – sem dúvida, herdeiros de uma tradição – com as personagens “fracassadas/desfibradas” e “pobres diabos” de quem nos falam, respectivamente, Mário de Andrade e José Paulo Paes.

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Fuga para o Outro: Infância na contística de Clarice Lispector
por Elcio Luis Roefero

Resumo
Percebemos na contística de Clarice Lispector, sobretudo no volume de contos Felicidade clandestina, que a temática da infância constitui importante aspecto para o fazer literário. Nos contos “Felicidade clandestina”, “Restos do carnaval”, “Tentação” e “Os desastres de Sofia”, as personagens infantis não apenas protagonizam experiências transformadoras, como também anseiam pela vida adulta, uma vez que a vivência infantil se configura, no olhar delas, um espaço de risco e fragilidade, um lugar de exposição e dor. Assim, o desejo de ser outra implica a fuga em direção ao mundo da não-exposição. Da investigação da infância e do desejo na ficção de Lispector, bem como de seus desdobramentos e frustrações, percebemos importantes relações entre personagem, identidade e alteridade. Ao mesmo tempo, vislumbramos um terreno fértil no qual floresce a paradoxal ligação entre o desconhecido do outro e a descoberta de si mesmo.

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Leituras de enganos: uma visada psicanalítica sobre “Crônica da casa assassinada”
por ELIZABETH DA PENHA CARDOSO

Resumo
O romance de Lúcio Cardoso, Crônica da casa assassinada (CCA) (1959), chocou a sociedade da época pela ousadia de um de seus temas: Nina manteria um relacionamento com seu filho André. Entretanto, muitos apontam como deslize do autor terminar o livro desmentindo o incesto. De fato, causa estranheza a confissão de Ana sobre ser ela a mãe de André, cancelando toda a tensão do leitor envolvido na relação tórrida entre mãe e filho, ao longo de 500 páginas. Porém, como o romance é articulado em torno de relatos pessoais não há verdade, apenas versões sobre os fatos. Lúcio aproveita-se dessa característica e durante todo o enredo temos confirmações e negações do incesto configuradas como equívocos de linguagem, condensações e deslocamentos de acontecimentos ou personagens. Sendo assim, Cardoso tece sua obra a partir de enganos que camuflam fatos, personagens, desejos e leituras. Discutirei, nesta comunicação, os efeitos literários provocados por lapsos, condensações e deslocamentos presentes em CCA, especialmente os que cercam o incesto e, dessa maneira, procurarei iluminar uma nova faceta do romance. A intersecção com a psicanálise se dará principalmente por meio dos textos, A interpretação dos sonhos (1900) e Psicopatologia da vida cotidiana (1901 ), de Sigmund Freud.

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A Perspectiva cômica em Tutaméia
por Jacqueline Ramos

Resumo
Em Tutaméia, Guimarães Rosa propõe e experimenta um recorte muito peculiar do cômico, cuja função não seria a de causar o riso, mas a de dar acesso a “novos sistemas de pensamento”. A natureza e os mecanismos do cômico são discutidos no primeiro prefácio e valorizados por sua capacidade de desfazer estereótipos, abrindo espaço para outras possibilidades, tanto para o inédito (sentido primordial de anedota), quanto para o que é censurado, recalcado. A própria obra incorpora formas e estruturas do cômico: seus quatro prefácios retomam em nova chave elementos da comédia clássica, principalmente a parábase; assinalamos várias estórias estruturadas segundo as formas cômicas debatidas no prefácio; até mesmo na composição de frases ou vocábulos percebe-se princípios próprios do cômico. A perspectiva cômica, infiltrada em vários planos da obra, cumpre inúmeras funções. Uma delas seria a de revelar o engano de raciocínios e valores viciados, já que alarga as possibilidades de representação ao incorporar “outras lógicas”, normalmente banidas do pensamento sério, como no caso do louco, da criança, do criminoso, do palhaço, do velho esclerosado etc. Alguns procedimentos cômicos discutidos – seria o caso do “processo de niilificação” e da “definição por extração” – e também percebidos em estórias seriam modos de se acessar o “nada”, tema amplamente recorrente e que faz parte inclusive do título: Tutaméia é “ninharia”, “quase nada”. A comicidade, ainda, contribuiria para ampliar o próprio idioma, ao desfazer clichês permite apreender a realidade não atingida pelo senso comum ou por formas convencionais. Enfim, Tutaméia não é uma obra cômica, mas foi composta a partir da perspectiva cômica, o que parece corresponder a uma vertente do pensamento moderno que valoriza o cômico por permitir a liberação do censurado, por dar acesso a tudo que é excluído como “não oficial”, “não sério”, e que no entanto participa da totalidade (Dasein). A questão da comicidade ganha extraordinária complexidade na obra, confundindo-se muitas vezes com outros procedimentos (o estranhamento, a ironia, o grotesco) e permitindo a dissolução das formas: há elementos trágicos, épicos, míticos, dramáticos, fantásticos, cinematográficos; além do minimalismo das estórias, do desdobramento cubista de perspectivas, da sondagem subjetiva etc. O manejo do cômico em Tutaméia culmina num sistema de pluralidade e simultaneidade de perspectivas.

