LITERATURA E HERMENÊUTICA


Coordenadores
Profa. Dra. Adna Candido de Paula (UFGD)
Prof. Dr. Marcos Aparecido Lopes (UFGD)
Prof. Dr. LuÍs Henrique Dreher (UFJF)
Resumo: Tendo em vista que a Literatura Comparada permite a interdisciplinaridade entre saberes das Ciências Humanas, o presente Simpósio se oferece como oportunidade para problematizar o diálogo que a Literatura mantém com outras áreas tais como, História, Filosofia, Ciências Sociais e Teologia, do mesmo modo que essas áreas interagem com a obra literária. O pressuposto teórico que preside esse diálogo é a existência de uma prática hermenêutica que permite pensar o estatuto dos textos artísticos, ou não, na condição de textos interpretantes e interpretados. Estão convidados a participar desse diálogo estudiosos que concentrem esforços em compreender o processo teórico que legitima a interface entre os procedimentos ficcionais, poéticos e analíticos desses saberes em questão. "

Subtema: Literatura e outros saberes

A teia dialógica da Teoria Literária: uma proposição hermenêutica
por Adna Candido de Paula

Resumo
Ao tratamos de Teoria Literária, reportamo-nos às correntes teóricas surgidas no período pós-romântico, momento em que a abordagem dos textos literários deixa de ser fundada em considerações não lingüísticas, e passa a ter como objeto de discussão as modalidades de produção de sentido e de valor. A mudança de paradigma de abordagem do texto literário promoveu uma sucessão de teorias literárias: Formalismo russo, Estruturalismo, Análise fenomenológica, Análise psicanalítica, New Criticism, Estética da recepção, Análise marxista, Análise semiótica e semiológica, Análise genética, Desconstrutivismo, Estudos Culturais e seus desdobramentos. O que se observa é que o movimento da crítica e da teoria literária é, no geral, pendular: ora voltado para a materialidade da obra, ora voltada para o seu entorno, ou seja, ora metodológica, ora reflexiva. Esta comunicação pretende apresentar, com base nas noções de “conflito das interpretações” e de “hermenêutica investigativa” caras ao filósofo francês Paul Ricœur, uma proposição hermenêutica que visa a configurar a praxis dos estudos da teoria literária, tendo como objetivo a elaboração de uma teia dialógica, no sentido de voltar a atenção para a aporia de cada uma dessas linhas teóricas observando aí a oportunidade, em potencial, para a abertura do diálogo com as demais.

 
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Bachelard e a imaginação material: método ou poética?
por André Vinícius Pessôa

Resumo
Quando nos dispomos a fazer um trabalho acadêmico visando a obtenção de um título, nos deparamos com um modelo que requer clareza no que diz respeito à nossa metodologia. Temos que nos pronunciar sobre o método escolhido antes mesmo de iniciarmos o trabalho. A essa antecipação requerida pelos cânones universitários, compreendemos ser correspondente a uma postura científica que visa adequações conceituais que justificam a preponderância de sua própria perspectiva. A proposta é questionar criticamente o método para se chegar a umas poucas e possíveis conclusões provisórias. Método significa originariamente o caminho a ser percorrido. Não prevê um objetivo específico nem uma finalidade clara. Sua etimologia vem do grego "méthodos, ou ‘pesquisa, busca, por extensão: estudo metódico de um tema da ciência (Platão); tratado metódico, obra de ciência (Aristóteles)’, de metá ‘atrás, em seguida, através’ e hodós ‘caminho’ ". Aderindo-nos às provocações de Gaston Bachelard na sua fenomenologia poética da imaginação material é que nos lançamos em busca da questão do método na investigação literária.

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Paralelismos entre Monsieur Teste e Bernardo Soares
por Brutus Abel Fratuce Pimentel

