A LITERATURA RUSSA NA CONVERGÊNCIA DA HISTÓRIA E DA CRÍTICA


Coordenadores
Prof. Dr. Bruno Barretto Gomide (USP)
Prof. Dr. Daniel Aarão Reis (UFF)
Resumo: Este simpósio dá continuidade aos bem-sucedidos encontros de 2006 e 2007, os primeiros espaços de discussão específicos para a literatura russa dentro dos congressos da Abralic. O objetivo é acolher tanto pesquisas de eslavistas quanto obras comparativas feitas por pesquisadores de outras áreas (história, ciências sociais, lingüística, semiótica, filosofia e artes) que têm a literatura russa como prisma, filtro ou espelho. Partimos do princípio de que o enfoque comparativo é especialmente adequado para se lidar com a literatura russa, que, como poucas outras, é feita de um cruzamento dolorosamente auto-consciente e auto-reflexivo de significados políticos, sociais, éticos, filosóficos e estéticos, em que os limites entre ensaio, conhecimento e arte são sempre postos em xeque e re-elaborados. "

Subtema: Literatura e outros saberes

A sátira do escritor russo Saltykóv-Schedrin em "História de uma cidade"
por Denise Sales

Resumo
Mikhail Evgráfovitch Saltykóv-Schedrin (1826-1889) está entre os grandes satíricos russos. Em “História de uma cidade” (1869-70), o escritor cria um local fantástico, onde o desvario dos governantes conjuga-se com a ignorância e a passividade do povo. Ao relacionar habilmente acontecimentos individuais e isolados com o processo geral de desenvolvimento da sociedade russa, Saltykóv-Schedrin critica o poder monárquico e relê fatos históricos do século XVIII e começo do XIX.

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O problema do Mal em Dostoiévski: destino trágico da liberdade humana
por Jacqueline Sakamoto

Resumo
Dostoiévski não tratou o mal em suas obras do ponto de vista da lei. Ele buscou reconhecer o mal. Reconhecimento como um caminho que o homem deve seguir, seu destino trágico, destino de sua liberdade, e experiência suscetível de levá-lo ao conhecimento de si mesmo. Experiência interior que acaba por demonstrar o Nada do mal, e que no decorrer desta experiência o confunde e o consome. Pois, para o autor, não se expia o mal por um castigo exterior, mas pelas conseqüências inelutáveis que traz em si, e que deve sempre ser compreendido no eixo da liberdade humana.

 
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Ecos de Dostoiévski na “Morte de Ivan Ilitch”
por Jean Carlo Faustino

Resumo
A proposta é a de realizar uma análise preliminar da obra “A Morte de Ivan Ilitch” de Tolstói com base na sociologia de Norbert Elias que ao tratar do tema da morte, dentro de uma perspectiva de processo de transformações sociais de longo prazo, afirmou que sua experiência pode variar de sociedade para sociedade. Para ilustrar sua hipótese, Norbert Elias havia se utilizado de um conto de Tolstói. Aplicando agora, uma ação reversa, o presente trabalho utiliza-se do texto de Elias com a finalidade de explicar as idéias que Tolstói apresentada em sua novela. Ao final, as conclusões da análise são confrontadas com a obra “O Idiota” de Dostoiévski com o objetivo de propor uma hipótese de diálogo ideológico e literário.

 
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Dostoiévski escrevia mal?
por Maria de Fátima Bianchi

Resumo
Muito se fala da "negligência" de Dostoiévski com a palavra, principalmente no que se refere às suas primeiras obras, que, durante muito tempo, a crítica era quase unânime em chamar de "experimentos" artísticos. Mas será possível, como questiona Boris Schnaiderman, que um escritor como ele, que escrevia e reescrevia suas obras vezes seguidas, poderia escrever mal?

