TESSITURAS HÍBRIDAS DA LITERATURA BRASILEIRA


Coordenadores
Profa. Dra. CLÁUDIA MARIA CENEVIVA NIGRO (UNESP-São José do Rio Preto)
Prof. Dr. IGOR ROSSONI (UFBA)
Profa. Dra. SUSANNA BUSATO (UNESP-São José do Rio Preto)
Resumo: A produção artístico-literária brasileira estabelece um diálogo necessário com as demais séries artísticas de modo a construir um ambiente híbrido de formas que insistem em desafiar a ingênua imagem das molduras rígidas entre as artes em geral. Na relação da literatura com outras artes, percebe-se um mecanismo de procedimentos heterogêneos que fornecem os subsídios de compreensão dos processos procedimentais pertinentes a várias formas de arte. Há de se pensar a produção artística no Brasil, portanto, como um conjunto híbrido de formas que dialogam no interior da cultura, estabelecendo muitas vezes a diferença e a crítica com relação ao próprio mecanismo de produção artística, a partir do qual surgem novos dispositivos de linguagem que geram novas séries artísticas. Assim, diálogos no interior da série literária com o cinema e a pintura, com o teatro e a escultura, com a música e a arquitetura, com o jornal e a fotografia, por exemplo, são esferas de significação responsáveis por fazer emergir da palavra sua força e forma sensíveis. Ainda que não exclusiva da produção contemporânea, a presença dos diálogos procedimentais entre a literatura e outras esferas artísticas é o local em que a crítica contemporânea deve inserir-se para melhor avaliar a produção cultural brasileira e construir um saber atual sobre a presença da literatura brasileira em nosso mundo. "

Subtema: Literatura e outras artes

Ficção brasileira e jornal: um diálogo pulsante
por Agnes Danielle Rissardo

Resumo
Do Romantismo aos dias de hoje, muitos foram os que dividiram o seu tempo entre a literatura e o jornalismo. Se a rotina do repórter é conviver com a realidade nua e crua, a atividade literária surge como a possibilidade de ditar os acontecimentos, despistar ou iludir sem culpa o seu leitor. Mas se a literatura é o lugar do imaginário e o jornal é tido como o espelho da realidade, o que acontece quando os dois se misturam? Primeiramente, os jornais conquistaram o leitor com o romance-folhetim. Depois, o jornal invadiria as páginas dos romances, ora com sua linguagem concisa e objetiva, ora na transformação de reportagens em ficção, ou ainda na apropriação integral de notícias, inseridas na narrativa. Os romances Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida, Mattos, Malta ou Matta?, de Aluísio Azevedo, e A festa, de Ivan Angelo, além dos contos de A vida como ela é..., de Nelson Rodrigues, deixam claro que o diálogo intertextual entre ficção e jornal possui vários desdobramentos e evoluiu junto com os movimentos literários brasileiros e com o aperfeiçoamento da linguagem jornalística.

Clique aqui para ver o texto integral      

A literatura avariada: a identidade do discurso político em algumas produções hollywoodianas contemporâneas.
por CLÁUDIA MARIA CENEVIVA NIGRO

Resumo
A proposta deste trabalho constitui-se-á em discutir alguns dos procedimentos políticos envolvidos nas produções hollywoodianas “nascidas” de textos literários, já aprovados no mercado editorial. Para tanto, o cinema não será visto em sua composição técnica e artística, mas sim como evento. No universo pós-moderno da criação fílmica o literário não mais aparecerá diluído em transcriações para uma outra manifestação artística, mas também ou simplesmente para fazer parte de alguma estratégia de marketing político já pulverizada no mercado. O conceito de apropriação, representação far-se-ão necessários - não é e nunca foi possível dissociar o filme do público. Partindo desse pressuposto, não se trata, assim, mais um representar a literatura, mas constituir-se a partir dela. Num contexto de desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação e de popularização das chamadas artes midiáticas, afirma-se que antigas posturas sobre a representação da arte literária no cinema precisam ser revistas. Na maioria das vezes, a ferramenta de garantia da hegemonia do capital, isto é, o filme, surge como produto de consumo viabilizando a cultura perdida pelas novas gerações: consumir o que está além do filme, ou seja, produtos e obras literárias canônicas já um tanto quanto esquecidas. A apropriação destas ferramentas leva a reflexões sobre o pós-moderno a partir de uma perspectiva que considera as relações subjetivas e objetivas desenvolvidas nesse processo e como as práticas ou os bens culturais são apropriados.

