LITERATURA BRASILEIRA E HISTÓRIA: CENÁRIOS, PAISAGENS, AUTORES E LUGARES REVISITADOS


Coordenadores
Profa. Dra. JOANA LUÍZA MUYLAERT DE ARAÚJO (UFU)
Profa. Dra. IZA TEREZINHA GONÇALVES QUELHAS (UERJ)
Resumo: Este simpósio se insere numa das tendências dos estudos de Literatura Comparada, ao privilegiar os pares literatura e humanidades, daí a importância relacional entre os estudos literários e outros saberes. Priorizamos o caráter interdisciplinar, a pluralidade dos gêneros discursivos, destacando-se para nosso foco de análise o material deixado à margem, compondo histórias quase imóveis ao olhar. A história de uma literatura se constrói "como a ruína de um monumento que nunca existiu", nos diz Derrida, em uma de suas inúmeras conversações. "História de uma ruína, narrativa de uma memória que produz o acontecimento a ser contado e que jamais terá acontecido", a história literária assim se desdobra, na forma de um paradoxo, em reinscrições de uma impossível origem. Como leitores críticos de uma dada tradição, os escritores dela se apropriam reinventando precursores, reescrevendo a história, reinaugurando genealogias. É nessa direção que se pretende, no simpósio aqui proposto, revisitar ensaístas e críticos da experiência literária brasileira que deixaram em cartas, diários, crônicas e outros escritos, as marcas de subjetividade próprias do ensaio que, em razão de suas formulações fragmentadas e inacabadas, torna possível recomeçar sempre as histórias, a partir de lacunas, de interrogações, reticências no tempo. "

Subtema: Literatura e outros saberes

Fragmentos disso que chamamos de "minha vida": uma leitura de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu
por Ana Cristina Coutinho Viegas

Resumo
Definida como gênero híbrido, forma fronteiriça entre jornalismo e literatura, a crônica, muitas vezes, constitui um espaço delicado para encenar subjetividades e propor reflexões metalingüísticas. A partir de textos de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu e tendo em vista a aporia entre transgressão e conservação, pretende-se estudar a crônica como um exercício de crítica e autocrítica.

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O Rio de Janeiro e a desconstrução de um paraíso: literatura e crítica social na escrita de Lima Barreto
por Carlos Eduardo Louzada Madeira

Resumo
O período em que escreve Lima Barreto encerra elementos que já assinalam uma acentuada transformação nas estruturas sociais modernas e também uma sensível aceleração do ritmo de vida nas grandes cidades, cada vez mais dinâmicas e complexas. As obras de modernização por que passa o Rio de Janeiro no início do século XX embutem uma tentativa de encobrimento das mazelas sociais acumuladas ao longo dos séculos. Essa estética do belo teria como função ocultar a pobreza e outros desequilíbrios, algo que o autor detecta e expõe em sua ficção. Revestida, portanto, de um falso reformismo no qual o progresso tem alcance restrito, a cidade parcialmente ajustada ao molde europeu conserva quase intacto um vasto contingente de excluídos. Esse estado de coisas desfaz a imagem romântica de um nacionalismo baseado na pitoresca paisagem dos trópicos, imagem esta que precisa ser reinterpretada com criticidade. É um Rio de Janeiro que Lima Barreto captura e reorganiza, materializando sob a forma de narrativa ficcional a cidade que tanto admira e que não mais se permite enxergar como paraíso diante dos males que a assolam.

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Muito além da Escrava Isaura: o pensamento crítico de Bernardo Guimarães
por Ednaldo Candido Moreira Gomes

Resumo
O presente estudo analisa o pensamento crítico de Bernardo Guimarães publicado no jornal A Atualidade (1859-1864) do Rio de Janeiro. Tendo surgido durante as discussões condizentes ao imperativo romântico da formação da literatura brasileira e da dialética local/universal, tais ensaios polemizam com os ideais estéticos dos principais autores do romantismo brasileiro, apresentando-nos uma atitude intelectual irônica contrária à centralização do saber literário na Corte fluminense. Para Bernardo Guimarães a democratização da produção e da circulação da obra literária poderia ocorrer se a liberdade de composição romântica tivesse sido adaptada à realidade provinciana; assim, a autêntica literatura nacional seria constituída pela diversidade temática (e lingüística) brasileira.

