AS TRANSITIVIDADES E OS SEUS IMPASSES NO ÂMBITO DA FICCÇÃO BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA


Coordenadores
Prof. Dr. Jefferson Agostini Mello (USP)
Profa. Dra. Raquel Illescas Bueno (UFPR)
Resumo: Este simpósio visa a dar continuidade a dois outros, "Utopias e heterotopias: sociedade no romance brasileiro a partir de 1930" e "Ficção Contemporânea: novas possibilidades = novas abordagens?", organizados, respectivamente, para os X Encontro Regional e X Congresso Internacional da ABRALIC. O objetivo agora é o de aprofundar os debates em torno da ficção brasileira contemporânea, buscando acolher, além das leituras de objetos específicos, trabalhos que reflitam sobre as relações da literatura com outras artes e com outros saberes. O pressuposto é o de que há duas tendências dominantes na produção ficcional brasileira na atualidade: o diálogo mais estreito com a crítica literária e com a teoria produzida pelas Humanidades (Filosofia, História, Sociologia) e a absorção das linguagens do cinema, do teatro, da fotografia, da música popular, da televisão e das mídias eletrônicas em geral. Como resultado, ampliam-se as sobredeterminações entre os discursos crítico e teórico e a produção artístico-literária, e, da mesma forma, os intertextos de contos, romances, crônicas e novelas. Observados esse panorama e essas inovações, cabe perguntar sobre os limites da mescla discursiva e artística. Em que medida ela de fato confronta os critérios tradicionais de arte literária e de valor? E se o faz é em nome de quê? Ou, ainda, como os supostos hibridismo e diversidade da ficção brasileira respondem ou correspondem às ideologias do capitalismo e da globalização? Eis alguns dos problemas e constatações, tanto intrínsecos quanto extrínsecos ao texto literário, a serem problematizados ao longo do simpósio. "

Subtema: Literatura e outras artes

Duas comédias paulistanas pós-modernas: Spinola e Prata relêem o clássico dantesco
por ANA MARIA CARLOS

Resumo
A divina comédia , de Dante Alighieri, é uma dasobras mais citadas da literatura ocidental. No século XXI, duas obras retomam oclássico italiano, transportando-o ao universo paulistano: em 2000, Noenio Spinola publica Dante Alighieri visita acomédia paulistana, romance policial de denúncia política; em 2007, MarioPrata reúne em livro a divertida paródia burlesca Purgatório: a verdadeira história de Dante e Beatriz. A grandeza da viagem empreendida por Dante sofre, na reescritura dos autores contemporâneos mencionados, em certa medida, uma atualização redutora, pois o percurso simbólico e visionário guiado pela fé como forma de salvação, que estava na base da obra do poeta florentino, fica reduzido à dimensão laica da realidade histórica contemporânea. Mas a discussão ética permanece. Prata discute o pecado e a culpa no Brasil nos dias atuais; Spinola vê a vida na periferia de São Paulo como uma nova representação do Inferno dantesco. O que importa, na verdade, é a continuidade daquilo que já foi dito e é novamente dito, citado, transformado, variado, subvertido. Este trabalho busca, então, discutir o procedimento intertextual empreendido pelos autores em sua reorganização do material da tradição, procurando identificar as transformações, adaptações e modificações realizadas, bem como a função que desempenham.

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O texto crítico como forma: os escritos de Glauber Rocha em O Pasquim nos anos 1970
por Arlindo Rebechi Junior

Resumo
Glauber Rocha (1939-1981), amplamente conhecido pela sua atuação no cinema brasileiro, dedicou-se também à produção crítica sobre literatura, cultura e política. Para esta comunicação, está em jogo a análise de seus escritos publicados nos anos de 1970, no jornal independente O Pasquim, buscando reconstituir as referências sociais que se revelam nas formas essenciais do texto crítico, em suas composições e especificações ao ganharem a modulação estética. Como método, não se trata, portanto, de análise temática dos incursos presentes no texto crítico do artista, mas de intuir de dentro do próprio “material” dessa configuração o que, de fato, é social. Nesse horizonte, dois pontos principais serão tratados por esta comunicação na interpretação destes escritos, a saber: o ponto de vista mediado pelo narrador pessimista e crítico da ordem social que estabelece uma visada de reflexão do estágio de desenvolvimento do capitalismo de então, incluindo a ordem cultural dos anos de 1970 diante dos elementos da indústria cultural; o modo como um projeto divulgador de suas leituras - tanto teóricas como literárias - é acomodado à escrita glauberiana no espaço do periódico, sugerindo, por esta via, o indício de uma forma de análise do momento histórico brasileiro e latino-americano.