Clique aqui para ver o texto integral      

Nostalgia do sentido na fala de Riobaldo
por Daniela Portela

Resumo
Guimarães Rosa propõe como estrutura organizacional de várias de suas narrativas uma discussão pré-socrática que questiona a unidade/diversidade das coisas (o porquê de um só conceito ser capaz de nomear a diversidade dos seres). Em Grande Sertão: Veredas, se o sentido construído do texto for analisado sob a perspectiva temporal do leitor, e, portanto, de um contínuo porvir de imagens e peripécias, o tempo futuro se configura como elemento de estrutura da apresentação da fábula. Há a encenação de um diálogo em que um representante da cultura popular discute temas com um doutor, aparentemente letrado. Sendo assim, a obra seria a invenção de uma representação, a da cultura popular pela cultura erudita. Na expressão agônica e erística da voz de Riobaldo passam os dramas da vida de um jagunço. Mas passa, junto com ele, o drama do leitor, numa busca de sentidos esvaziados e descolados de seus lugares cartesianos. A ordem não é mais sucessiva, a racionalidade não é o elemento de construção de sentido do universo ficcional de Rosa. Ao encenar a voz do sertanejo, Guimarães fragmenta a totalidade dos discursos sobre “brasilidade”, demonstrando a falência do projeto político de tentar explicar a alteridade do sertanejo pela lógica do urbanizado.

Clique aqui para ver o texto integral      

Entre bestas e feras na literatura brasileira contemporânea.
por Eduardo Jorge Oliveira

Resumo
Esta pesquisa propõe uma leitura de uma dada produção literária contemporânea no Brasil. O ponto de partida são os bestiários medievais e alguns bestiários elaborados por autores como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Guillaume Apolinaire. Os bestiários, espécie de catalogação de seres reais e imaginários que, na idade média possuía uma finalidade pedagógica, dentro de uma produção autoral assume um novo traço, isto é, desviado de uma esfera pedagógica ou moralizante. No Brasil, alguns escritores tocaram essa temática de maneira sutil, em uma quase zooliteratura, como Murilo Mendes (Poliedro) ou Guimarães Rosa (Ave, palavra), entre outros. Entretanto, pensamos que o território movediço da literatura contemporânea nutre um diálogo mais direto e pervertido de seu sentido original, sobretudo no caso de escritores como Wilson Bueno (Manual de Zoofilia, Jardim zoológico), Claudio Daniel (Figuras metálicas), Nuno Ramos (Cujo, Pão do Corvo) ou Jussara Salazar (Inscritos na casa de Alice, Natália) onde encontramos alguns procedimentos que, além de dialogar com autores primeiramente citados, ainda possuem uma estreita relação com as artes visuais, algumas escritas bem próximas do que perceberíamos como objetos ou, simplesmente cortes que permitem um trânsito de suas literaturas entre bestas e feras.

 
Clique aqui para ver o texto integral      

Literatura e escultura: a poesia e a estátua
por Gentil de Faria

Resumo
A célebre estátua de Laocoonte, uma das peças mais famosas do museu do Vaticano, vem despertando o interesse dos estudiosos das artes de todas as partes do planeta, desde sua descoberta em 1506. Michelangelo a venerava e fez dela uma fonte de inspiração para várias criações. No século 18, as interpretações dadas pelo historiador Winckelmann (1717-1768) e o filósofo Lessing (1729-1781), cada um a seu modo, estabeleceram uma sólida referência e o marco inicial da pletora de estudos que se avolumam com o passar do tempo. O mito da punição do sacerdote troiano pode ser lido nos maiores autores da cultura ocidental, como Homero, Sófocles, Virgílio, Dante. E também na pintura, com o quadro de El Greco. No Brasil, a mais expressiva manifestação foi o poema “Cacto”, escrito em 1925, por Manuel Bandeira, e que se encontra em Libertinagem (1930). A Comunicação faz um breve percurso sobre as várias interfaces literárias com a escultura para se concentrar na análise comparada da realização poética de Bandeira com a impressionante peça em mármore, esculpida quase meio século antes de Cristo.