Resumo
O objetivo desta comunicação é traçar paralelismos (convergências e divergências) entre duas obras híbridas da Modernidade: de Paul Valéry, o "Monsieur Teste", que retrata a vida e o pensamento do "alter ego" Monsieur Teste, um discreto burguês freqüentador de óperas; e, de Fernando Pessoa, o "Livro do desassossego", que retrata a vida e o pensamento do "semi-heterônimo" Bernardo Soares, um modesto ajudante de guarda-livros. Incompletas, fragmentárias e paradoxais, escritas num estilo de alta intensidade poética, essas obras são compostas de inúmeras reflexões de teor filosófico, a versar, digressivamente, sobre uma pluralidade de temas (metafísica, epistemologia, ética, estética, estados de consciência etc.), sem jamais formular uma conclusão ou um sistema definitivo de idéias. Em ambas, Valéry e Pessoa se propõem a descrever dois indivíduos, duas idiossincrasias que, ao renunciarem o engajamento ativo no mundo, abraçaram uma vida contemplativa e ascética: Teste, cujo pensamento se caracteriza pelo rigor e negatividade, cultua o intelecto, a lucidez e a despersonalização; Soares, cujo pensamento se caracteriza pela errância, não raro se entrega aos devaneios, aos sonhos e às modificações da personalidade. Todavia, apesar das diferenças nos caminhos que escolheram, os dois personagens compartilham uma mesma meta: realizar o maior grau possível de autonomia espiritual.

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Eros e Ágape: o desejo e amor cristão em Dostoiévski
por Carolina Detoni Marques Vieira

Resumo
A proposta é de uma comunicação a respeito de duas faces do amor em Dostoiévski: ágape, o amor altruísta, pela humanidade, regido pela religiosidade cristã; e eros, o amor profano, regido pelo desejo demasiadamente humano. Ou seja, propõe a abordagem do amor que, em Dostoiévski, pode assumir um caráter de redenção e possibilidade de significar a existência ou, de maneira contrária, mostrar-se como um sentimento egoísta, voltado para o simples prazer do indivíduo, desviando-o, assim, de objetivos grandiosos; e a conseqüente divisão extremada de alguns personagens devido, tanto à separação dessas duas formas de amor, quanto (e principalmente) à coexistência delas em muitos deles. A relevância deste tema para a teoria psicanalítica, bem como o interesse manifesto da psicanálise pela interlocução com a literatura (e, ainda mais especificamente, de Freud por Dostoiévski), faz com que seja possível articular tal discussão à perspectiva psicanalítica em diversos aspectos. Embora alguns comentadores de Dostoiévski afirmem que o amor cristão pode ser visto como salvação do mal ou redenção para os vícios, a proposição que se apresenta, aqui, fundamental é a de que até mesmo ágape carrega em si as visíveis marcas da polifonia dostoievskiana, fortemente relacionada às relações psicanalíticas de objeto.

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NA TRILHA DAS FORMIGAS: análise crítica no discurso literário do texto de Lygia fagundes Telles
por Diva Conceição Ribeiro

Resumo
O texto fenomenológico As Formigas, de Lygia F. Telles, à leitura crítica desfaz fenômenos sobrenaturais, apresentando aspectos normais, ocorridos em clima tendencioso, que atende a essas proposições, cumprindo uma intenção do texto literário: a catarse. O objetivo do trabalho propõe o caminho pelo texto em uma trilha de formigas vivas, examinando a cultura que constroem na sociedade do formigueiro, atendendo relações próprias dessa espécie. Examinar, compreender e voltar às informações ao tipo de vida animal, fará com que o texto ganhe peso semântico, convide o leitor a novas leituras fortalecidas pelas vozes atuantes na tessitura do texto literário. A fundamentação teórica consulta ECO, van DIJK, FAIRCLOUGH, SMITH, SOLÈ, e PIRATININGA, sustentando a análise textual do Livro Mistérios, que sob as lupas da análise empírica do raciocínio hermenêutico passa a ser interpretado. Para GINBURG “nem toda confissão é uma vitória de tortura; porque às vezes a pior tortura é ter a voz silenciada. Isto se aplica àqueles que, por não entenderem o texto, permanecem calados, silenciando a voz da consciência que se esvai na crença de que são excluídas por não decifrar em um texto.

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Revolta, niilismo e religiosidade: a ontologia da liberdade em Dostoiévski
por Eduardo Armaroli Noguchi

Resumo
O objetivo do estudo é investigar a possibilidade de se abstrair um discurso filosófico coerente dos romances de Dostoiévski. Este discurso peculiar poderia ser provisoriamente denominado como uma ontologia da liberdade: é a dinâmica paradoxal da liberdade humana, desvendada nos personagens do romancista russo, que oferece uma noção interpretativa da realidade. Na construção das histórias de Dostoiévski arte e filosofia se encontram intimamente mescladas. A finalidade é demonstrar que sua obra pode ser entendida como uma antecipação de várias das vertentes filosóficas que dominaram o século XX, a começar pela obra de Friedrich Nietzsche. Em Dostoiévski a crise da filosofia ocidental se mostra de forma aguda. Para isso, o estudo buscará explicitar a radicalidade da questão da liberdade em Dostoiévski a partir de algumas noções chaves, como revolta, niilismo e religiosidade.

