ESTRATÉGIAS DE AFRO-BRASILIDADES: FIOS MUSICAIS, LITERÁRIOS E EDUCACIONAIS DO TECIDO SOCIAL


Coordenadores
Profa. Dra. Elisabete Nascimento (UCAM)
Prof. Dr. Álvaro Neder (CEFET)
Resumo: A proposta deste Simpósio é investigar estratégias de afro-brasilidades operacionalizadas através da Literatura, da Música e da Educação como questionadoras de processos identitários da cultura brasileira. Cabe investigar as estratégias operadas pelos movediços territórios da Música, da Literatura e da Educação capazes de promover a cidadania, a coesão do tecido social e a construção do ethos brasileiro de matriz africana. A problematização dar-se-á no sentido de promover a descanonização das certezas edificantes e voltar o olhar para as alteridades de matriz africana que compõem a(s) multifacetada(s) identidade(s) brasileira(s). É possível que, ao operar tais questionamentos, as artes em geral, a Literatura e a Música, em especial, e mesmo a Educação possam promover a desautomatização do ethos afro-brasileiro, para que seja possível compreendê-lo como um mosaico de referencialidades de matriz africana - o objeto deste simpósio. É possível compreendê-lo, inclusive, como um tecido, tecido do entrelaçamento de fios multi-, trans- e interdisciplinares, e simultaneamente como junção, disjunção, tensão e deslocamento das identidades brasileiras e seus processos de identificações. "

Subtema: Literatura e outras artes

A negação da afro-brasilidade na literatura brasileira
por ADEITALO MANOEL PINHO

Resumo
Os romances têm a capacidade de construir modelos de pensamento e conduta que podem se consagrar à medida que o texto é lido pelas gerações ou atuação do seu autor. É necessário, com esse viés, argüir a respeito da formação do sistema de literatura e de instituições como a Academia Brasileira de Letras no universo da consagração e desenvolvimento de um modelo racista para a cultura brasileira. Para tanto, recorto uma produção do prestigiado presidente da Academia — Afrânio Peixoto, o fixador do perfil moderno da Casa de Machado de Assis. O objeto de exame é o romance bem-sucedido A Esfinge. A narrativa traz idéias e promessas de um cientista brasileiro (o próprio Afrânio) depositando o êxito da jovem nação na extinção do sangue fraco e débil de negros e índios. A investigação das idéias da narrativa tão-somente está interessada nas razões do êxito editorial da obra, em 1910, e as suas ligações com a formação do cânone literário da época, o que contribui para fomentar estratégias de afro-brasilidade na literatura. Este estudo se utiliza das idéias críticas de Edward Said e teóricas de Siegfried Schmidt.

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Jongo, literatura oral e música: o futuro do pretérito em jogo no presente das políticas públicas
por ÁLVARO NEDER

Resumo
O jongo é uma manifestação cultural diretamente associada à cultura afrodescendente neste país. É composto por uma dança ritual e um discurso falado ou cantado chamado ponto. A literatura oral do jongo fundamenta-se no caráter mágico do ponto e nas múltiplas interpretações que adquirem pontos tradicionais ao serem executados e recebidos por performers e ouvintes competentes em variáveis contextos. Esta comunicação de resultados de pesquisa em andamento discute as iniciativas oficiais que passaram a ser empreendidas com o objetivo de salvaguardar o jongo, entre elas a implantação dos Pontos de Cultura, que visam a distribuição de recursos de grande monta. Não se sabe ainda os efeitos dessas políticas públicas sobre os chamados “bens culturais” e as próprias comunidades. Quais serão as conseqüências desta movimentação para as próprias comunidades jongueiras? Quais são as perspectivas que ela traz para a melhoria de sua situação de vida? Que tipo de resultados concretos a “espetacularização” do jongo vem trazendo para demandas da comunidade? Quais são as conseqüências imediatas e possíveis desdobramentos futuros destas transformações? São questões urgentes como estas que se busca discutir nesta comunicação, visando a um debate que envolva literatura oral, cidadania e música, contribuindo para pesquisas na área.