Clique aqui para ver o texto integral      

Tessituras transfiguradas: o espaço do não-lugar em Elomar Figueira Mello e Manoel de Barros
por IGOR ROSSONI

Resumo
O estudo em questão visa a refletir – a partir da temática do sertão – sobre uma representação discursiva de espaço que se encontra, em simultâneo, aquém e além do sertão concebido física e socialmente. Desse modo, propõe-se investigar constituição e relações entre o sertão-profundo apresentado no discurso musical de Elomar Figueira Mello e o sertão-líquido presenciado na poesia de Manoel de Barros.

Clique aqui para ver o texto integral      

Maria Martins. Sobre o toque e o impossível.
por Larissa Costa da Mata

Resumo
A artista brasileira Maria Martins (1890-1973) instigou a crítica de arte brasileira dos anos 50 e 60 pelo caráter discursivo de suas esculturas. Essa é a razão do descontentamento de Mário Pedrosa e também do apreço de Murilo Mendes por suas esculturas. Seguindo o impulso de outro escultor modernista - Victor Brecheret - a artista transpôs o caráter discursivo das esculturas para poemas de sua autoria, como os que acompanham as estátuas de Amazonia (1943). Por outro lado, nos três livros que publicou - O planeta China (1958), Brahma, Gandhi e Nehru (1961) e Deuses Malditos (1965) - é possível notar os aspectos estéticos que Maria Martins desenvolve em sua obra plástica, tais como a valorização dos espaços em branco e do elemento informe, o princípio da modelagem e a evocação de uma força natural. Este trabalho se propõe a reconstituir o hibridismo presente na obra da artista resgatando tais aspectos de sua obra plástica em Deuses malditos, biografia de Nietzsche, a partir do cotejamento entre esse livro e as duas versões de O impossível ­- a em bronze, de 1944 e a em gesso, de 1945. O livro e essas esculturas possuem em comum a suspensão do contato - entre as figuras da escultura, Nietzsche e as outras personagens do relato. Por essa razão, a análise utilizará como suporte teórico o ensaio Noli me tangere (2006), em que Jean Luc-Nancy propõe uma leitura desse episódio bíblico como via, como a passagem do toque em direção ao outro.

Clique aqui para ver o texto integral      

Da aventura ao campo de guerra: uma experiência de escritura
por Maria de Lourdes Patrini-Charlon

Resumo
No livro, Crônicas de Guerra na Itália (1945), Rubem Braga declara que sua ambição quando viajou para a Itália em companhia dos pracinhas da F.E.B, era a de fazer “uma história da campanha (...) uma narrativa popular, honesta e simples, da vida e dos feitos dos nossos homens na Itália – espécie de cronicão da F.E.B, à boa moda portuguesa antiga” (p.8). Diante do depoimento do autor, minha proposta é iniciar uma discussão crítica sobre as práticas de escritura presentes no “livro de crônica”, que segundo Rubem Braga está longe de sua “idéia primitiva” e, desta forma, analisar e interpretar essa matéria híbrida que possui em suas malhas discursivas elementos que se inscrevem no entrelaçamento de vozesnarrativas e no apagamento de fronteirasentregêneros de escrita. O mundo e os homens em guerra. O jornalista, cronista, correspondente de guerra, também viajante, terá como matéria narrativa o mapeamento doloroso do campo de luta, o movimento surdo do desespero dos homens, o matraquear das metralhadoras, a multiplicidade e confronto de línguas e culturas. O viajante ao chegar em terras distantes muda a fonte de inspiração e, assim, dos fatos extraídos de uma pacata cidade ou da turbulência de outra, da rotina dos homens, passa para os registros e memórias, inventários e relatos de uma alucinante viagem, de um exílio voluntário, mas não menos opressor. Encontros e coincidências, linhas de fuga e de escritura; caminhos da guerra e do imaginário pontilhados por fronteiras, geradores de um segundo sopro. Da viagem à escritura, da escritura à viagem, uma reconhece a outra e as duas tecem a matéria primeira da obra do cronista, jornalista.