 
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o feminino e o sagrado
por FERNANDA RIBEIRO QUEIROZ DE OLIVEIRA

Resumo
Este estudo tem por objetivo apresentar o princípio feminino como aspecto que se integra na construção do símbolo, que é alimentado pelo jogo entre a universalidade e o histórico, entre o perene e o transitório e é nesse espaço que o feminino apresentará suas forças catalizadoras. Ao largo das discussões sobre diferenças entre sexos, o que se propõe por meio desse princípio é a aliança entre o lírico, o regime noturno e o sagrado. Estabelece-se, assim, uma linha de construção teórica que assenta suas bases em Durand e As estruturas antropológicas do imaginário (1997), em Turchi e Literatura e antropologia do imaginário (2003), em Oliveira e O feminino e o sagrado nas santas de Cecília Meireles (2007). Esse percurso teórico do símbolo pode ser evidenciado pela leitura das santas poetizadas por Cecília Meireles em Oratório de Santa Clara (1955), Romance de Santa Cecília (1957) e Oratório de Santa Maria Egipcíaca (1957).

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INTERSECÇÕES: FILOSOFIA E LITERATURA
por Heloisa Helena Siqueira Correia

Resumo
Este traba lho reflete sobre a questão das fronteiras entre filosofia e literatura, tendo determinado conjunto de reflexões de Derrida, Foucault e Borges como referencial. A discussão acerca das fronteiras pressupõe que elas existam. No entanto, existem de acordo com quais critérios e demarcações? Derrida indica a pretensão da filosofia em exercer controle sobre si mesma e sobre seu outro e Foucault, por sua vez, aponta para o fato de que a delimitação das fronteiras está a cargo da polícia discursiva de cada disciplina. Borges, também numa perspectiva crítica acerca da suposta rigidez das fronteiras, estabelece equivalênciasentreinvenções da ficçãoliterária e invenções conceituais da filosofia, salientando a fragilidade dos marcos fronteiriços e o entrelaçamentoentre o domínio do fantástico e o domínio do metafísico. O que permite tal entrelaçamento é o trânsito que a metáfora opera entre os vários territórios do saber, revelando-se como elemento textual que inova literatura e filosofia, e que exige que se leiam metaforicamente elementos metafísicos – conceitos, princípios, hipóteses – e textos literários.

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O intérprete Benedito Nunes
por Jucimara Tarricone

Resumo
Benedito Nunes é sempre lembrado como o crítico que trouxe à Literatura uma visão filosófica. Ou antes, um pensador que tem se dedicado aos estudos literários. A Filosofia e a Literatura, nos seus escritos, aparecem como linguagens intercambiantes, como domínios que se entrelaçam, mas que não se reduzem. O poético desponta na Filosofia, assim como esta se manifesta na poesia. Há, dessa forma, a intercomunicação, mas cada qual conserva sua identidade, sua característica. É dessa rede de associações, desse diálogo, que a originalidade de sua produção se sobressai. São ensaios construídos por uma linguagem acurada, por uma interpretaçãocujo método nasce do próprio texto-objeto, legitimado por umprocedimento hermenêutico, que se equilibra entre o conceitual e a criação de imagens espelhadas pela própria obra estudada. O que se pretende discutir é como Nunes realiza a sua leitura hermenêutica, quais os princípios e os limites desse intento e como se constrói a sua expressão crítica.

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Os cenários narrativos de Salústio e a inauguração da monografia histórica em Roma
por Laura Silveira

Resumo
No conturbado século I a.C. romano, em meio às crises político-econômicas que culminariam no fim da República e ao florescimento da literatura, cujo apogeu duraria até ao século seguinte, aparecem as narrativas historiográficas de Gaio Salústio Crispo, “Sobre a Conjuração de Catilina” e “Guerra de Jugurta”. Testemunha do primeiro e conhecedor da Numídia, palco do segundo, Salústio retoma dois episódios da história contemporânea ou recente de Roma para abordá-los de forma inédita, assegurando-lhes permanência histórica e literária. A análise da obra salustiana requer a suspensão de barreiras entre as áreas do conhecimento, sobretudo entre literatura e história, na sempre desguarnecida fronteira sobre este movediço terreno habitado, dentre outros, pela memória e o testemunho. A abordagem do texto latino que ora propomos baseia-se, pois, no deslinde de sua tessitura para que possamos surpreender os modos e estratégias de produção deste literato-historiador de quem a literatura nos faz mais próximos do que o arco temporal de 21 séculos afasta.