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Dmitri Písariev e Jean-Jacques Rousseau: Notas sobre as querelas estéticas francesa (século XVIII) e russa (século XIX) e seus possíveis paralelos
por Priscila Nascimento Marques

Resumo
O objetivo do presente trabalho é abordar as discussões que envolveram a temática das artes no Século das Luzes, na França e no século XIX, na Rússia. Para cada contexto elegeu-se um protagonista – Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e Dmitri Ivanovitch Písariev (1840-1868), respectivamente – cujas idéias serão inicialmente esboçadas e situadas no debate. No caso de Rousseau o foco consistirá no exame do texto de 1758, Carta a D’Alembert, pois este trata explicitamente da questão dos espetáculos e marca o rompimento entre seu autor e os filósofos iluministas. Písariev foi um crítico radical de forte impacto no curto período de sua vida. Dialogava intensamente com outros críticos e artistas, sempre marcando posições controversas que deram novo ânimo à querela estética. Seu estudo, no entanto, apresenta uma dificuldade: a escassez de trabalhos na área e a parca circulação de seus textos. Inversamente proporcional à força que essas idéias tiveram no contexto em que apareceram é o espaço que as mesmas recebem nos meios acadêmicos atuais. Por fim, buscar-se-á tecer alguns paralelos entre as idéias previamente desenvolvidas, de modo a apresentar possíveis convergências, sem, entretanto, objetivar fundir paradigmas e contextos que são sabidamente distintos.

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A carta de Bielínski a Gógol'
por Renata Esteves

Resumo
O objetivo da comunicação é apresentar ao público a carta que o crítico Bielínski escreveu a Gógol’, em 1847, por ocasião da publicação do polêmico livro do escritor, Vybrannikh miest iz pereniski s druz’iami. Uma exposição sobre o contexto em que a carta está inserida e a compreensão desse documento como material iluminador do conteúdo desenvolvido pelo crítico em sua última fase permitem-nos um recorte fecundo da posição de Bielínski diante das questões nacionais de sua época. Considerada por Herzen como o testamento de Bielínski, encontramos, na carta, os pontos cruciais das reflexões do crítico sobre a sociedade russa, que nortearam suas últimas resenhas com a defesa programática da escola natural e de Gógol’ como seu principal representante.

 
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Os Falsos Futuristas: Os futurismos russos, seus críticos e Marinetti.
por Rodrigo Maia

Resumo
Esta comunicação pretende abordar a relação entre os grupos artísticos russos que foram denominados como de orientação futurista na Rússia pré-revolucionária e os críticos que os denominaram dessa maneira. Diferentes entre si e em relação ao movimento homônimo de Marinetti, estes grupos empregaram diferentes estratégias e possuíam diferentes relações com seus críticos contemporâneos, entre eles o próprio Marinetti. Na medida em que estes diferentes grupos artísticos russos acirravam-se em antagonismos, os próprios levantavam críticas sobre seus rivais. Através da análise desta dinâmica, portanto, pretende-se melhor compreender a ação de tais grupos, observando-os não apenas através de seus manifestos, mas também refletindo sobre como fatores externos – no caso os críticos – eram percebidos por estes artistas.

 
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Real'naia Kritika e a construção de uma nova sociedade
por Sonia Branco Soares

Resumo
A Crítica Social se afirma como a principal tendência da crítica literária russa da segunda metade do século XIX, veiculando a idéia de que a arte reflete a sociedade. Se para alguns dos seus críticos essa idéia se traduz no pensamento de que a arte é inferior à realidade, outros, porém, enxergam nela um resgate consciente do real, apontando para o seu caráter revolucionário. Após a Revolução de Outubro, a Crítica Social será estabelecida retrospectivamente como origem ou fonte inspiradora para o pensamento sobre arte marxista-leninista. Com isso tece-se uma tradição, da qual o realismo socialista se diz tributário. No entanto, ao nuançar os pensamentos que constituíram aquela crítica, abrimos possibilidades para uma dupla investigação: para uma hipótese de sua articulação com certas manifestações do modernismo dos primeiros anos pós-revolucionários; e para pôr em questão o seu tão consagrado vínculo com o realismo socialista.