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História, etnicidade e memória da guerra de Biafra (1967-70) na poesia de Chinua Achebe e na prosa de Chimamanda Ngozi Adichie em Half a yellow sun
por Alyxandra Nunes

Resumo
A literatura produzida na Nigéria já ofereceu ao mundo o prêmio Nobel Wolé Soyinka. Ainda assim, a produção em língua inglesa deste país se apresenta pouco conhecida aos leitores brasileiros, bem como a literatura dos países de língua oficial portuguesa. Nesta comunicação, pretendo apresentar aos leitores brasileiros dois outros escritores nigerianos, Chinua Achebe, considerado o pai fundador da literatura africana anglófona e a jovem Chimamanda Ngozi Adichie, que com seus livros Half a yellow sun e Purple hisbiscus vem atraindo a atenção de críticos africanos e do mundo aglófono em geral. A linha de discussão deste ensaio passa por uma análise da memória da guerra de Biafra apresentada por esses dois atores. O primeiro como testemunha e militante da causa e o segundo como uma narrativa de memória forjada numa tradição doméstica. Ambas produções são consideradas testemunho histórico de uma memória nacional que não se quer esquecer, e atualizada no século 21 com o surgimento do movimento MASSOB, na Nigéria.

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Feitiço e Biografia Coral na Terra de Santa Cruz
por André Luis Mitidieri Pereira

Resumo
Na obra historiográfica O diabo e a terra de Santa Cruz (2000), Laura de Mello e Souza detecta a feitiçaria, as práticas mágicas e a religiosidade popular no Brasil colonial, registrando o tratamento que os inquisidores dispensam a negros e a mulatos durante os séculos XVII e XVIII. À maneira do que preconiza Benjamin, os reprimidos da história, iluminados como se por um relâmpago, possibilitam apreender a vastidão das práticas inquisitoriais através de minúsculas biografias, dos esboços biográficos que mostram os embates da cultura letrada com a oralidade, referendando a idéia de “biografia coral”. As vidas silenciadas exprimem suas diversidades e o sujeito dribla excessivas coerências verificadas em histórias de “varões ilustres”, dos “grandes vultos da humanidade”. A historiadora percorre as vias trilhadas pelo controle ao imaginário, segundo Luiz Costa Lima, desde o aparato católico aos mecanismos da racionalidade ilustrada.

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Metaforas da Memória de da Resistência: uma análise dos pontos cantados na Umbanda.
por Carina Maria Guimarães Moreira

Resumo
A comunicação pretende mapear as possíveis influências centro-africanas contidas nos Pontos Cantados dos rituais da Umbanda compreendidos como expressões poéticas. Os Pontos Cantados possuem ritmos e funções variadas. Sua poesia, constituída da palavra e seus ritmos cantados, conferem-lhe um poder mágico, sendo interpretado na Umbanda como uma forma de oração, servindo para direcionar as giras e auxiliar os guias em seus trabalhos. De forma sintética e metafórica os Pontos trazem marcas do passado colonial, da formação histórica dessa religião e do pensamento mágico que permeia o imaginário umbandista. Assim, além de evidenciarem sua matriz centro-africana, eles apresentam as marcas adquiridas no seu caminho histórico, que é nosso caminho histórico, brasileiro. Aqui, abrem-se diversas opções de analise do Ponto Cantado. O que a primeira vista é apenas um canto ritmado, mostra-se como uma expressão poética fluida e complexa em suas relações entre palavra, ritmo, música, dança e crença, fazendo-a repleta de símbolos e memória.

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Mito e música sacra de matriz africana na Poética do Candombeiro: da escravidão discursiva aos orikis em sala de aula
por ELISABETE NASCIMENTO

Resumo
Muitas têm sido as estratégias de descristalizar os sentidos autoritários, que "inventaram" e "prescreveram" o negro como mercadoria, como peça e como coisa. Neste sentido, o trabalho busca investigar a Poética do Candombeiro, como uma dessas estratégias capazes de abolir a escravidão discursiva relacionada às contribuições de atriz africana. Música sacra e mito serão investigados como componentes dos Orikis, base da referida Poética. É hipótese desta abordagem que a Poética do Candombeiro engendre estratégias contrárias à idéia de subalternidade "prescrita" à(s) identidade(s) brasileira(s). Nesta direção, serão operacionalizados questionamentos sobre os Orikis: na análise do conto O entalhador de xapanã da escritora Elisabete Nascimento, e na análise da música sacra do Oriki d`O rei do olubajé, do antropólogo José Flavio Pessoa de Barros. Buscar-se-á comprovar que: da escravidão discursiva aos Orikis em sala de aula, é possível promover a cultura brasileira como um mosaico de referencialidades, perceber as contradições dos processos identitários, bem como promover renegociações identitárias tranformando a Escola em território de emancipação e de devir.