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Caio Fernando Abreu e a escrita como possibilidade de ser um mesmo e um outro
por Ellen Mariany Silva Dias

Resumo
Nesta comunicação, abordaremos três textos do escritor Caio Fernando Abreu (CFA), a saber: um conto, uma crônica e uma carta. Estes, em comparação com um conto do escritor argentino Julio Cortázar. A escolha dos textos teve como critério a semelhança de aspectos temático-formais, diga-se, a relação entre motivação e situação dramática, de acordo com Tomachevski (1976). Neles, as pessoas/personagens encontram-se física e/ou psicologicamente aprisionadas. A escrita, aí, mostra-se como uma possibilidade de comunicação de suas experiências de opressão, bem como de (re)construção, mesmo que de forma precária, das suas subjetividades. Nossa hipótese é a de que a relação intertextual entre estes aspectos temático-formais fornece elementos para compreendermos a construção das personae do CFA missivista, do CFA cronista e do CFA contista, de acordo com os três gêneros do discurso (BAKTHIN, 2005) praticados pelo escritor. Nesse sentido, especialmente no que se refere à construção do CFA contista, o texto de Cortázar figuraria como uma das bases para as escolhas temáticas e formais de CFA. É a partir desta relação dialógica entre os textos, que podemos visualizar a performance da imago CFA que, por meio da escrita, problematiza os limites entre autor, pessoa e personagem, ficção e realidade, carta, crônica e conto.

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Reflexões acerca de um contexto contemporâneo na obra "A máquina de ser", de João Gilberto Noll
por Grassiani Bernardi Frederico

Resumo
Considerando a relevância dos estudos contemporâneos na nossa atualidade, pretende-se com este trabalho realizar uma leitura da linguagem de João Gilberto Noll na obra “A máquina de ser” (2006), tecendo reflexões sobre um estilo literário que nos desequilibra, rompe os moldes e destaca essa nova visão do homem e da realidade em que se encontra, ou seja, a precariedade da posição do indivíduo. O objetivo desse estudo é refletir sobre novas possibilidades e novas abordagens da sociedade brasileira representada pela ficção contemporânea em um momento em que o homem busca entender sua identidade, e que transita cada vez mais do social para o individual em função do tempo em que vive. Um tempo que obriga a Máquina de Ser – homem – a funcionar. Esta proposta visa a uma leitura da obra de Noll através de uma análise sucinta da sua linguagem, marcada por cenas e temas que instigam e inquietam o leitor mais acostumado com soluções prontas na literatura. Pretende-se também contribuir para uma reflexão acerca da crítica ao homem e ao cotidiano contemporâneo, através de uma linguagem que retrata as tragédias existenciais do ser, característica marcante de Noll.

 
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A ideologia da ficção contemporânea: o caso de João Gilberto Noll
por Jefferson Agostini Mello

Resumo
Em seu conto "Em nome do filho", de A máquina de ser (2006), João Gilberto Noll constrói personagens cuja principal marca identitária é a não-identidade, de forma a se constituírem em eternos passageiros em um espaço fluido. Num segundo nível, metaficcional, o conto parece tematizar, a partir da idéia da viagem ininterrupta e inevitável , a ausência da autoria e do sentido da obra literária. Como as personagens viajantes do conto, estamos nós, leitores, de passagem por um espaço textual cujos sentidos não são jamais apreendidos. Devemos nos deixar levar pela deriva significante, sem nostalgia da origem, e construir "uma leitura", que vai se extinguir no próximo movimento. A comunicação pretende ler a fábula de Noll na sua relação com o discurso narrativo de Roland Barthes e Michel Foucault, para demonstrar como tais teorias não só compõem certo viés do pensamento de Maio de 68, como também ajudam a instaurar, na sua relação com a literatura de ficção contemporânea, um conteúdo ideológico que anteriormente se queria contra-ideológico. Assim, paradoxalmente, a recusa de aspectos como a significação, o sujeito, a autoria, toma a proporção de um discurso totalizante que se aproxima daqueles promovidos pelas sociedades de controle (Deleuze). Quando tal discurso é sobreposto à ficção, esta corre o risco de se transformar em alegoria.