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Concepções da infância em Clarice Lispector
por Luciana Pires

Resumo
Personagens-crianças comparecem em alguns contos de Clarice Lispector. É o caso de ‘Menino a Bico de Pena’, ‘Come, Meu Filho’, ‘Legião Estrangeira’, ‘Miopia Progressiva’, ‘Travessuras de uma Menina’, ‘Os Desastres de Sofia’ e outros. Nesses contos, a relação adulto-criança é problematizada e a fala da criança ganha peso literário. As falas das crianças de Clarice são carregadas de densidade simbólica. José Américo Motta Pessanha disse que as crianças seriam arautos da verdade na obra clariciana. É no infantil que Freud lança as bases de sua metapsicologia. No entanto, a prática clínica com crianças demorou alguns anos para ser inventada. Muitos desdobramentos técnicos e teóricos foram necessários para se caminhar da neurose infantil como origem às crianças como destino da cura analítica. Ouvir a criança em seu peso simbólico é tarefa do psicanalista de crianças e é tarefa que Clarice dá mostras de familiaridade em seus contos supracitados. Em um primeiro momento, analisarei alguns contos de Clarice Lispector, focando na caracterização de suas personagens crianças. Para, então, fazer a aproximação dos dizeres da autora dos dizeres sobre crianças de alguns psicanalistas infantis, tais como Françoise Dolto e Donald Winnicott.

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O enigma de Anne-Marie Stretter em Le Vice-Consul de Marguerite Duras
por MARIA CRISTINA VIANNA KUNTZ

Resumo
Anne-Marie Stretter é a protagonista de Le Vice-Consul de Marguerite Duras, romance publicado na França em 1965. Ela é a esposa do Embaixador da França na Índia e vive cercada e cortejada pelos "homens brancos", funcionários da Diplomacia. Ela os fascina e fascina o leitor. Seu silêncio intrigante nada revela de seu passado, de seu segredo: ela guarda um enigma. Sarah Koffman reflete sobre o silêncio da mulher: explica que as mulheres "doentes" produzem narrativas "lacunares, truncadas, defeituosas, descosidas, incompletas" (1944: 46). Anne-Marie não parece doente, mas sua atitude é no mínimo "estranha". O tédio e o vazio que a envolvem poderia ser fruto de um narcisismo. Assim, a Psicanálise virá ao encontro da obra literária para aclarar sua compreensão e alargar seu significado. No romance de Marguerite Duras a narrativa lacunar se estende em outra narrativa encaixada, especular que conta a história de uma mendiga. Espelhando-se ambas as protagonistas, intensifica-se o silêncio rumo ao aniquilamento e à morte. Por outro lado, esse espelhamento aponta para um narcisimo e assim permitirá desvendar, em parte, o enigma de Anne-Marie. Nesta comunicação, examinaremos em que medida a narrativa especular explica o silêncio e o enigma de Anne-Marie.