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O lugar de Magalhães: história e cânone no "Ensaio sobre a Historia da Litteratura do Brasil"
por Erivan Cassiano Karvat

Resumo
Acercar-se do Romantismo apresenta significativos problemas - que decorrem tanto da excessiva produção acerca do tema, quanto das abordagens que sobre ele se realizaram. Apontada como a tendência que melhor expressaria a autonomia cultural brasileira e, conseqüentemente, política (da então nação recém emancipada), a expressão literária passou a se confundir com a própria história nacional: (...) o Romantismo apareceu aos poucos como caminho favorável à expressão própria da nação recém-fundada, pois fornecia concepções e modelos que permitiam afirmar o particularismo, e portanto a identidade, em oposição à Metrópole, identificada com a tradição clássica (CANDIDO, 2004). O romantismo passou a supor, portanto, um princípio de identidade, constituindo-se, no caso brasileiro, em algo mais do que uma tendência estetizante. Disto parece decorrer, justamente, a especificidade de um suposto Romantismo à brasileira, ou o caráter específico do romantismo brasileiro, parafraseando Merquior. Daí parece advir, também, os problemas para a sua abordagem. José Luiz Jobim, discutindo a problematização do(s) objeto(s) em/da história da literatura, apresenta – “esquematicamente” - o que ele considera, e que podemos considerar, as principais questões da História da Literatura: a recepção, a descrição, a origem, a tradição(JOBIM, 1992). Ainda que o autor não se refira diretamente ao Romantismo brasileiro, exceção quando trata da questão da origem, podemos perceber os quatro indicadores em relação a diferentes abordagens em torno do romantismo brasileiro. Munidos destas observações breves e pautados pelas questões acima citadas, busca-se, aqui, entender o lugar ocupado por Gonçalves de Magalhães e seu Ensaio sobre a historia da litteratura do Brasil, publicado em 1836, na revista Nitheroy, em Paris. O Ensaio, considerado um marco de fundação do Romantismo brasileiro, acabou por apontar os rumos da historiografia literária brasileira, traçando uma concepção teleológica e nacionalista da escrita da história, concepção reiterada nas histórias da literatura brasileira do século XX. Daí sua importância para o entendimento da escrita da história no Brasil.

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Macunaíma: literatura e ensaio
por Jakeline Cunha

Resumo
O objetivo é mostrar que O ensaio como forma, de Adorno, recobre a experiência da carta, lugar de adestramento e amadurecimento do projeto nacionalista de Mário de Andrade formulado esteticamente em Macunaíma. A convicção ensaística adorniana – “por assim dizer, metodicamente sem método” e aproximada de uma “autonomia artística” – revestiu também a experiência dos prefácios renegados da rapsódia. Mesmo tendo por foco os prefácios, a forma do ensaio desliza para a forma de Macunaíma. Temos que nos atentar, contudo, para o fato de que o grau de intencionalidade expressiva na narrativa modernista é altamente diverso ao das missivas e prefácios deixados a margem pelo autor modernista. E é essa diferença que Lukács não entendeu quando, na carta a Leo Popper que serve de introdução ao livro “A alma e as formas”, definiu o ensaio como uma forma artística. Mesmo “irmã” da literatura a forma do ensaio se diferencia da “arte tanto por seu meio específico, os conceitos, quanto por sua pretensão à verdade desprovida de aparência estética”, diz o autor alemão em “Notas de Literatura I” (2003). A problemática entre literatura e ensaio fica ainda mais acirrada quando relacionada com O Banquete, obra inacabada e último momento da longa meditação do autor sobre a Arte. As crônicas musicais, escritas para “Folha da Manhã” a partir de 1943, entrecruzam a obra de Mário de Andrade desde o período inicial das vanguardas até 1945. A proposta é desdobramento da discussão ocorrida, com esse mesmo grupo de pesquisadores, na ABRALIC 2007.

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Mário de Andrade, entre o novo e o lugar-comum: intuição e melancolia na crítica a Machado de Assis
por JOANA LUIZA MUYLAERT DE ARAUJO

Resumo
Quase sempre fora do esquadro quando o assunto era literatura brasileira, a obra de Machado foi, como se sabe, reconhecida e consagrada pelos seus contemporâneos que, não fugindo à regra da nossa cordialidade, ou a elogiavam sem qualquer reflexão teórica, ou a condenavam, do mesmo modo levados pelos sentimentos, nem sempre muito louváveis. A crítica dos anos 1920 e 1930 silenciou a respeito e quando se pronunciou, como nas crônicas de Mário de Andrade, parece ter retomado o lugar-comum do século passado, comprometendo o que já havia sido conquistado em termos de pensamento crítico sobre arte e literatura de vanguarda. Não deve pois causar surpresa se, em relação às fronteiras do território literário nacional delimitado pelos modernos, os escritos de Machado parecem transbordar, exceder os traçados previstos. Ou ainda flutuar, numa espécie de terceira margem, entre-lugar de apropriação fora de compasso. Ainda assim, teria o escritor modernista - moderno, antropofágico, arlequinal – apenas reproduzido lugares-comuns da crítica tradicional? Esta é a pergunta da presente comunicação.