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Da Casa Verde ao Subsolo: uma comparação entre Machado de Assis e Dostoiévski
por ANA CAROLINA HUGUENIN PEREIRA

Resumo
Reflexão comparada entre textos de Machado de Assis e Dostoiévski, respectivamente, O alienista e Memórias do Subsolo. A idéia é aproximar os temas sobre os quais os autores escreveram – no caso, a crítica ao racionalismo que marcou o século XIX russo e brasileiro. Tal proximidade salta aos olhos se compararmos, por exemplo, a crítica que Dostoiévski formulou ao racionalismo moderno nas Memórias do Subsolo, cujo narrador apresenta-se como “um camundongo de consciência hipertrofiada”, e, por sua vez, o cinismo descrente de Machado de Assis ao narrar a trajetória que leva Simão Bacamarte, representante do discurso científico moderno, à ruína, em O alienista. Há um paralelismo importante, além disso, na posição histórica de ambos os autores: eles lançam um olhar ao racionalismo e ao arrivismo modernos partindo, fundamentalmente, de centros situados fora, ou para além, do modelo ou dos parâmetros europeus de modernidade – para nos valermos de uma irônica expressão machadiana, ao narrar as aventuras do alienista, “...dada a diferença entre Paris e Itaguaí.” Como artistas e intelectuais não europeus, os autores estavam, não obstante, imersos em referências, leituras e paradigmas da modernidade européia. Entre “Itaguaí e Paris”, a ambivalência predomina de forma complexa, marcando a obra dos gênios literários.


Efeitos poéticos na tradução da prosa russa
por Aurora Fornoni Bernardini

Resumo
A comunicação abordará alguns aspectos de traduções de obras narrativas russas em português, dando relevância ao que se proporá como " efeitos poéticos de uma tradução". Entre outros, exemplos serão fornecidos a partir da obra gogoliana Almas Mortas, na tradução de Tatiana Belinky (Perspectiva, São Paulo, 2008)


O tolstoísmo em língua portuguesa: Jaime de Magalhães Lima, um precursor
por Clara Ornellas

Resumo
Em 1888, Jaime de Magalhães Lima conhece Leão Tolstói pessoalmente e eles conversam sobre alguns dos principais conceitos do tolstoísmo. Aspectos desse diálogo estão registrados na obra "Cidades e Paizagens" (1889), de Jaime Lima, e demonstram seus primeiros contatos com o tolstoísmo, que se tornará um dos temas mais discutidos por ele ao longo de sua vida. Jacinto Coelho (1979, p. 306) afirma que Jaime Lima foi "o verdadeiro, o autêntico discípulo de Tolstoi em Portugal". Esta comunicação tem por objetivo apresentar considerações sobre algumas idéias desse escritor e crítico, destacando a importância de suas colocações que permitiram aos leitores de língua portuguesa conhecerem mais detalhadamente os fundamentos do tolstoísmo. Apesar de em muito concordar com os preceitos de Tolstói, Jaime Lima apresenta ressalvas quanto a determinados conceitos tolstoístas. Elementos dessas discordâncias permitem verificar um posicionamento crítico perfazendo as primeiras recepções críticas dessa filosofia em solo português, à semelhança do que ocorreu em outros países do Ocidente.


O problema da nação em Dostoiévski e Nelson Rodrigues
por Claudia Drucker

Resumo
O tema da nação não é de domínio exclusivo das ciências sociais. Ele foi abordado por Nelson Rodrigues e Dostoiévski, entre outros. A atividade jornalística dos dois escritores é a fonte primária privilegiada. Os dois escritores se prestam de maneira excelente a uma comparação, pois constituem o que se poderia chamar vertente conservadora da reflexão literária sobre a nacionalidade. O aspecto conservador consiste talvez em acentuar que a autodescoberta de Rússia e Brasil ocorre mediante contraste com o mundo desenvolvido. Assim, o paradoxo da nacionalidade é que ela depende do choque com o estrangeiro para ser descoberta. A descoberta do nacional não ocorre mediante o olhar para dentro de si apenas. Não se trata de recusar o desenvolvimento, mas de não renunciar a ter um ponto de vista próprio e até bastante crítico frente ao progresso. Tal ponto de vista só pode ser conquistado precisamente mediante a modernização dos respectivos países. A modernização não implica no fim do elemento nacional, mas ao contrário, é precondição da sua conquista progressiva. Implica, contudo, também o risco da perda do elemento nacional.