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Brás Cubas, Dom Casmurro e Aires: a escrita como um duplo de viver
por Maria Imaculada Angélica Nascimento

Resumo
O objetivo da comunicação será discutir a idéia de que três obras de Machado de Assis remetem à questão da influência/convergência de gêneros literários: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Memorial de Aires. Talvez se possa pensar sobre a questão do equívoco no sentido das letras com o qual Lacan brinca no seminário sobre A carta roubada, conto de Edgard Alan Poe, ao apoiar-se na homofonia de LETTER, que pode ser tanto letra quanto carta: duas dimensões, portanto, possui a carta: mensagem e letra, mensagem e objeto. Os três “pseudo-autores” – Brás Cubas, Dom Casmurro e Aires - escrevem uma espécie de romance que se confunde com um memorial, que, por sua vez, se vincula ao diário “pessoal”: na introdução ao seu romance o próprio Brás Cubas faz referência à dúvida gerada na época do lançamento do seu livro: seria um romance? O narrador de Dom Casmurro mantém uma repetição insistente em “unir as duas pontas da vida”, mensagem que pode passar despercebida ao leitor que não presta atenção à letra, em seus múltiplos significados. Quanto ao Conselheiro Aires, há que se ler nas entrelinhas de sua obra, que ele mesmo intitula Memorial, o modo como ele próprio se desdobra por meio de um “contar” que, aparentemente, fala mais de outras pessoas que de si mesmo. Nesse sentido, penso questões relativas à escrita machadiana que apontam, de certa forma, tanto para o estilo de Machado de Assis quanto para a questão do sujeito no simbólico: não há princípio nem fim, o sujeito está sempre pelo meio ou “em meio a”, como diz Lúcia Castello Branco em Os absolutamente sós.

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Erico Verissimo: O Senhor Embaixador, O Prisioneiro e Incidente em Antares: um estudo sobre o horror
por MARIA DAS GRACAS GOMES VILLA DA SILVA

Resumo
O estudo proposto parte do pressuposto de que há uma ligação das obras de Erico Veríssimo: O Senhor Embaixador (1965), O Prisioneiro (1967) e Incidente em Antares (1971) com o horror presente em O Tempo e o Vento (1949-1962) e Noite (1954). O objetivo é analisar as primeiras manifestações críticas sob o viés da psicanálise a respeito destas últimas obras , foco estrutural do trabalho que desenvolvi, em O Horror Antigo e o Horror Moderno em ‘O tempo e o Vento’ e ‘Noite’ de Erico Veríssimo (2004) e apontar e analisar a conexão atribuída a O Senhor Embaixador (1965), O Prisioneiro (1967) e Incidente em Antares (1971). O suporte teórico empregado é oriundo da psicanálise freudiana. Os elementos que marcam a expressão do horror nas obras são: a questão da culpa, sempre filiada à relação paterna, aos laços maternais, à agressividade humana, à angústia e ao enlace com os sonhos dos protagonistas.O intuito é, pois, apresentar abordagem ampliada a respeito do trabalho de Erico Verissimo, tendo por suporte a psicanálise, para ressaltar que o horror é elemento fulcral para o estabelecimento de sua poética.

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Muito além do jardim... Uma leitura do conto "O jardim selvagem" de Lygia Fagundes Telles
por Marisa Simons

Resumo
A análise propõe-se a desvelar, sob a ótica da crítica temática e conceitos da psicanálise freudiana e lacaniana, a metáfora básica que organiza o conto "O jardim selvagem" de Lygia Fagundes Telles, a qual ambiguamente associa a protagonista à imagem de um "jardim", local de beleza e ordenação vegetal, e ao signo "selvagem", que o qualifica, num evidente contraponto semântico. Acompanhando o foco narrativo que centraliza o tema das relações familiares em um pequeno grupo, analisar-se-á a inquietante estranheza vinculada à linda figura da "tia" Daniela, de palavras gentis e comportamentos extraordinários, tais como o inexplicável uso diuturno de uma luva na mão direita. No embate entre o familiar e o insólito, focalizar-se-á o jogo narrativo em que o terrível encontra-se oculto pelo belo.

