LITERATURA E HISTÓRIA: O PASSADO COMO CAMPO DE BATALHA


Coordenadores
Prof. Dr. Marcelino Rodrigues da Silva (UNINCOR-Três Corações/MG)
Profa. Dra. Sonia Cristina Reis (UFRJ)
Resumo: O objetivo do simpósio é reunir trabalhos que se dediquem à reflexão sobre diferentes formas de recuperar, representar e interpretar o passado, a partir da análise e da comparação de obras pertencentes a modalidades discursivas diversas, especialmente a historiografia, a literatura e as outras artes. Tomando como premissa a percepção do caráter lacunar e incompleto da linguagem, posto em evidência pela elaboração estética e explorado insistentemente pelo pensamento contemporâneo, considera-se que em qualquer modalidade discursiva a representação do passado é inevitavelmente impregnada de interpretação, revelando-se como "ilusão referencial" toda pretensão de fidelidade aos acontecimentos. Dessa forma, o passado torna-se objeto de um complexo processo de disputa e negociação, no qual a literatura e outras modalidades discursivas podem desempenhar papéis distintos e muitas vezes antagônicos. Nesses combates discursivos em torno do passado, portanto, estão implicadas questões como os tênues limites entre realidade e ficção, os processos discursivos de identificação e constituição das subjetividades individuais e coletivas e o papel das posições enunciativas na apreensão simbólica da vida, que deverão ser discutidas nos trabalhos apresentados no simpósio. "

Subtema: Literatura e outros saberes

Camilo Castelo Branco e Graciliano Ramos e suas “Memórias do Cárcere”
por Ana Vera Raposo de Medeiros

Resumo
A reflexão aqui proposta é um exercício de comparação entre os textos homônimos de Camilo Castelo Branco e de Graciliano Ramos que, a seus distintos tempo e hora, respectivamente 1861 e 1946, escreveram as suas “Memórias do Cárcere”. Para além do mote homonímico é interessante notar como os dois autores lidaram com questões complexas como, por exemplo, o caráter lacunar das memórias, os esforços despendidos na interpretação da memória que realizaram, a batalha travada entre o manifesto desejo de lembrar e a vontade de esquecer, enfim, as dificuldades do texto construído pelo resgate das lembranças de um passado, no mais das vezes, doloroso. Essas “Memórias do Cárcere” s ão sem dúvida, uma forma de escrita autoral, mas dão-nos também o testemunho de um tempo e de um meio social, somando conhecimentos históricos e políticos ao relato pessoal. Na realização desse exercício atentamos para as particularidades do discurso memorialístico. Se a memória é um tema caro aos estudos literários, as memórias do cárcere destacam-se pelo delicado de uma situação que oprime e constrange e ainda faz rememorar.

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IMPRENSA E FEMINISMO DO SÉCULO XIX NO SUL DAS GERAIS
por Aparecida Maria Nunes

Resumo
Francisca Senhorinha da Motta Diniz, educadora e romancista, integrou o movimento feminista brasileiro do século XIX, no sul das Minas Gerais. Empreendedora, utilizou a imprensa para mobilizar a opinião pública em defesa das causas abolicionistas e republicanas, ao lado do direito da mulher à educação. Ao resgatar e entender o periódico que idealizou – O Sexo Feminino, publicado em 1873 na provinciana Campanha, no sul das Gerais, mais tarde editado na corte sob o nome O Quinze de Novembro do Sexo Feminino – submerge o retrato de uma época em ebulição que a mídia do período soube transmitir e preservar mediante os textos opinativos do semanário e da história folhetinesca da judia Rachel. A trama bem urdida da subjugação da mulher ao homem e ao poder, escrita por Francisca em parceria com a filha Albertina, seria lançada em livro no ano de 1886 e evidencia o tom panfletário do discurso de autoria feminina.