 
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Hermenêutica e estética da recepção: a leitura produtiva
por Lenon Rogério de Melo-Franco

Resumo
A abordagem pós-romântica da obra literária negou ao autor o monopólio do seu sentido - processo que deflagrou a autonomização dos textos. Essa relativização da antiqüíssima crença que concebia o sentido dos enunciados como necessariamente estáveis através dos diferentes séculos e dos diferentes leitores se encontra no coração da estética da recepção, formulada originalmente pela chamada Escola de Constança. A semântica movediça da obra é igualmente pensada por Ricoeur, que nos lembra que, à diferença do discurso oral, o texto geralmente não possibilita ao receptor o acesso à intenção do autor; dessa forma, por mais que se caracterize ainda como uma dimensão da obra, o autor livra o texto do jugo de sua interpretação para os imprevisíveis choques de horizontes entre texto e leitores. Em suma, a comunicação procura desenvolver uma investigação (que provavelmente instiga mais do que esclarece) em torno do papel do leitor segundo a moderna filosofia hermenêutica e a contribuição dos autores da estética da recepção. A reflexão insere-se, portanto, na proposta de trabalhar diálogos entre a teoria literária e a meditação sobre os processos hermenêuticos.

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A Passagem da Exegese à Hermenêutica e sua Relevância para a Teoria da Literatura
por LUÍS HENRIQUE DREHER

Resumo
A comunicação parte da intenção básica de entender a interação da exegese com o desenvolvimento de teorias hermenêuticas, com o resultado da especialização desta última, em seu simultâneo impacto sobre a teoria literária. Para tanto, buscam-se realçar momentos históricos cruciais e articulações conceituais privilegiadas da prática da interpretação ao longo do desenvolvimento da teologia e da filosofia da literatura no Ocidente judaico-cristão. Inicia-se considerando a autocompreensão da exegese antiga e medieval, mas dá-se atenção especial às várias rupturas, ocorridas na modernidade, na compreensão da “autoridade” do texto, especialmente o religioso, sondando a relação deste com a auto-interpetação e o mundo da vida. Neste sentido, segue-se a discussão desenvolvida por Hans Frei sobre o “eclipse da narrativa bíblica”, que detecta a passagem inexorável de leituras realistas-gramaticais-literais para outras, “alegóricas” e nitidamente filosóficas ou cosmovisivas. No final, dando atenção às contribuições de autores como P. Ricoeur e N. Frye, discute-se questões de verdade, referência e sentido na confluência entre teoria da literatura e outros registros de discurso, como o hermenêutico-teológico e o filosófico-hermenêutico.

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O tempo litúrgico de "Levantado do Chão"
por Marcos Lopes

Resumo
Em “Levantado do Chão”, de José Saramago, o legado simbólico da tradição judaico-cristã encontra-se glosado desde as primeiras páginas do romance em forma de hino litúrgico e de reminiscências do episódio da criação do mundo. O início da narrativa celebra a paisagem física e produz analogias entre os elementos da natureza e algumas partes do corpo humano, insinuando de partida a ligação umbilical entre a terra e o homem. Da criação à redenção encontra-se o homem na luta por uma transcendência na imanência do seu mundo. Para ser preciso com o universo romanesco do escritor português, deve-se substituir o substantivo “transcendência” pelo verbo “transcender”, pois é no nível da ação dramática que tal palavra ganha um estatuto decisivo para a economia do romance. A reescritura dos lugares bíblicos confere às ações rotineiras uma importância de alcance universal. Assim, a existência simbólica de alguns personagens portugueses, oprimidos pelas condições históricas de uma aliança secular entre o latifúndio e a hierarquia eclesial, torna-se figura da transformação humana. Este trabalho pretende indicar como tal reescritura, ao se apropriar dos elementos bíblicos, produz uma hermenêutica e sugere um horizonte escatológico para o sentido da obra literária.