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Psicanálise e prazer estético
por Olga de Sá

Resumo
Esta comunicação visa a focalizar como Freud aplica o conceito de prazer na Psicanálise e como a fantasia é a realização de um desejo, que se concretiza na obra de arte. O prazer estético como o prazer de si no outro realiza-se na reciprocidade entre sujeito e objeto. O prazer do espectador deriva da identificação das repressões das personagens, que servem de alívio das tensões reprimidas. O receptor da obra de arte sai de sua atitude contemplativa e transforma-se em co-criador, produtor da obra. Esta atitude antecipa a estética da recepção de Jauss, que privilegia o leitor na História da Literatura e da Crítica literária.

 
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O duplo em "Estória nº 3" de Guimarães Rosa
por SUELY CORVACHO

Resumo
A comunicação explora o tema do duplo em "Estória Nº 3", conto de Tutaméia, de Guimarães Rosa. Perseguido pelo vilão do lugarejo, assassino e violador de mulheres, o acovardado protagonista consegue reverter seu trágico destino, ao perceber que ele e o outro são, na verdade, um mesmo. A análise privilegia aspectos psicanalíticos presentes na composição do duplo e, para tanto, recorre a conceitos da teoria freudiana.

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Entre ruínas e escombros: uma leitura da subjetividade muriliana
por Virgínia Carvalho de Assis Costa

Resumo
O presente trabalho propõe uma leitura do conto "A noiva da Casa Azul", do escritor mineiro, Murilo Rubião, a partir das convergências entre literatura e psicanálise. O universo fantástico de Rubião é lacunar, transgressor de tempo e espaço, remetendo quase sempre ao formato dos sonhos ou de outras formações inconscientes, o que torna a abordagem psicanalítica privilegiada para o desvelamento de aspectos marcantes na narrativa. Meu objetivo é, portanto, investigar os aspectos lingüísticos e estilísticos dos contos de Rubião, percorrendo os mecanismos, através dos quais, o desejo se configura na linguagem, a fim de perscrutar pistas de uma subjetividade vedada, à primeira vista, ao narrador e ao leitor. Tais pistas, à luz da psicanálise, podem oferecer novos caminhos de leitura para o texto muriliano, numa direção de trabalho que sonda, ao mesmo tempo, uma gênese da escrita de Rubião.

 
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“Vermelho, Verde, Amarelo: Tudo era uma vez”
por Adélia Bezerra de Meneses

Resumo
A proposta é um estudo comparativo dos contos de fada Chapeuzinho Vermelho, de Perrault, Fita Verde no Cabelo de Guimarães Rosa e Chapeuzinho Amarelo de Chico Buarque, levando-se em conta que os dois últimos estabelecem um inevitável diálogo com o texto matriz, do século XVII. Com efeito, embora as três narrativas enfoquem a questão do crescimento da criança, serão apontadas as três visões diferentes que elas veiculam: 1) abordagem moralizante e pedagógica do conto de Perrault (os perigos da desobediência infantil, a questão da iniciação sexual); 2) viés metafísico do conto de Guimarães Rosa, (confronto com a finitude e a morte , passagem do plano psicológico ao plano metafísico); 3) enfoque da eficácia simbólica da poesia, no conto de Chico Buarque ( vitória sobre o medo infantil, através do poder da palavra).


Totem, tabu e mal-estar n'A casa do girassol vermelho
por Audemaro Taranto

Resumo
O conto “A casa do girassol vermelho”, de Murilo Rubião, é visto pelos leitores do escritor mineiro como uma narrativa instigante e, ao mesmo tempo, enigmática. Essa suposta dificuldade na leitura do conto chega a ser indicada até mesmo por alguns críticos especialistas que dizem da necessidade de revisitar o texto, visando a compreendê-lo numa dimensão mais apropriada. A partir dessa perspectiva, a comunicação quer propor uma leitura do texto muriliano, fundada na convicção de que a própria narrativa sugere uma abordagem que parecer ser bastante evidente. Isso se justifica na medida em que se percebe que o conto mais do que sugere, isto é, indica mesmo uma leitura que se pode apoiar no Totem e tabu e no Mal-estar na civilização, obras com que Freud propõe o simbolismo da inserção dos indivíduos na cultura e o desenvolvimento das relações sociais no universo do simbólico. Procurando indicar como tais condições se explicitam no conto, o trabalho tem também a preocupação de dizer que as teorizações freudianas servirão apenas como uma estratégia de leitura, ou seja, não se pretende, evidentemente, descurar o texto literário em favor de comprovações histórico-teóricas das obras de Freud.


