LITERATURA E HISTÓRIA: AS QUESTÕES DIALÉTICAS DA PRODUÇÃO LITERÁRIA EM NAÇÃO PERIFÉRICA


Coordenadores
Profa. Dra. Germana HENRIQUES Pereira de Sousa (UnB)
Profa. Dra. Deane Maria Castro e Costa (UnB)
Prof. Dr. Mario Luiz Frungillo (UNICAMP)
Resumo: A relação entre literatura e história torna-se mais estreita e peculiar na formação de literaturas que, como a brasileira, se produziram em regiões que passaram a fazer parte do sistema-mundo em condição periférica pela via da colonização mercantil européia. No caso da literatura brasileira, o chão histórico de sua produção foi fundamental para que a literatura internalizasse em suas formas um caráter empenhado na emancipação da colônia e na consolidação da independência nacional. A produção literária está, assim, organicamente vinculada à condição colonial da origem do país em relação ao mundo de que é parte integrante mas não integrada. O senso histórico que perpassa a produção literária nacional é um traço do adensamento das contradições estéticas, políticas, sociais e econômicas que dão o tônus da vida literária brasileira, iluminando muitos dos pontos de tensão que articulam a forma literária ao processo social. Nesse simpósio pretendemos discutir a relação entre literatura e história a partir das questões dialéticas da produção literária em nação periférica, atendo-nos às seguintes questões: literatura e senso histórico; formação da literatura brasileira e dialética local/universal; a relação dialética entre literatura e nação periférica; formação e representação; produção literária, trabalho e reificação; literatura como autoquestionamento em país periférico. Como essa condição colonial é comum a diversas outras regiões periféricas do sistema-mundo, atentaremos igualmente para as questões que dizem respeito à expressão literária na língua do colonizador e à problemática das línguas nacionais, assim como à literatura e projetos de nação. "

Subtema: Literatura e outros saberes

Pragas brasileiras n'Os bens e o sangue de Drummond
por Alexandre Pilati

Resumo
O longo poema "Os bens e o sangue", que Carlos Drummond de Andrade publica em Claro Enigma (1951), pode ser lido como a formalização literária de um contrato fundador da nação brasileira moderna. Nele encontram-se as idéias da "praga" e do "sarro", coisas insuperáveis, que representam resquícios do mundo patriarcal que não só acha superado na modernidade. No violento poema que é uma alegoria dos rearranjos da elite brasileira na sua busca predatória por poder, a lógica da trapaça impera, dando a ver, com contundência, a lógica de barbárie que se verifica subsumida ao avanço modernizador do país.

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“Como em grandezas tanto horror se troca”. Representação literária e a mercadoria como forma do Brasil Colônia.
por Ana Laura dos Reis Corrêa

Resumo
Na sexta estrofe de seu poema “Oitavas”, Alvarenga Peixoto escreve um verso que sintetiza o eixo temático sobre o qual se estruturam os 160 versos que compõem esse texto árcade escrito no Brasil do século XVIII: “Como em grandezas tanto horror se troca”. Esse verso condensa o sentido do poema e também o trabalho de sua composição baseada no processo da troca. A troca se apresenta como o ato estético capaz de engendrar o poema e é responsável pela sua consecução, tornando-se, simultaneamente, o assunto do poema e a representação literária da condição histórica da produção do texto pelo poeta. O processo estético e histórico-econômico da troca estabelece os limites e contornos que dão existência ao poema em relação ao tempo e ao espaço histórico em que as “Oitavas” foram produzidas.

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As letras do arco-íris: a formação da nação literária sul-africana no pós-apartheid.
por Anderson Bastos Martins

Resumo
Oficialmente, o apartheid foi revogado na África do Sul em 27 de abril de 1994, quando Nelson Mandela foi eleito Presidente do país no histórico pleito em que, pela primeira vez, brancos e negros votaram lado a lado. A abolição do regime trouxe em sua esteira o fim da luta de resistência ao sistema de segregação racial. Com isto, um importante debate surgiu no meio da escrita ficcional e da crítica literária do país, uma vez que o racialismo/racismo de Estado, assim como os movimentos de resistência a este, haviam constituído a temática fundamental da literatura sul-africana da segunda metade do século XX. O fim do apartheid gerou uma acalorada discussão que, tendo em sua base as relações entre a política e a estética, trouxe à tona a necessidade defendida por muitos críticos de que a ficção sul-africana voltasse sua atenção aos temas supostamente universais, bem como ao desenvolvimento das formas literárias em si, que haviam sido preteridos pelas urgências locais de denúncia social. Deste embate político e conceitual, surgiram as primeiras abordagens acerca da possível formação de uma literatura nacional sul-africana num período que, paradoxalmente, coincide com a crítica da nação moderna enquanto sustentáculo das literaturas nacionais.