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Gaúchos de paz nas guerras dos caudilhos
por Carlos Rizzon

Resumo
Tradicionalmente, a historiografia literária brasileira conceitua as narrativas de cunho regionalista por marcas específicas de linguagens e paisagens locais, desenhando um movimento de delimitação e restrição do espaço. No entanto, ao colocar em relação a literatura regional do Rio Grande do Sul com obras produzidas na região do Rio da Prata, considerando as históricas análogas de conflitos de fronteira e guerras civis no sul do Brasil, na Argentina e no Uruguai - território pampiano de constantes lutas durante quase 400 anos -, aprofundamentos mais amplos podem ser explorados, como a remodelação de identidades e alteridades de personagens que transitam de um a outro lado das fronteiras nacionais. Existe, também, uma tradição de representações míticas do gaúcho, apresentado como o "centauro dos pampas" ou o "monarca das coxilhas". Porém, as análises dos contos "O herói não foi à guerra", do brasileiro Walmor Santos, e "Cavalos do amanhecer", tradução de Sérgio Faraco para o conto "Un cuento con un pozo", do uruguaio Miguel Arregui, desconstroem essa imagem para denunciar situações de opressão enfrentadas pelos gaúchos recrutados para as guerras.

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A POESIA DE IVAN JUNQUEIRA E O MITO DE INÊS
por GEYSA SILVA

Resumo
O mito de Inês de Castro atravessa os séculos e alcança a literatura brasileira, conduzindo o poeta Ivan Junqueira pelos labirintos da vida da rainha e de seu mito, que a tradição encarregou-se de legar aos que se debruçam sobre esse trágico episódio da história de Portugal. É exatamente ao atravessar a linha do tempo que a História se transforma em campo de batalha, onde a veracidade e a emoção se encontram para, driblando a mímesis, constituirem um amálgama que permanece como elo entre duas nações, agora unidas não só pela língua, mas também pela arte. Ao ouvir as ressonâncias de narrativas populares e eruditas sobre o tema em questão, Ivan Junqueira dá nova existência ao amor desvairado entre D. Pedro e Dona Inês.

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Ecos da Geração 'Beat' na literatura italiana
por Hilario Antonio Amaral

Resumo
Pier Vittorio Tondelli (1955-1991) explorou como poucos, ou tantos, os tênues limites entre realidade e ficção. É fato que sua obra (1980-1991) revela um grande apreço pelos autores norte-americanos denominados The beats. Seu primeiro romance Altri libertini (1980), publicado pela tradicional e esperta Feltrinelli, foi retirado das prateleiras italianas sob acusação de obra obscena. Felizmente, a justiça, pressionada pela indignação geral, retirou a própria venda e revogou a proibição da venda do livro. Já Camere separate (1991), autobiográfico além do umbigo, confirma seu desejo de dar voz aos malvistos e àqueles que nada mais querem senão registrar suas alegrias, tristezas e morrer em paz.

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Discurso íntimo e discurso coletivo nas "Memórias" de Pedro Nava
por Júlio de Souza Valle Neto

Resumo
Em carta enviada ao jovem Drummond nos anos 20, Mário de Andrade identificava o seu principal anseio literário naquele momento: “... tornar o menos pessoal possível minhas coisas pra que se tornem gerais.” Com isso, o escritor sugeria mais um caminho para a busca modernista por uma identidade nacional: “despersonalizar”-se, de modo a alcançar, através de um esvaziamento do eu, uma sorte de discurso coletivizante. Meio século depois, as Memórias de Pedro Nava, autor que se julgava “dentro do Modernismo de Mário de Andrade”, parecem corporificar o anseio do poeta paulista. Com elas, Nava declarava fazer mais “literatura de testemunho” do que autobiografia – buscava, enfim, “desindividualizar”-se. Entretanto, este processo complexo – porque estilístico, histórico-literário e genérico - está longe de ser pacífico. Afinal, em que medida um discurso literário pode comportar um esvaziamento do eu – especialmente num gênero de apelo egocêntrico tão evidente como o memorialístico? Esta comunicação pretende explorar o jogo ao mesmo tempo conflituoso e conciliador entre o eu e o nós nas Memórias de Pedro Nava, salientando as estratégias discursivas dispensadas a forjar uma sorte de “consubstanciação” pela qual se embacem os limites, a rigor incontornáveis, entre o próprio e o alheio.