 
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Musas midiáticas de Rubem Braga
por Luiz Simon

Resumo
A televisão e a música popular tornam-se, a partir da segunda metade do século XX, referências importantes na vida cultural brasileira, inclusive para um cenário mais próximo da tradição e da erudição como a literatura. Assim, cabe investigar como as produções literárias deste período incorporam traços e linguagens das referidas manifestações culturais. Em crônicas de Rubem Braga é intenso o trânsito entre o ambiente midiático e a perspectiva mais lírica e poética. São produtos desta negociação duas crônicas que se concentram em figuras femininas destacadas no meio da dramaturgia e da música popular: Dina Sfat e Rita Lee. Este trabalho se dispõe a examinar como ocorre este cruzamento, com a finalidade de contribuir para uma delimitação mais nítida dos caminhos da literatura brasileira contemporânea.

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A máquina de ser: identidades em abismo na ficção de João Gilberto Noll
por Marcelo de Souza Pereira

Resumo
A expressão “a máquina de ser” é recorrente no mais recente livro de João Gilberto Noll: é usada como título de um dos contos e como título do próprio livro. Além disso, aparece ao longo da narrativa do conto-título e de um outro conto. Esse martelar insistente de um mesmo agregado semântico chama a atenção para os efeitos metafóricos que ele desencadeia durante o ato de leitura da obra. Nesse sentido, o objetivo da comunicação é investigar como a metáfora da “máquina de ser” funciona como um fio condutor que conecta as narrativas entre si. A leitura integrada dos contos, através desse viés, será assessorada por um aparato teórico que tem como foco o processo de formação de identidades/singularidades no mundo contemporâneo.

 
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Mineira ação do outro: a correspondência de Carlos e Mário pelo viésde Silviano
por Maria Andréia Paula Silva

Resumo
Pretende-se, nesta comunicação, observar a hipótese deque nos textoscríticos ou ficcionais de Silviano Santiago a propriedade textuale a marcaautoral são aspectos pedagogicamente problematizados. Busca-seexaminar essahipótese a partir do conto do autor denominado "Converseiontem à tardinhacom nosso querido Carlos" presente no volume Histórias malcontadas e oensaio "Suas cartas, nossas cartas" que, além de prefáciodo livro Carlos &Mário de correspondência entre os escritores, figura nolivro de ensaiosOra, direis, puxar conversa! Nesse recorte, a pergunta que seapresenta é ade que se é possível ler no duplo movimento intertextual (críticoeficcional) uma concepção pedagógica da arte e da crítica.

 
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Aspectos da alegoria no romance Sangue de Coca-Cola, de Roberto Drummond
por Mariana Moura Specian

Resumo
O presente estudo analisa o romance Sangue de Coca-Cola (1980), do escritor mineiro Roberto Drummond. Tal objeto apresenta-se, temática e formalmente, como uma revisão crítica em relação à produção cultural imediatamente anterior, tal como outros romances brasileiros do pós-60. Tal estudo centra-se, especificamente, no diálogo com a teoria da alegoria de Walter Benjamin (1892 – 1940), importante filósofo e ensaísta alemão. Por meio dessa teoria, observamos que a transposição de algumas técnicas do cinema, do jornal e do rádio para o romance é uma das estratégias de que se vale a literatura de então em resposta a uma situação histórica específica: a decadência da ditadura militar e o reinício do capitalismo democrático no país. Nesse momento de transição e de crise, as contradições que fundamentavam a sociedade são transpostas na obra, especialmente por meio de alegorias.