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Memória e criação em Hugo de Carvalho Ramos
por Luciana Coelho Gomes

Resumo
A complexa memória do patrimônio cultural de um povo está na base da criação humana, abrangendo múltiplas áreas do conhecimento, desde o científico, até o artístico. Depositária desse conhecimento e experiências assimiladas por um povo, o funcionamento da memória é objeto de estudos desde a antigüidade clássica e originou variadas teorias que buscam explicar os mecanismos de memorização próprios do ser humano e as funções exercidas pela memória como formadora de identidade cultural, entre as quais a função de elaboração estética que resulta em produções artísticas, como a literatura. A obra do escritor goiano Hugo de Carvalho Ramos apresenta estrutura oral de histórias representativas de cultura regional, memorizadas e recontadas por vários narradores, com estrutura estética que minimiza a visão exótica e pitoresca, fruto do olhar de quem soube gestar a partir do lastro comum de experiências e lembranças depositadas na memória regional, uma obra de representação coletiva. O objetivo desse trabalho é observar como o escritor utiliza a memória na construção de sua narrativa: para isso utilizamos alguns conceitos teóricos sobre memória e narrativa, aplicando-os na análise de alguns aspectos da obra de Carvalho Ramos.

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O silêncio de Machado de Assis
por Marcelo Mendes de Souza

Resumo
Nessa comunicação, pretendo pesar a dissimetria entre a figura pública de Machado de Assis, partindo de sua reserva em participar do conjunto de entrevistas de João do Rio em O momento literário (em outras palavras, do registro de seu silêncio), e seu papel como escritor e crítico da sociedade da qual fazia parte, através da leitura classista de sua obra (via Lúcia Miguel Pereira, Roberto Schwarz e, principalmente, John Gledson). Por um lado, Machado era (e por vezes ainda é) visto como um absenteísta, que nada pensava sobre, por exemplo, questões políticas, e que a ninguém se fazia ouvir. Por outro, há um conjunto de leituras que afirma, por seus escritos, que o autor de Dom Casmurro tinha muito que dizer sobre a sociedade da qual fazia parte – bem como tinha a intenção de fazê-lo, ainda que de forma dissimulada. Em outras palavras: Machado (assim como as posteriores concepções de sua vida e seu ideário) está do lado da escritura, não da fala. Nesse caso, script volant: a escrita, ao contrário da fala, é que liberta.

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A cidade do Rio de Janeiro através da ficção científica de Humberto de Campos
por Marcos Antonio Maia Vilela

Resumo
As representações do espaço urbano no texto literário permitem compreender o momento histórico-cultural no qual o escritor está inserido. As representações da cidade nos textos de João do Rio, Lima Barreto e Euclides da Cunha já foram analisadas por autores como Sandra Pesavento (O imaginário da cidade, 2002) e Nicolau Sevcenko (A literatura como missão, 2003). A partir das referências e descrições encontradas sobre a cidade, estes teóricos demonstram que as representações do urbano estão intimamente relacionadas com a história e cultura da sociedade vigente. Ao descrever a cidade do Rio de Janeiro no ano 2000, o texto “Entre o que foi e o que será” (1932) do escritor Humberto de Campos (1886-1934) antecipa um momento histórico-cultural da capital da República, (sendo a “antecipação” muito comum nos textos de ficção científica) ao representar uma imagem futura, reflexo da ansiedade de modernização vigentes da contemporaneidade do escritor. Neste texto, as visões e entendimentos sobre o futuro da cidade e seu desenho urbanístico estão pautados nas concepções de modernidade adotadas pelo Brasil no início do século XX, incitada ao desenvolvimento econômico e cultural, e ao mesmo tempo, confrontada com as descrições do primitivismo nos primeiros momentos de ocupação da cidade.