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A (DES)CONSTRUÇÃO DE MITOS NACIONAIS EM "LAMBÕES DE CAÇAROLA", DE JOÃO ANTÔNIO E EM "AS NAUS", DE ANTONIO LOBO ANTUNES.
por Luciana Cristina Corrêa

Resumo
O presente trabalho, financiado com uma bolsa de estudos de pós-doutorado da (fapemig), procura investigar a (des)construção de mitos nacionais históricos, entre eles, o presidente brasileiro Getúlio Vargas, na narrativa brasileira contemporânea e, no caso do texto de Lobo Antunes, a (des)construção de importantes ícones no nacionalismo português, partindo do pressuposto de que ambos os textos tocam em questões políticas como as do período Getúlio Vargas, no Brasil e as do período posterior à guerra colonial (1961-1974), em Portugal. Cumpre-nos ressaltar que no livro brasileiro o resgate memorialístico aparece sob a forma de lembranças da infância e a dessacralização acontece de uma maneira mais clara, já no texto português, surge na forma de paródia e transposição do oficial e ilustre passado histórico lusitano, para o presente saturado das agruras sociais provenientes do conturbado momento em questão. Diante dessa premissa, contribuímos no sentido de revelar a complexidade e, ao mesmo tempo, a diversidade estilística de ambos os escritores contemporâneos, pois representam, cada um a sua maneira e em espaços sociais diferentes, as inquietudes e mazelas do homem moderno.

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A narrativa de João Gilberto Noll e as reconfigurações dos processos de constituição de subjetividades
por LUIZ FERNANDO MEDEIROS DE CARVALHO

Resumo
Examina-se, nos contos e na obra romanesca de Noll, a metamorfose da referência ao contexto social datado, bem como transformações nos processos de constituição de subjetividades. Demonstra-se como uma forma de escrita narrativa engendra um tipo de estranhamento e resistência aos modelos identificatórios.

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Memórias do sul de Minas: ambigüidades da modernização
por MARCELINO RODRIGUES DA SILVA

Resumo
No estudo da memória cultural de comunidades do sul de Minas Gerais, ao lado de certos temas teóricos (como a relação entre memória e identidade, as fronteiras entre literatura e história e as interseções entre narrativa e interpretação), destaca-se fortemente a questão histórica da modernização. De certo modo, os discursos que falam do passado nessas comunidades tendem a colocar em pauta alguma forma de percepção de sua trajetória ao longo do processo sempre precário e incompleto de chegada da modernidade. Junto com as fábricas, máquinas e estradas de ferro, costumam estar presentes o triunfalismo progressista, o sentimento de perda das tradições, o desejo de reconstruir o pertencimento, o desencantamento do mundo etc. Assim, a trajetória de modernização dessas sociedades configura-se como um processo repleto de conflitos materiais e ideológicos, provocando transformações que são vista quase sempre de modo ambíguo e contraditório. O objetivo deste trabalho é refletir sobre esse processo, a partir de meu trabalho como orientador de pesquisas que tomam como objeto de estudo textos literários e outras manifestações culturais de comunidades da região de Três Corações.

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O outro possivel: a poesia de Armando Freitas Filho em diálogo com CDA
por Mariana Campos

Resumo
Medindo-se com poetas modernos, em especial CDA, Armando Freitas Filho reconhece nele a exata velocidade para medir a máquina do mundo. A ânsia em busca do outro, da similitude é marcada em sua poesia. Para o poeta há sempre algo oculto que não se define. Contudo, a partir das questões que surgem no poema tentarei problematizar o intervalo que mantém o eu – poético em consonância com o (tornar-se) outro, baseado na Fenomenologia da Alteridade do filósofo Levinas. O corpus da pesquisa a ser analisado é constituído pelos poemas publicados em Numeral/ Nominal e Raro Mar. Nesse sentido, reflito a questão do tempo como fundamento que possibilita nessa busca ao outro uma mudança. Qual o sentido que AFF confere à apropriação que faz dos poemas drummondianos? Que enigma é esse que constantemente o eu - lírico procura solucionar?