 
Clique aqui para ver o texto integral      

VISIBILIDADE E LINGUAGEM: Uma abordagem semiótica na poética de Valdelice Pinheiro
por Mércia Cruz

Resumo
Este artigo trata de diversas linguagens na obra de Valdelice Soares Pinheiro, poetisa Sul-baiana, cuja criação poética estabelece um diálogo com outras manifestações artísticas, tais como a imagem e o desenho. Em seu Processo Criador, Valdelice utiliza a linguagem verbal e a linguagem visual através de poemas escritos e de desenhos criados pela escritora. Tendo a semiótica como uma ciência que investiga todo e qualquer processo de significação, buscou-se entender as alianças da imagem com a palavra na composição de poemas escritos por Valdelice Pinheiro. O estudo toma por base conceitos de Lévy (1997), Heidegger (2003), Paz (1996), Calvino (1991). A primeira parte trata do entrecruzamento de linguagens (signos culturais), na composição da arte, da literatura e da filosofia. A seguir, temos uma abordagem reflexiva a partir da imagem, expressão de criação e arte da poetisa. Por fim, algumas considerações são traçadas, aliando a linguagem, a imagem e a palavra na composição da mensagem comunicadora.

Clique aqui para ver o texto integral      

Os outros intestinos: a escrita experimental-visceral de Miguel Jorge
por Ravel Giordano Paz

Resumo
O trabalho discute a obra do escritor goiano Miguel Jorge – sobretudo os romances Caixote (1975) e veias e vinhos (1981) – a partir de dois aspectos fundamentais de sua poética: a experimentação formal e a exploração das situações extremas da realidade humana, ligadas sobretudo às formas de opressão psíquicas e à barbárie social contemporâneas. Marcados por uma concepção fundada na relação entre texto e corpo – par este, aliás, que nomeia seu segundo volume de contos –, os romances de Miguel Jorge se valem de estratégias de estranhamento que são também, a nosso ver, estratégias de entranhamento: entranhamento de alteridades no âmago de uma escrita cujas fraturas formais e materiais (por exemplo, uma certa “Som.B.Ra”) correspondem às fraturas existenciais que essas alteridades, com suas demandas por vezes insuportáveis, buscam em nós. Num exemplo radical dessas estratégias, o início de Veias e vinhos é narrado por um bebê de colo, que conta em linguagem “adulta” o massacre de seus pais. São alteridades como esta que designamos como “outros intestinos” – “intestinos” (ou seja, internos) a nós mas ainda assim irredutíveis em seu valor de outros: outros âmagos, outros corpos, outras vozes. O pensamento derridiano das demandas fornece a principal inspiração teórica dessa discussão.

Clique aqui para ver o texto integral      

O silêncio em espirais: Walter Franco
por Sílvio Stessuk

Resumo
De "Me deixe mudo" – gravada pela primeira vez por Walter Franco em 1972 e lançada no ano seguinte no LP Ou não –, Augusto de Campos disse ser "A canção com maior registro de silêncio já feita no Brasil". A proposta da presente comunicação consiste em fazer, no corpo harmônico de "Me deixe mudo", uma leitura desse silêncio e de como sua abstração se relaciona criativamente com a liquidez da música e a concretude da palavra, competindo então seguir (porém de forma alinear) o percurso definido pelo próprio Walter Franco: "buscar a melodia que há num poema/ buscar o poema que há em uma melodia/ ouvir o silêncio". Para efetivar tal leitura, vale recorrer ao prefácio de Stéphane Mallarmé para Un coup de dés – texto breve onde se encontra a raiz teórica acerca da estrutura fragmentária na poética moderna –, bem como aos preceitos sobre o vazio contidos no Tao te ching – filosofia à qual Walter Franco se confessa afeito.