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Menino de engenho e a dialética de uma literatura que se autoquestiona
por Antonio Cezar Nascimento de Brito

Resumo
Este trabalho centra-se na mudança de posição do narrador de Menino de engenho , evidenciado pelo movimento dialético de aproximação e distanciamento com o seu eu menino e na mudança de posição do narrador diante das situações em que viviam os trabalhadores do engenho, que propomos tratar-se de um gesto estético do escritor que internaliza e evidencia contradições histórico-sociais da formação do Brasil. Isso sugere uma leitura de Menino de engenho como autoquestionamento da literatura, onde esta é assumida como forma de poder, como discurso comprometido com a exploração das massas iletradas e marginalizadas. O autoquestionamento é, assim, uma espécie de representação das formações discursivas e da luta de poder que se trava em seu interior. O conflito observado no romance de José Lins do Rego, portanto, é um conflito discursivo, do narrador enquanto representante daquele que faz parte da narrativa, mas não tem autonomia para narrar. O modo como Menino de engenho é narrado sugere, do início ao fim, a tentativa de representar não apenas a infância no engenho ou a realidade imediata do Nordeste, mas também o propósito de ser a mimesis de um modo de narrar, de um poder de representar o mundo ligado às camadas populares.

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“Linhas tortas” e o problema da representação literária engajada no Brasil de 30.
por Bernard Herman Hess

Resumo
Investigo, tendo como ponto de partida algumas crônicas de Linhas tortas, de Graciliano Ramos, o problema da literatura engajada ou empenhada na produção literária dos anos 30 no Brasil. Essa investigação abarca, ainda, um esboço de análise comparativa entre a questão do engajamento da produção da década de 30 na literatura brasileira e a crítica de romances e contos russos e soviéticos. A representação literária e os limites entre literatura didática, realismo, naturalismo, ficção e sociologia é um problema que deve ser também considerado nesse trabalho.

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O LIMITE DA LITERATURA NO CONTO “A TERCEIRA MARGEM DO RIO”, DE GUIMARÃES ROSA
por Daniele dos Santos Rosa

Resumo
Pretendo – a partir do conto “A terceira margem do rio” – compreender como se deu a apreensão transfiguradora da realidade nacional na obra de Guimarães Rosa a partir do processo de formação da literatura brasileira. Busco, na relação entre os personagens principais, o país e a literatura, analisar como Rosa tratou a fórmula estilística nacional, considerando seu empenho em conhecer o país em sua situação periférica. Busco compreender como se deu o autoquestionamento literário, baseado na sua tentativa de universalização do local, tendo por base a necessidade de se repensar a sua posição diante do trabalho estético e, principalmente, do país que busca compreender, evidenciando seus limites e dilemas.

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O CONTINENTE, DE ERICO VERISSIMO, E YAKA, DE PEPETELA: ROMANCES HISTÓRICOS TRADICIONAIS?
por Donizeth Aparecido dos Santos

Resumo
O continente , primeiro romance da trilogia O tempo e o vento, de Erico Verissimo, e Yaka, do escritor angolano Pepetela, são romances históricos que, partindo de uma situação colonial, procuram representar literariamente a formação das regiões de origem dos dois autores: o Rio Grande do Sul de Érico e a Angola de Pepetela. A partir do status de “romance histórico” que as duas obras possuem, procuremos, nesta comunicação, refletir sobre qual tipo de romance histórico em que elas se enquadram: seria um romance histórico tradicional, conforme o modelo lukacsiano, ou um novo romance histórico, conforme o conceito de Seymor Menton, ou seria ainda um romance histórico de transição entre o modelo romântico do século XIX e o contemporâneo? Nesse sentido, procuraremos responder essas questões com base na análise dessas duas obras literárias.