Dostoiévski vai ao cinema
por Flávio Paranhos

Resumo
Objetivo: Comparar diferentes versões e adaptações cinematográficas da obra de Dostoiévski, procurando identificar aquelas mais e menos fiéis, e correlacionar esse dado com sua "eficiência" artística. Método: Análise dos filmes "O idiota", de Akira Kurosawa, "O idiota" de Ivan Pyriev, "Noites brancas" de Viscontti, "Notas do subterrâneo" de Gary Walkow, "Crimes e pecados" e "Matchpoint" de Woody Allen. Conclusões: Quanto mais fiel ao autor russo, mais pobre será a adaptação. Quanto mais "subversivo", mais artistica e filosoficamente rico o filme. Nesse sentido, "Crimes e pecados", de Woody Allen, é emblemático. Ao subverter completamente "Crime e castigo", o diretor conseguiu um resultado brilhante, uma verdadeira e absolutamente original obra de arte, praticamente suplantando a que lhe serviu de inspiração.


"A palavra foi feita para dizer": ética e estética em Tolstói e Graciliano Ramos
por Gustavo Silveira Ribeiro

Resumo
Este trabalho pretende estudar comparativamente aspectos das obras do romancista russo Liev Tolstói e do escritor brasileiro Graciliano Ramos, mostrando como ambos procuraram articular, em seus trabalhos literários, Ética e Estética. Transformando seus romances e contos em palco privilegiado para reflexões filosóficas, esses escritores souberam fazer - e esse é o ponto central desta comunicação - com que as discussões e questionamentos éticos propostos em seus textos se expressassem no campo da forma, através das escolhas estilísticas e das apuradas técnicas narrativas empregadas por eles. Analisarei, a fim de melhor expor a questão, trechos dos contos "Kholstomér" e "Três mortes", de Tolstói, e dos livros Vidas secas e Infância, de Graciliano Ramos. Como elemento secundário, mas ainda assim importante, intentarei demonstrar como o diálogo possível entre as obras desses escritores representa uma das mais fecundas e consistentes tentativas de recepção dos escritos literários de Tolstói no Brasil, considerado pelo autor de S. Bernardo "não só o maior dos [escritores] russos, mas o maior de toda a humanidade" (RAMOS, 1992, 115).


"Ilha de Sakhalina": texto de fronteira entre jornalismo e literatura
por Gutemberg Medeiros

Resumo
A produção de Antón Pavlovitch Tchekhov (1860-1904) intitulada "Ilha de Sakhalina" é completamente única em toda a sua produção. No final de sua vida, o autor orientou o editor de suas obras completas que este trabalho tinha de ser publicado em volume à parte, por não se tratar de literatura como as outras peças. Sakhalina era referência no Império Czarista por ser a pior colônia penal, a infligir terríveis castigos e torturas. Muito comentada mas pouco sabida pela sociedade de então. Tchekhov surpreende a todos ao anunciar a sua partida para descrever exatamente o que visse. A viagem se realiza em 1890, sendo que ele passou três meses e três dias a levantar a realidade presenciada. Neste trabalho, vamos mostrar como "Ilha de Sakhalina" apresenta-se como um texto de fronteira entre jornalismo e literatura - na acepção de Iúri Lotman -, destacando-se os elementos do jornalismo informativo como era exercido na mesma época nos EUA e Europa. Como a sua descrição fria e objetiva, quase obsessiva até em mínimos detalhes de gestos e palavras, alcançou o maior intento do autor: mover a opinião pública a enxergar o que realmente acontecia a ponto de mover o Estado Russo, de forma inédita, a acabar com os mais cruéis castigos e procedimentos cotidianos em todo o sistema penal.