Clique aqui para ver o texto integral      

Os não-limites do olhar: entre a dobra e a linha, a palavra.
por SUSANNA BUSATO

Resumo
Estudo das relações de natureza formal pertinentes ao cinema e à poesia, que fazem emergir em objetos distintos o poético que se traduz no percurso da montagem dos signos. Nesse processo de montagem, os limites entre os signos se rompem e com eles os limites estéticos, por meio dos quais a comunicação se infiltra no interior da cultura, produzindo e alimentando os processos criativos da linguagem. Para demonstrar esse processo, serão tecidas as relações de natureza híbrida entre o curta-metragem “Enigma de um dia”, de Joel Pizzini e os poemas “Composição” e “Dentro da perda da memória”, de João Cabral de Melo Neto. Busca-se aqui o entalhe, a dobra que recupera um fazer poético que deslinda as margens dos códigos iluminando o olhar perceptivo desses mesmos objetos.

Clique aqui para ver o texto integral      

A música e a poesia de Mário de Andrade
por Cristiane Rodrigues de Souza

Resumo
Mário de Andrade foi um intelectual e um poeta multifacetado que percorreu diferentes áreas do saber, estabelecendo diálogos entre elas. Sua produção literária, por exemplo, é profundamente marcada pelo olhar do professor de Estética e História da Música, assim como pelos interesses do musicólogo preocupado, entre outras coisas, com o estudo da expressão musical popular do Brasil. O conjunto da obra poética do modernista, portanto, é espaço privilegiado de intersecção da literatura e da música. Assim sendo, uma leitura crítica que procure apreender, nos versos do poeta, a sua voz musical, poderá vivenciar, com maior profundidade, a configuração do sujeito lírico. Dessa forma, o estudo analítico de alguns poemas de Remate de males (1930) nos possibilitará conferir mais de perto a afinação dos versos do poeta.


Espacialidades plurais: interfaces entre literatura, história e antropologia
por Maria das Graças Meirelles Correia

Resumo
O espaço, como um dos elementos da narrativa, possibilita a ambientação de determinado fato que se desenvolve num transcurso de tempo específico. Embora, no universo discursivo da literatura, o espaço seja ficcionalizado, este processo pode resultar na criação de espaços sem referencialidade material precisa ou na apropriação de um espaço concreto que, ao ser re-criado, ganha materialidade outra: a do texto ficcional. Assim, o presente trabalho analisa o processo de recriação do espaço no romance Viva o Povo Brasileiro, relativo à ficcionalização de Baiacu – distrito pertencente ao município de Vera Cruz – Ilha de Itaparica/Ba – comparando-o, com a apropriação do espaço realizada pelos habitantes da comunidade no desenvolvimento de atividades laborativas e de entretenimento. As bases para tecer tais comparações assentam-se na análise do romance e em observações etnográficas realizadas na localidade em questão.


A TESSITURA HÍBRIDA NA OBRA DE AUGUSTO DOS ANJOS
por Maria Olívia Garcia Ribeiro Arruda

Resumo
Augusto dos Anjos parece ter sido um exilado da Paraíba, que se indispôs contra a oligarquia, a política e o clero local, principalmente após o discurso feito no Teatro Santa Rosa, em 13 de maio de 1909, em que o poeta critica ironicamente essas classes opressoras, em defesa dos escravos. Poucos o compreenderam, a não ser após publicações no jornal local. Augusto foi vítima de violenta intervenção de indivíduos que o silenciaram e construíram a imagem de “poeta da morte”, afastando o risco de uma outra interpretação para sua única obra publicada em vida, o Eu. No Rio de Janeiro, sofreu privações por falta de emprego e foi testemunha das ocorrências relativas à Revolta da Chibata, de que também fala nessa obra. Neste trabalho nos restringiremos a O monólogo de uma Sombra. O objetivo deste trabalho é mostrar o "Eu" como uma tessitura híbrida entre a história e a literatura, cujo discurso denuncia a repressão e a podridão social, em busca da regeneração. Augusto nos mostra a opressão contra o brasileiro, desde a colonização até os governos de Nilo Peçanha – por compactuar com uma eleição presidencial fraudulenta - e Hermes da Fonseca , com a tortura dos anistiados da Marinha.