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História e Metaficção no Romance A Casca da Serpente, de José J. Veiga
por Maria Wellitania de Oliveira Cabral

Resumo
Este estudo pretende ressaltar os aspectos ficcionais no livro A Casca da Serpente, de José J. Veiga, e comenta a história de Canudos a partir da noção de Pós-Modernidade e dos conceitos operadores da Literatura Pós-colonial. Reconhece-se essa narrativa como metaficção historiográfica, questionadora do cânone literário e das tradicionais visões sócio-históricas de Antônio Conselheiro e do sertão nordestino. Para tal análise, levar-se-á em conta de que forma essa figura histórica é tratada na respectiva narrativa.

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O cordel como espaço de intercâmbio e tensão de valores culturais
por Maria Isaura Rodrigues Pinto

Resumo
Em Arqueologia do saber, o conceito de “formação discursiva”, proposto por Michel Foucault, permite compreender que a história não possui verdade absoluta, continuidade, nem fundamento originário. Assim, quando neste trabalho, se retoma aspectos da questão colonial, ao abordar as produções do cordel brasileiro e português como espaço de intercâmbio e tensão de valores culturais, buscando possíveis articulações entre essas duas práticas literárias, não se está à procura de questionáveis origens. Rejeita-se, nesse caso, a idéia de imitação de modelos, substituindo-a pela premissa, apresentada em Estética da criação verbal, por Mikhail Bakhtin, de que toda obra “funciona culturalmente como a réplica de um diálogo”. A operacionalização do princípio dialógico implica, por sua vez, o exame da dinâmica discursiva, no sentido de trocas culturais. Nesse caso, a leitura intertextual, além de dar relevo à natureza e ao funcionamento dos recursos poéticos da literatura de cordel, fará sobressair a dimensão sócio-histórica dessa forma de produção.

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O poeta-pedagógico e o crítico-missionário: notas sobre a poética de Mário de Andrade
por Núbia Silva dos Santos

Resumo
O projeto estético-pedagógico de Mário de Andrade já se esboça desde Paulicéia desvairada (1922), em que o poeta, no “Prefácio interessantíssimo”, embora impregnado do espírito combativo e até destruidor das vanguardas européias e do grupo de 22, já apresentava inquietações em relação ao compromisso do escritor/artista/intelectual face às propostas de uma “arte nova brasileira”. Esse projeto percorre a sua obra como fio condutor que passa por toda sua produção poética, traçando uma espécie de itinerário – fio condutor coerente, apesar de repleto das contradições vivenciadas pelo poeta, consciente de seu papel como artista, de sua arte comprometida com a humanidade. Em outras palavras, a proposta dessa comunicação é investigar na poesia de Mário de Andrade algumas ambivalências que marcaram a produção do escritor, dilacerado pela tarefa pedagógica, pelo sacrifício (como sempre ele mesmo dizia) do poeta em benefício do crítico-missionário.

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Paulo Leminski e a tradição crítica latino-americana
por Paula Renata Melo Moreira

Resumo
Os estudos acerca da produção de Paulo Leminski (1944-1989) investigam principalmente o lado poeta do autor. Muito conhecido nesse âmbito, outros meandros de sua produção costumam ser pouco explorados. É o caso de sua veia ensaística, entrevista por meio de cartas, ensaios e prefácios. Nossa pesquisa de doutorado, exposta em parte nesta comunicação, busca estudar mais a fundo essa faceta do autor, com base em seu acervo pessoal, doado pelas herdeiras em 2007 para a PUC-PR. Visamos o estabelecimento de um perfil teórico-crítico que, em seu desenvolvimento, ampara a própria produção poética e ficcional do autor, de certa forma, emblema dos anos 70/80. É importante dizer que esta pesquisa se insere no campo de uma história da crítica brasileira, numa vertente que marcou não somente a nossa tradição, mas também a da crítica literária latino-americana, com poetas que são simultaneamente teóricos e críticos, como é o caso de Octavio Paz, Augusto e Haroldo de Campos, Ricardo Piglia e Jorge Luis Borges, na tradição dos poetas-críticos franceses (como Mallarmé, Verlaine e outros) e ingleses/americanos (como T. S. Eliot e Ezra Pound).