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É POSSÍVEL AFROBETIZAR A EXCLUDENTE TRADIÇÃO LITERÁRIA BRASILEIRA?
por Fabiana Lima

Resumo
O título em forma interrogativa faz da presente comunicação um misto de questionamento e de desafio à pesquisadora que a produzirá. A investigação metodológica que será desenvolvida faz parte do projeto de doutorado Afrobetizar: uma possibilidade de (re)ler e de (re)escrever a excludente tradição literária brasileira nos manuais didáticos de Literatura, que se propõe investigar os motivos e as conseqüências da quase total ausência, nos livros didáticos de língua materna do ensino médio, da produção literária em que vozes afro-brasileiras articulem sentidos sobre sua própria condição social. A problemática desta comunicação gira em torno do processo de canonização literária mais comum nos manuais de literatura do ensino médio: uma historiografia literária cujas bases ideológicas se assentam na construção de uma pretensa nacionalidade brasileira imaginada como una e coesa. Essa idéia de nação acaba por se converter em parâmetro para a seleção de escritores abordados nos livros didáticos, cada um deles representando um papel específico dentro dessa norma seletiva geral. A literatura afro-brasileira, dentro desse contexto, acaba por ser relegada ao silêncio. Cabe, portanto, refletir sobre os fundamentos de exclusão que estão na base dessa seleção canonizadora e sobre a própria condição contraditória da escritura literária afro-brasileira, uma vez que se mostra contra-hegemônica, mas que, por outro lado, é em grande parte produzida a partir do elemento central da cultura logocêntrica — a escrita.

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Literatura afro-brasileira infanto-juvenil: enredando inovação em face à tessitura dos personagens negros
por Maria Anória de Jesus Oliveira

Resumo
O presente trabalho resulta de estudos anteriores na área literária, e visa à análise de narrativas afro-brasileiras infanto-juvenis contemporâneas, cuja tessitura dos personagens negros seja inovadora. Para tanto realizamos pesquisa bibliográfica e nos norteamos na teoria, crítica literária e em contribuições da área de Ciências Sociais e Humanas. Com base nas obras publicadas entre 1997 e 2007 constatamos, até então, que prevalecem três eixos temáticos: 1)rememoração de lideranças negras da África e diásporas; 2)cosmovisão das religiosidades de matrizes africanas; 3)universo cotidiano de famílias negras. Dentre essas obras destacamos: Ogum, o Rei de muitas faces e outras histórias dos Orixás (CHAIB, 200). Fica comigo! (TEIXEIRA, 2001), a Rainha Ginga (AMANCIO, 2005), O espelho dourado (LIMA, 2003), A semente que veio da África (LIMA, 2005) e As tranças de Bintou (DIOUF, 2004). Observamos ainda a coexistência no mercado editorial de obras eivadas de estereotipias em face aos personagens negros por meio da ilustração e/ou do texto verbal. Desse modo, nosso papel enquanto (re)leitores críticos de tais obras é de fundamental importância para que possamos priorizar aquelas mais pertinentes à valorização e ressignificação da história e cultura afro-brasileira e africana, conforme consta da Lei 10.639/03 e as respectivas Diretrizes (2005).

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Territórios de identidades negras reinventadas: A música Pop sob o hibridismo diaspórico.
por Maria Regiane Silva

Resumo
A invenção da música pop como uma performance de reinvenção da identidade negra nas Américas, é observada a partir do resultado do encontro do free-jazz com o rock na década de 1970. Diante dessa nova realidade sonora, a liberdade musical se efetiva e minimiza os preconceitos com as possibilidades de interação entre a complexidade free-jazzística e a simplicidade do rock. A vertente da música popular após essa reinvenção teve importância cultural e estética a nível global, tornando o Pop, um fenômeno artístico de performance livre, aberto a qualquer forma de hibridismo, e carregado de identidades diluídas e reconstruídas sob uma nova estética. No Brasil podemos encontrar elementos identitários negros em estilos variados, e consecutivamente mais híbridos e experimentais como na música de Sandra de Sá, Fernanda Abreu e Fernanda Porto. Inquirimos sobre uma matriz africana na música de caráter pop atual, uma vez considerando sua história com os passados de descendência negra dos gêneros rock e free-jazz, este de conteúdo revivalista étnico e liberdade de integrações internacionais. Dessa forma, a reflexão assume pertinência sócio-cultural inerente a história da música de expressão negra e seu espaço, observando a presença dessa realidade em sentido extra-musical e intenção estética, social e artística atuais.

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