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Moravia: o intelectual e a historiografia literária
por Marinês Lima Cardoso

Resumo
A relação entre o intelectual e a sua obra literária é o tema do romance L’amore coniugale (1949), do escritor italiano Alberto Moravia (1907-1990). Nesse tema, transparece a tensão entre o tradicional e o novo em relação ao conceito de obra literária na historiografia literária italiana. O protagonista da narrativa moraviana almeja escrever uma obra que narre a sua relação amorosa com a esposa. Entretanto, trata-se de um projeto que fracassa, pois o século XX não favorece mais as narrativas longas, idéia que é duplicada, também, na frustração no campo afetivo quando ele descobre que a sua esposa o trai, revelando também a impossibilidade de escrever sobre um quadro idílico que ele acreditava viver com a esposa.

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Responder ao futuro e perguntar ao passado
por Renata Telles

Resumo
Desenterrar o passado significa encontrar mais de uma resposta para a mesma pergunta, transitar em uma zona de indiferenciação entre o real e o imaginário, o verídico e o verossímil, suportar o insuportável: a verdade nunca é acessível. Em busca dessa resposta, Nove Noites de Bernardo Carvalho encontra (auto)biografias.Entre cartas deixadas para o futuro em 1939 e pesquisas do passado em 2001, entre a sobreviv~encia da memória e fragmentos de arquivos e lembranças, constroem-se e reconstroem-se sete décadas de uma história marcada pela permanência da guerra (mundial, Vietnã, Golfo) que tem como personagem os dois narradores, os índios e os pesquisadores, brasileiros e americanos, o Estado Novo, a Ditadura Militar e o Governo Civil. Na sobreposição de tempos e narradores, memórias e documentos, armam-se maneiras de ler e de escrever que nos falam sobre eles e nós, sobre o passado e o presente, sobre a literatura e a história.

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Savinio: a História como um campo de contestação
por Sonia Cristina Reis

Resumo
Na obra Dico a te, Clio , de Alberto Savinio, a escrita traz uma reflexão sobre a História como uma espécie de conjunto das ações humanas, que são recolhidas como recifes, deixados pelos homens durante o se u percurso em vida. Trata-se de uma narrativa epigráfica e singular , emoldurada em duas tênues partes - a primeira dedicada ao Abruzzo e, a segunda, a Etrúria - , em que é a presentada uma reformulaç ão n ão s ó d o conceito de Hist ória, mas tamb ém de suas interpretaç ões correntes .

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Histórias de Literatura: um balanço no calor da hora
por Cristiane Brasileiro Mazocoli Silva

Resumo
Nosso trabalho se dedica a refletir sobre os pressupostos e as repercussões teóricas de experiências recentes ocorridas no campo da historiografia literária no Brasil. Nosso corpus será composto inicialmente pelas obras Nenhum Brasil Existe (volume enciclopédico organizado por João César Castro Rocha), História da Literatura Brasileira (de Carlos Nejar) e ainda Uma História da Poesia Brasileira (de Alexei Bueno), que serão confrontadas entre si e compreendidas em seu contraste com as histórias já clássicas lançadas em fins da década de 50 por Antonio Candido a Afrânio Coutinho e a partir da década de 70 por Alfredo Bosi. Paralelamente, buscaremos captar a relação desses lançamentos com o boom relativamente recente das novas antologias literárias. Nossa hipótese principal, inspirada em temas levantados por H. U. Gumbrecht: estaria havendo um certo recuo dos discursos de “produção de sentido” na historiografia em favor de práticas de “produção de presença”. Que repercussões isso teria para a fixação e a concepção mesma do passado literário e que questões as obras estudadas levantariam sobre os desafios e as possibilidades atuais do próprio ensino da literatura serão os pontos sobre os quais nos debruçaremos.