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Tradição e modernidade nas crônicas de Rachel de Queiroz
por Regma Santos

Resumo
Pretendemos, nesta comunicação de pesquisa, analisar as crônicas de Rachel de Queiroz Vendedor de ovos e Notícias procurando detectar nas mesmas, a dimensão que ocupa os elementos da modernidade na obra da referida escritora. A tradição e a modernidade enfrentam-se seguidamente nas crônicas publicadas pela autora. Na primeira crônica, o diálogo entre um delegado e um preso permite-nos perceber os valores e concepções do segundo, conforme uma visão machista, no plano individual, e ainda, uma visão preconceituosa contra os meios de comunicação e o conteúdo veiculado pelo rádio. O resultado desses conflitos explicita-se na violência cometida contra o personagem de apelido “Anjinho”. Na segunda crônica, mais uma vez apresenta-se a questão dos meios de comunicação (o rádio, o telefone e o jornal) e as ironias de uma conversa na qual os interlocutores se confundem e interpretam a notícia de maneira equivocada.

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Os escritos poéticos e críticos de Raul Bopp: uma releitura do Movimento Modernista
por Viviane Cristina Oliveira

Resumo
O poeta Raul Bopp foi um dos mais ativos participantes do movimento Antropofágico, sendo Cobra Norato a sua única obra realmente reconhecida. Tal reconhecimento fez com que Bopp fosse considerado autor de um único livro, o que prejudicou o conhecimento e o estudo do restante de sua produção. Assim, livros importantes como Poemas Brasileiros e Urucungo-poemas negros, em que o poeta lança seu olhar rumo às questões relacionadas ao Brasil, sua formação e seu sincretismo racial, foram esquecidos pela crítica, como também o foram aqueles em que Bopp reconta os fatos que marcaram os anos de 1922 a 1928. É considerando a relevância de se resgatar a voz de um poeta posto à margem de diversos estudos, que neste trabalho propõe-se enfocar as obras menos conhecidas de Raul Bopp a fim de analisar a forma com que ele releu algumas questões lançadas pelo seu tempo (questões como a do negro), bem como a forma com que ensaiou nos livros Movimentos Modernistas no Brasil e Vida e Morte da Antropofagia reconstruir um pequeno, fragmentado e subjetivo itinerário dos anos iniciais do modernismo. Itinerário este que tem muito a contribuir para o repensar das formas de construção das histórias de nossa literatura.

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Malvados mortos nascidos no Brasil
por Iza Terezinha Gonçalves Quelhas

Resumo
O objetivo deste trabalho é o de analisar o modo como história e literatura constroem novas tessituras, à margem do cânone. Na introdução ao livro Malvados mortos (na ficha catalográfica ‘Literatura Brasileira’, mas a rubrica da coleção é ‘História’; 2001), de João Luiz Duboc Pinaud, afirma-se que o autor escreveu “a história em forma de romance”. A trama gira em torno da rebelião ocorrida em 1838, em Paty do Alferes (RJ), liderada por Manoel Congo, condenado e morto pela ação da Guarda Nacional. A matéria histórica se apresenta não só na intriga, mas no modo como é narrado, nas escolhas de consciências narrativas e montagem das partes que compõem o romance. O texto escrito se funde ao texto lido na lentidão que ultrapassa a amplitude temporal, aproximando-nos dos acontecimentos em torno dos quais gira a narrativa (RICOEUR, 1994). Numa entrevista, Robert Darnton, ao explicitar os elos entre história social e história cultural, afirma que a história é tentativa de entrar em contato com ‘almas mortas’ (DARNTON, 1994), compreender o mundo simbólico e suas lacunas no mundo dito ‘real’, o que nos parece ser um modo de operacionalizar os elos entre história e literatura na trama de Malvados mortos.


“Os Sertões” e “A Casca da Serpente”: a duplicidade revelada e o contradiscurso ficcional
por Rebeca Santos de Amorim Guedes

Resumo
A retomada de “Os Sertões” (1902), de Euclides da Cunha, pelo romance “A Casca da Serpente” (1989), de J. J. Veiga, instiga uma análise comparativa para uma determinada questão: está presente na romance de Veiga a paródia como uma estratégia de duplicidade revelada, quando se percebe entre os dois textos pontos de convergência entre os fatos narrados. O que provoca uma reflexão para esta relação dialógica entre as obras é o fato de que a semelhança intertextual em “A Casca da Serpente” está comprometida com o retorno do diferente na construção de um contradiscurso ficcional. O romance de Veiga se impõe como resposta e, ao mesmo tempo, como nova criação, contestando uma originalidade absoluta na composição textual e afastando a possibilidade de um autor fechar sua escritura dentro de um significado último, como bem assinala Barthes. O intertexto provoca um debate sobre como a ressignificação de uma obra por outra reclama um valor crítico exatamente na diferença.