A.S.PUCHKIN E AS TRINCEIRAS DO NACIONALISMO
por Luciana Barros

Resumo
Neste ensaio, me proponho a entender a saga puchkiniana Boris Godunov como um movimento de entrada no mundo da memória, através de um salto decisivo e irrevogável, ou seja, um bilhete só de ida no domínio da ambigüidade, das complexidades dos relacionamentos, das tentativas de presentificação de fragmentos de vida do passado. Esse artifício tão contundente, a memória, utilizado por Puchkin para imobilizar determinada fase da vida russa, os tempos turbulentos, e retirá-la de seu contexto, fazendo-a reviver no presente pela duração e movimentos da memória nos faz pensar num desvendar do caráter nacionalista russo que fez com que uma obra fosse criada em oposição ao tradicionalismo e a favor de uma que entrelaçou conceitos de realismo histórico nacional dentro do romantismo, fato que alçou Puchkin ao título de poeta nacional da Rússia. Título que ainda cria entraves e polêmica quando se valoriza unicamente a figura de um só poeta. Portanto, será objetivo desse trabalho identificar a diferença entre a consciência crítica de Puchkin sobre várias épocas, sobre a nação russa e o conceito de poeta nacional criado pela coletividade. A proposta, agora, é abrimos um debate acerca do legado que Puchkin deixou para literatura a respeito da feitura e interpretação de Boris Godunov. Afinal, essa obra foi escrita para interpretar a história como ela é, desarrumada, inesperada e aberta.


O Girassol da Rússia: a União Soviética segundo Frei Betto
por Marcelo Timotheo da Costa

Resumo
O presente trabalho tem por base o livro Paraíso Perdido: nos bastidores do socialismo (1993), escrito por Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto. Nesta obra, reunião de relatos de viagem a países socialistas, é selecionada a parte relativa aos deslocamentos do religioso brasileiro pela ex-União Soviética, na segunda metade dos anos 1980. Assim, com base na trajetória concreta empreendida pelo frade por terras russas, pretende-se ilustrar outro itinerário: a visitação e exame do autor, conhecido defensor da Teologia da Libertação, de suas crenças religiosas e políticas.


Na oficina de Nikolai Leskov
por Noé Silva

Resumo
Leskov, considerado por muitos o mais russo dos escritores russos do século XIX, desenvolveu um estilo peculiaríssimo. A zina desse processo é o conto "Levchá" (O canhoto), história da competição dos russos com os ingleses em maestria técnica. Tendo, como pano de fundo, a luta ideológica da época, ele legitima opiniões opostas, mas, hoje, ao contrário de então, o seu valor literário é visto como indiscutível. Um dos pontos de mais forte impressão no leitor é precisamente o lingüístico, e o nosso trabalho é, por um lado, um estudo do uso das palavras correntes por Leskov e do seu processo de criação de outras e, por outro, a apresentação dos problemas enfrentados na tradução do conto para o português.


DOSTOIEVSKI E BAUMAN: valores sólidos e fluidez de sentidos
por Simone Lisniowski

Resumo
Este trabalho tem como objetivo analisar as idéias de Dostoievski no Romance “O Idiota” a partir do debate teórico trazido por Bauman. Esta análise pretende levantar algumas reflexões sobre idéias e comportamentos presentes no romance que se destacam por terem se fragilizado ou se tornaram predominantes na ‘modernidade líquida’. O artigo busca analisar e negociar uma unidade, um entrecruzamento de reflexões que aconteceram em épocas culturais e sociais distintas e cujas diferenças metodológicas são marcadas pelo sentido que cada autor dava à sua obra. Bauman oferece uma reflexão sociológica que busca compreender a atualidade e Dostoievski oferece um universo de sentidos que possibilitam articular estes fenômenos ‘líquidos’ à construção do homem moderno. Dostoievski se fez atual no debate acerca da modernidade líquida quando um dos seus personagens afirma: “Não há mais idéia sólida, tudo se tornou mais mole, tudo é dúctil”. O próprio Bauman dá sustentação a esta proposta quando argumenta que não importa de onde as idéias vêm o que importa é se elas podem ou não elucidar os fenômenos culturais e sociais da atualidade. As reflexões acerca da ‘modernidade líquida’ de Bauman possibilitam relacionar, apontar similaridades e diferenças no universo rico de sentido em Dostoievski.