Desejo e criação literária
por CLEUSA RIOS PINHEIRO PASSOS

Resumo
Em linhas gerais, o tema proposto dá seguimento a considerações anteriores ( e já divulgadas) em torno de elos especulares entre autor, leitor e criação literária. Para tanto, é fundamental recorrer a aspectos teóricos ligados ao saber psicanalítico, tais como as pulsões e o desejo, noções discutidas por Freud e sucessores. Não se trata aqui de sublinhar as intersecções no interior do texto literário propriamente dito e, sim, de buscar vínculos configurados tanto graças à invenção da obra, quanto a depoimentos sobre o que escreveram ou leram seus autores: dentre eles, Clarice Lispector, Julio Cortázar, Graciliano Ramos e Roland Barthes. A experiência de cada um, diante de certas criações, merece reflexão tendo em vista não apenas o que afirmam sobre elas, mas também o que negam, pois aí entram em jogo “efeitos do inconsciente”. Nesse sentido, cabe ainda repensar a passagem da identificação “desarmada” das leituras iniciais – relativas a qualquer obra literária – ao necessário distanciamento crítico das posteriores.


"O bloqueio", de M. Rubião ou outro nome para o recalque
por MARCIA MARQUES DE MORAIS

Resumo
Dando continuidade à comunicação do Encontro Abralic / 2007, pretende-se apontar, em leituras de contos de Murilo Rubião, o "afloramento" do inconsciente como instância importante do processo interpretativo. Essa "amostragem" de leitura psicanalítica da obra do contista "fantástico" almeja, no contexto de uma pesquisa mais alentada, inscrever a produção de Murilo Rubião nos estudos críticos que, na tradição literária, fazem dialogar "arte da palavra" e "saber inconsciente". Sob essa perspectiva, questões relativas às representações da subjetividade, tais como, a constituição do sujeito e sua inscrição no simbólico ( linguagem e cultura) são matéria inequívoca da literatura fantástica que trata, à exaustão, do conflito entre pulsão e sua regulação, entre indivíduo e seu entorno, representado, sobretudo, pela alusão aos laços familiares, à família, ao clã, como instâncias primeiras do mal-estar. Este trabalho fará uma análise-interpretativa do conto " O bloqueio", republicado no livro A casa do girassol vermelho e outros contos (2006) e, a partir dessa leitura, será apontada a recorrência de traços do inconsciente em outros contos de Rubião, responsáveis por enigmas que reclamam um desvelamento.


A cena proibida em "Cara-de-bronze", de Guimarães Rosa
por Yudith Rosenbaum

Resumo
A proposta desse estudo é investigar, à luz da psicanálise, revelações e ocultamentos que constróem a trama enigmática de "Cara-de-bronze", narrativa que integra Corpo de baile, de Guimarães Rosa. "Olhando no espelho da velhice", o fazendeiro e personagem-título pede ao vaqueiro Grivo que vá à sua terra de origem e lhe traga "o quem das coisas". Entre ambos se estabelece, a partir dessa demanda do homem velho e doente, "uma conversação nos escuros", entremeada de silêncios e descobertas. O quarto do patrão é o local velado desta conversa escondida, a qual ninguém tem acesso. Enquanto as demais personagens buscam decifrar a cena proibida, um texto latente se apresenta ao leitor. Conceitos psicanalíticos, como "cena primária", "transferência", "deslocamento", "condensação", "lembrança encobridora", entre outros, serão agenciados na busca de sentidos que iluminem a narrativa. Por fim, cabe ressaltar a inversão que Rosa opera dos lugares de analista e analisando - núcleo do processo analítico: enquanto o paciente, Cara-de-bronze, escuta, Grivo, o poeta-analista, fala.