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Confrontos e Convergências entre “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, e “A Rainha dos Cárceres da Grécia”, de Osman Lins
por Eiliko Lutz Pfeiffer Flores

Resumo
Este estudo pretende uma comparação entre os romances “A rainha dos cárceres da Grécia”, de Osman Lins, e “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, publicados respectivamente em 1976 e 1977. Na perspectiva da historiografia literária brasileira, o estudo dos dois romances mostra-se praticamente inseparável. O objetivo deste estudo é ressaltar as semelhanças entre as duas obras, extremamente significativas, e, a partir dessas semelhanças, chegar a uma análise profunda de suas diferenças. Dentre as semelhanças entre as duas obras, estão a problematização do avanço da indústria cultural, a presença de uma migrante do campo para o centro urbano, a opção por uma representação literária mediada pela exposição do trabalho do escritor (Rodrigo S. M., em C. Lispector, e Julia Enone, em O. Lins), a presença da figura do Destino (na metáfora da mão como texto em Lins, e na aparição da cartomante em Lispector), bem como a utilização da ironia no trabalho formal e estrutural. Nas diferenças presentes no tratamento de temas semelhantes, cada obra logra soluções estéticas e problematizações específicas: seu estudo comparativo é capaz de uma produtiva iluminação recíproca.

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O mundo desaba, uma leitura de Things Fall Apart de Chinua Achebe
por Fernanda Alencar Pereira

Resumo
Trata-se de fazer uma leitura de Things Fall Apart (1958), o primeiro romance do escritor nigeriano Chinua Achebe, considerado pela crítica como um mediador entre a África e o mundo ocidental. Things Fall Apart narra a história de Okonkwo, um respeitado guerreiro igbo que vê seu mundo sofrer mudanças profundas com a chegada do colonizador britânico. Analisando esse romance, divisor de águas da literatura nigeriana, me proponho a refletir sobre algumas questões, como a relação entre escritor/ língua do colonizador/ línguas nacionais; formação da nação e da nacionalidade e a formação de um sistema literário local. Evidenciarei a relação entre a produção literária em nação periférica e o processo histórico de descolonização africana.

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O Brasil em Oran: análise da tradução para o português do Brasil do romance “La peste”, de Albert Camus, realizada por Graciliano Ramos
por GERMANA HENRIQUES PEREIRA DE SOUSA

Resumo
O romance “La peste” começou a ser escrito por Albert Camus durante os primeiros anos da guerra, sendo publicado em 1947. Nascido sob o signo do grande desastre humanitário que representou a segunda guerra mundial, o romance traz consigo essa carga do trágico que assolou as populações durante esse período. Ambientado em Oran, na Argélia, país natal de Camus, o romance retraça a seu modo a experiência do isolamento vivida pelos argelinos, vítimas de uma epidemia de febre tifóide nos anos de 1941 e 1942. A tradução desse romance no Brasil foi encomendada a Graciliano Ramos por José Olympio e publicada em 1950. Vale salientar a importância da empreitada já que Graciliano não era um tradutor contumaz. Daí o interesse em se estudar essa tradução, que destoa do conjunto das traduções brasileiras de obras canônicas francesas, no que se refere à obediência à norma padrão, ao cultismo, à estrangeirização. Propomos, nesse trabalho, realizar o cotejo entre as duas obras, e também entre elas e a tradução promovida pela Ed. Record, em 2004, não sem antes situar essas questões na problemática da contextualização histórica da tradução no Brasil: o fenômeno literário e a tradução num país periférico.

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A literatura brasileira e a questão nacional
por Gustavo Arnt

Resumo
O presente trabalho apresenta uma análise da relação entre literatura e nação no Brasil, abordando desde a literatura colonial, passando pelas gerações mais representativas da literatura brasileira, até chegar à discussão acerca da permanência/ ausência da construção da nação nos horizontes da literatura brasileira contemporânea. Numa era em que o pensamento pós-modernista impera e as mortes da nação, das identidades, da história etc. são anunciadas e celebradas a todo momento, busco recolocar a discussão sobre nação sob uma perspectiva que tem como alicerce o pensamento materialista histórico dialético. Conforme aponta Antonio Candido, historicamente o desejo de fazer a literatura brasileira foi também o desejo de construir o país. Contudo, ao analisar essa história percebe-se que literatura brasileira se forma, mas a construção da nação fica emperrada no meio do caminho. Esse impasse levou-me a investigar com mais profundidade o modo como se dá a relação entre literatura e nação no Brasil, analisando dois lados de uma mesma moeda: um lado é o da construção da nação colocando-se como matéria para os escritores; o outro lado é o da própria literatura fazendo parte de um projeto (ou projetos) de nação.