MOVIMENTOS SONOROS: ritmo poético e musical em Mário de Andrade.
por Maurício de Carvalho Teixeira

Resumo
Atento às relações entre corpo, linguagem e arte, Mário de Andrade manteve um interesse obstinado pela língua cantada – um processo de composição que traz elementos de música e de literatura. A rítmica, como categoria comum a essas duas artes, era objeto constante de sua pesquisa e servia também ao seu ofício de poeta e leitor culto modernista. Um dos principais objetivos do autor nesses estudos era a busca de um cantar que conquistasse o corpo, explorando a dinamogenia irresistível do ritmo falado. Esta comunicação busca, assim, mostrar como a composição de poesias, músicas e canções estão ligadas por uma mesma técnica, evidenciando o parentesco entre literatura e arte.


A lucidez do sonho: Surrealismo e Pré-Concretismo em “Brasão”, de Mário Faustino
por Rafael Fava Belúzio

Resumo
"Brasão", um dos primeiros poemas de O homem e sua hora e outros poemas, de Mário Faustino, faz a literatura dialogar com a linguagem visual da heráldica. A utilização de símbolos característicos do escudo de armas medievais dota o texto de uma expressividade ímpar, uma vez que um brasão simboliza os ideais de quem o possui assim como o texto faustiniano se apresenta de modo metalingüístico. O que chamo de lucidez do sonho em “Brasão” é justamente o fato do poeta estar consciente do seu modo de fazer poético mesmo este brotando do “solo sono” (expressão textual que remete ao Surrealismo). O poeta é mais lúcido no momento em que o sono é mais forte: na quarta estrofe, sendo sono mais intenso, é também quando o sujeito-lírico se concentra num modo auto-reflexivo de fazer poesia. Indo mais longe, o poema faustiniano que nasce do sonho possui uma construção bem marcada de ritmo e rima; quer dizer, apesar de advir do meio onírico o texto é construído com alucidez, valorizando, por exemplo, a contenção de adjetivos, marca do Pré-Concretismo. “A lucidez do sonho” é, portanto, um ensaio que valoriza a interdiscursividade, as tessituras híbridas, ao mesmo tempo que está dentro do texto faustiniano a todo momento, dado que o externo, a heráldica, só importa enquanto elemento interno e relevante na fatura do poema.


Entre a verdade e o estereótipo: Gilberto Freyre, Jorge Amado e seus reflexos contemporâneos
por Regina Helena Machado Aquino Corrêa

Resumo
Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala (1933), registra a atração dos senhores de engenho pela negras escravas e defende que a miscigenação, associada ao clima tropical, dava às mulheres que aqui viviam uma exacerbada sensualidade. Jorge Amado continua sendo para os estrangeiros a porta de entrada da cultura brasileira, uma vez que o leitor estrangeiro comum chega a ele tanto pela ampla divulgação de suas obras nas adaptações para o cinema ou televisão, como pelas traduções para mais de 42 línguas. Amado mostra em seus romances não somente a vida difícil do povo baiano, mas também a maioria dos chamados estereótipos relacionados ao povo brasileiro. Considerando estes dois pilares do estudo da cultura brasileira, o intuito deste trabalho é identificar nas personagens femininas amadianas, fundada na proposição de Freyre, o contexto da consciência do corpo feminino pelas mulheres brasileiras, usando como pano de contraste as campanhas de publicidade brasileiras, no segmento das cervejas, em relação a verdades e estereótipos presentes em auto-testemunhos em comunidades orkutianas de mulheres brasileiras.