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As metamorfoses nas interpretações de Franz Kafka
por Mauro Rocha Baptista

Resumo
Nem tudo o que se lê em Franz Kafka pode ser assumido como metáfora, nem tampouco como fruto, puro e simples, da retransmissão de experiências pessoais. Ele não se limita à denúncia do abuso de poder por parte da autoridade paterna ou do mundo administrado. Não pretendemos com esta afirmação compactuarcom as leituras que o transformam em um profeta que, ora prenuncia a ascensão dos totalitarismos, ora a decadência existencial do homem moderno. Contudo, não podemos impor à produção kafkiana um limite físico tão preciso quanto o pretendem fazer aqueles que declaram que ela é fruto de uma mente afetada pelo rigor da criação paterna. Neste trabalho pretendemos apresentar como a nossa interpretação, embasada no método da analogia estrutural de Kuschel, dialoga com a multiplicidade da crítica à obra de Kafka. Compreendemos que nela se manifestam três formas de reação religiosa aos problemas do mundo: A religiosidade institucional que demarca a alienação dos personagens, base de estudos biográficos e sociais sobre a obra de Kafka. A negativa representada pela ação dos heróis, neste sentido fundamenta interpretações existencialistas e marxistas. E a religiosidade do Humor presente como pano de fundo das histórias e marca fundamental da interpretação que fazemos.

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Macunaíma e a utilização de obras não-científicas em interpretações da cultura brasileira.
por Nahyara Estevam Marinho

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Tenho como objetivo analisar a obra de Mário de Andrade, “Macunaíma: o herói sem nenhum caráter” e relacioná-la com o movimento de construção de uma nacionalidade, almejada pelos modernistas no começo do século XX no Brasil. A partir dessa análise, pretendo desenvolver uma discussão epistemológica, passando pela crítica à racionalidade e à ciência como única forma verídica de explicação do mundo, além de pensar a possibilidade de utilização de obras não-científicas – como a literatura – para pensar as relações sociais. Segundo Foucault, a explicação de algo tomado como verdade em uma sociedade perpassa as relações de poder, determinando o sentido; já Nietzsche questiona a busca por essa verdade. O uso do texto literário para pensar as relações sociais no Brasil ao longo de sua história foi bastante fecundo, auxiliando diversos profissionais na construção de interpretações ou releituras da cultura brasileira. A história de Macunaíma pode ser interpretada de várias formas, tanto pela característica da obra em questão – rica em contos míticos, da linguagem do cotidiano brasileiro – assim como pela natureza pública da obra de arte – que se desprende do controle do artista com o contato e a apreciação do outro –, abrindo mais ainda o leque de possibilidades de explicação.

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O futuro do presente frente ao passado na pesquisa em leitura de textos literários e em ensino de literatura
por Sonia Inez Gonçalves Fernandez

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"Una obra literaria no es un objeto que se mantenga por sí solo y que frezca siempre la misma cosa a todos los lectores de todas las épocas. No es un monumento que revele con un monólogo su esencia eterna." (Jauss, Hans). É, pois, a situação histórica da leitura que queremos tratar, com base no trabalho de mediação, considerando-se que o significado alcançado, ao final do processo que liga o texto ao leitor, através do contexto lingüístico e cultural, visa aproximá-los e não afastá-los. Para tanto, pesquisador (mediador) e pesquisado (leitor) colaboram no sentido de que o conhecimento produzido serve a ambos, em uma contínua interação. Isto significa considerar que é impossível chegar a um único sentido ou a um valor definitivo da obra de arte literária; que nem mesmo toda pretensa objetividade e isenção são capazes de alcançar. Mais ainda, não é desejável, pelo simples fato de que o poder do leitor é inquestionável. Esta perspectiva desenvolvida por Jauss provém da hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer e nós a escolhemos por querer praticar uma utopia constituinte, no que se refere ao Ensino de Literatura, na contra corrente do tecnicismo que atingiu também as Ciências Humanas e, mais especificamente, a literatura.

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Desejo de Deus e lágrimas – uma chave de leitura monástica para textos de espiritualidade
por Teresa Candolo

Resumo
Na Baixa Idade Média, em ambiente monástico, floresce uma cultura específica que designamos comumente cultura monástica. Dentro desta, a partir da leitura “sagrada” das Escrituras e dos Antigos Padres do Deserto, ou seja, a cultura Patrística, surge o que atualmente denominamos “dom de lágrimas”, desenvolvido a partir justamente do penthos, conceito da Patrística Oriental. Nessa breve comunicação, exploramos o que a doutrina do “dom de lágrimas” nos oferece como interpretação enquanto chave de leitura de textos que resvalam nas fronteiras do literário e do espiritual.

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