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A narrativa como “ato socialmente simbólico”: leitura de “A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector.
por Jairo Silva

Resumo
Como de costume, as investigações acerca do romance da autora jamais contemplam as questões sociais, identificadas com a “análise cultural marxista”, opção teórica defendida por Jameson, consoante com uma atitude interpretativa, associada ao que ele conceitua como “ato simbólico”. Isto é, a mediação sob o crivo ideológico das contradições histórico-sociais, compreendendo-se estas não pelo viés do senso comum, que as enclausura na interlocução entre contextos situacionais, lidos apenas nos limites de sua referencialidade, tal como se processa nas análises, normalmente fundamentadas de acordo com a visão da sociologia positivista. Isso posto, minha intenção é relacionar a obra de Lispector à luta-de-classes que, coincidentemente, eclode de forma mais acirrada durante o golpe militar de 1964; portanto, o mesmo ano da publicação de sua obra.

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Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar: continuidade e ruptura no ambiente de produção literária dos anos 70
por Leonardo Gonçalves de Menezes

Resumo
O trabalho discute o ambiente de produção do romance Lavoura Arcaica, do escritor paulista Raduan Nassar, tendo em vista os enfrentamentos estéticos que deram luz a obras bem diferentes em um curto período de nossa história (anos Setenta), período marcado por uma dura repressão política que se espraiava para todas as esferas da sociedade brasileira, principalmente no campo cultural, de onde aspectos ideológicos podiam não apenas ser percebidos no direcionamento das obras literárias em si, mas, principalmente, irradiados de modo desigual para uma nação que então entrava definitivamente na era da comunicação de massa, em plena vigência da indústria cultural. As escolhas formais (e temática) envolvidas na produção de Lavoura Arcaica opõem-se à linguagem-verdade de muitas obras da época, permitindo considerar a obra uma alegoria do processo de opressão acentuada pelo estado de exceção que foi a ditadura militar, além de um trabalho profundamente lirico com o tema da tradição, da cultura e do indivíduo em conflito com a ordem do mundo patriarcal e do trabalho. A análise desses aspectos tem por fim relacionar Lavoura não apenas com as obras internas ao período, mas também traçar as linhas possíveis que situem a obra no corpo do Sistema Literário Brasileiro.

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O samba da desilusão
por Manoel Dourado Bastos

Resumo
Em Samba, o dono do corpo, Muniz Sodré apresenta de forma particularmente bem estruturada o significado do samba no interior da sociedade brasileira. Aqui, queremos interpretar o significado da sociedade brasileira no interior do samba – em especial, o samba de Paulinho da Viola. O samba é a expressão de uma sociedade cindida, cujos antagonismos sócio-raciais o fundamentam ao mesmo tempo em que nele são representados, de sorte que, em linhas gerais, podemos ver aí um feixe histórico de configurações cancionais das relações sociais da população brasileira em seu corte sócio-racial. Para compreender esta configuração cancional, tomaremos a obra de Paulinho da Viola como guia. Certas canções de Paulinho da Viola insistem em se oferecer a uma caracterização alegórica como uma de suas prováveis interpretações. Esta oferta nunca é categoricamente segura, visto que as canções não dão garantias internas (e definitivas) de que sua chave seja mesmo alegórica. A alegoria aparece sempre como uma insinuação, um caminho entre outros, em geral contrastado com a figuração factual, mesmo quando lírica, de seu assunto. O elemento singular do samba, aquele que concretiza em si, como esteio da totalidade, a “integração do negro na sociedade de classes” (para falar com Florestan Fernandes) é, como se sabe, o malandro. Porém, Nuno Ramos nos lembra que a linhagem do samba a que Paulinho da Viola está filiado não se centra numa figuração afirmativa do malandro e da malandragem. Ao sentido dominante do samba como a figuração da malandragem, Ramos identifica um outro. Trata-se daquele samba de quem foi derrotado pela história. Nada mais, nada menos do que a figuração da “discriminação e desigualdade raciais no Brasil” (para falar com Carlos Hasenbalg). A este tipo podemos chamar de samba da desilusão. O samba da desilusão é o espaço onde o povo fala da história em negativo, a contrapelo. É outra maneira de figurar o concreto, representando a cisão social que lhe define e apontando ao mesmo tempo para o lugar em que as iniqüidades materiais estariam definitivamente em suspenso. Os motivos líricos destes sambas, em que os indivíduos figuram como motivo central dos problemas apresentados, são a expressão singular de uma narrativa histórica coletiva – esta antinomia é a chave crítica da zona de indecisão entre alegoria e símbolo, a forma cancional que coloca à mostra a organização social excludente que também se costuma chamar de Brasil.

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DISCURSOS DA PERIFERIA EM TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
por Maria Celina Novaes Marinho

Resumo
Como forma prestigiada de leitura do mundo, a literatura tem um importante papel como um dos meios pelos quais a existência simbólica dos grupos sociais se vivifica e se consolida. A assimilação da matéria local em um fazer literário constituído a partir de modelos estrangeiros foi tomando forma aos poucos, no processo de construção da literatura brasileira. Quem somos? é uma pergunta constante nesse processo e também um dos motes da obra de Lima Barreto. Em Triste Fim de Policarpo Quaresma, é analisada a atração contínua que a periferia manifesta em relação ao centro. E isso é mostrado tanto pela necessidade de legitimação que manifesta o suburbano em relação aos modos burgueses da Rua do Ouvidor, como também pelo próprio esforço mimético da elite brasileira em relação ao estilo de vida da burguesia européia. Em oposição a isso, aparece o nacionalismo ingênuo e exagerado de Policarpo Quaresma. O romance mostra como o homem comum traduz para a vida privada a ideologia veiculada, na esfera pública, pelos grupos dominantes.

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CONTROVERSO E CONTRADITÓRIO: SOBRE CANAÃ DE GRAÇA ARANHA.
por Mário Luiz Frungillo

Resumo
Canaã de Graça Aranha sempre gozou de uma fama ambígua. Enquanto parte da crítica enfatiza seu caráter moderno e antecipatório do modernismo, a atitude dos próprios modernistas foi antes de rejeição que de reconhecimento. Junto ao público leitor, o romance passa por ser obra de irremediável chatice. Sendo livro de feitura eclética, em que se mesclam diversas tendências artísticas e de pensamento, parece obra destinada a nunca atingir um consenso a respeito do valor de sua contribuição, mas, por outro lado, não se pode negar que alguns dos defeitos tradicionalmente atribuídos pela crítica ao romance não resistem a uma leitura mais atenta. A pergunta sobre o lugar que o romance pode ocupar hoje em nossa tradição literária talvez tenha que partir justamente de suas contradições.

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A formação da literatura brasileira no século XIX
por Rafaela Mendes Mano Sanches

Resumo
A formação da literatura em países de situação pós-colonial exige a busca de uma matriz identitária que exclua o outro, principalmente, o colonizador. No Brasil, as primeiras historiografias literárias do século XIX direcionam a reforma poética para a particularização dos temas literários e dos meios de representá-los, coordenados pelos parâmetros de originalidade e nacionalidade. Nessa esfera, analisar-se-á como os intelectuais oitocentistas lêem o impacto cultural causado pelos colonizadores sobre a vertente simbólica brasileira, estudada até aquele momento em função da ausência de uma literatura genuinamente nacional, e como articulam um “contra-discurso”, plasmado em um nível superficial, pois, apesar de parecer opor-se ao outro, apenas inverte o mesmo discurso eurocêntrico, doutrinador de um único eixo sintagmático: centro/ periferia. Além das diretrizes românticas, revisitar-se-á a discussão sobre a literatura transpor as barreiras do local e incorporar o universal, sem, entretanto, abandonar o conceito de caráter nacional. Nessa direção, nosso objetivo é promover contrapontos entre as leituras analíticas das historiografias e o contexto histórico nacional e estrangeiro, ademais de estabelecer uma relação dialética e dialógica entre a crítica literária e a produção simbólica, tendo em vista a tensão entre as concepções que regem o termo nacional e as que regem o termo universal.

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Paulo Honório: um Fausto cambembe
por Vivianne Fleury de Faria

Resumo
Neste trabalho, cotejamos o romance “São Bernardo” com um conjunto de narrativas fáusticas da literatura ocidental a fim de demonstrar que todas as obras que retomam o mito de Fausto, entre elas o romance de Graciliano Ramos, são narrativas da modernização, ou seja, são obras que versam sobre a chegada do moderno capitalismo em cada parte do mundo. Contudo, as implicações da “modernização sem ruptura” (RESTREPO, 1996), ainda em andamento nos países colonizados, são distintas e mereceram resoluções também distintas nas obras da tradição local, como no romance de Graciliano.

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A Angústia da lei em Graciliano Ramos
por DEANE MARIA CASTRO E COSTA

Resumo
Pretendo, neste trabalho, discutir a conexão entre forma literária e processo social em “Angústia”, de Graciliano Ramos. Para tanto, utilizo a idéia de literatura como “o outro” da sociedade, partindo da relação ordem/desordem, no Brasil dos anos 30, mediada pela representação da “norma” em sua dimensão não só social e política, como literária e sua estruturação do texto do romance.