 
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Histórias de rua ou sexo & violência: o realismo suburbano de Fernando Bonassi
por Maurício Silva

Resumo
Um dos autores contemporâneos que com mais persistência procurou promover uma série de deslocamentos estruturais em sua produção ficcional – e todo o conjunto de conseqüências que essa intervenção acabou acarretando – foi Fernando Bonassi, cuja literatura inscreve-se no diversificado plano estético do realismo suburbano. Embora aspectos de natureza puramente formal e estrutural das narrativas contribuam sobremaneira para a consolidação dessa perspectiva estética, as evidências de um substantivo apego a esse realismo podem ser verificadas sobretudo do ponto de vista temático, fazendo com que semelhante perspectiva surja necessariamente como derivativo imediato da opção por uma forma que, em si mesma, carrega consigo toda uma concepção de fazer literário que não está isenta dos conceitos de hibridismo, de descentramento ou de diversidade, os quais comporiam, isoladamente ou em conjunto, as mais recentes propostas de criação literária aliada à inovação estética. Do mesmo modo, seu estilo recebe o influxo dos temas que caracterizam de modo contundente a estética do realismo suburbano, temas que vão da violência urbana à sexualidade, das distorções sociais às identidades complexas.

 
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Autoria e intertextualidade na prosa de Hilda Hilst
por Nilze Maria de Azeredo Reguera

Resumo
Investigaremos em que medida Hilda Hilst, desde a sua estréia na prosa ficcional com Fluxo-floema, utiliza certos temas e procedimentos que colocam em cena a figura do escritor, numa tentativa de estabelecer um diálogo, mesmo que falacioso, com o seu público-leitor. Assim, observaremos de que modo suas personae (autor empírico, autor textual, narrador, personagem e leitor) deixam-se ver em seus textos, caracterizando a sua escrita como um espaço de encenação, ou, segundo Alcir Pécora, como um "exercício de estilo", em que o narrar é evidenciado em sua paradoxal (im)possibilidade. Ao (re)publicar seus textos com diferentes arranjos poéticos, em diferentes contextos, e ao se manifestar em entrevistas acerca de seu leitor e sua obra, Hilda contribuiu, ainda, para que fosse instaurado um espaço paródico no próprio circuito de veiculação de sua produção, no qual se acirrou a sua tensa e curiosa relação com o público-leitor. Como conseqüência, sua produção foi erigida nesse espaço discursivo híbrido e ambivalente, de intersecção entre vida e obra, suas personae, seus próprios textos, distintos registros discursivos e gêneros literários, no qual a tradição e a problematização desta coexistem. É, pois, a esses aspectos da prosa hilstiana que direcionaremos o nosso olhar no presente estudo.

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Luiz Vilela e o amor-paixão
por Paula Gerez Robles Campos Vaz

Resumo
A proposta deste artigo é a análise do conto de Luiz Vilela, intitulado “No Bar”, publicado em volume homônimo em 1968. O eixo condutor da reflexão centra-se no tratamento dado pela narrativa à temática amorosa. É possível depreender certa proximidade entre o amor retratado aqui e o conceito de "amour-passion". Dessa forma, o amor é tratado como sentimento desestabilizador, aproximando-se do êxtase, da loucura, da doença e da morte. Não deixa de ser curioso como um conceito que precede a Idade Média ainda vigore no imaginário coletivo. Além disso, defende-se a idéia de que a noção de amor apresentada, assim como a história de amor narrada, são facetas da crise do sujeito, são formas de atacar o ideário da modernidade e evidenciar o drama da inadequação contemporânea. O conto em questão, diferentemente da maioria dos contos do autor, é verborrágico. A presença de um narrador-personagem que fala, teoriza, analisa não é algo usual em Luiz Vilela. Nesse conto, existe tal característica: o pensamento é discursivizado. Isso aponta para um tom ensaístico, reflexivo que pode ser alinhado às tendências pós-modernistas da arte.

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Romance modernista, romance pós-moderno: uma análise de casos
por Raquel Illescas Bueno

Resumo
A comunicação discute a hipótese de que algumas características centrais da ficção brasileira contemporânea, usualmente saudadas como novidades pós-modernas, sejam variações sobre procedimentos formais e/ou investigações teóricas inaugurados no primeiro momento modernista. Tomam-se dois casos/exemplos bastante diferentes: a narrativa fragmentária de Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, herdeira de invenções formais de Oswald de Andrade (sobretudo em Memórias sentimentais de João Miramar), e a abordagem do choque cultural entre indígenas e homens brancos, preocupação de natureza etnológica comum a Nove noites, de Bernardo Carvalho, e a Macunaíma, de Mário de Andrade. Aproximações e distanciamentos pontuais entre os romances citados favorecem discutir os seguintes tópicos: em que medida os diferentes contextos de criação e apreciação dessas obras interferem quando se tenta avaliar sua qualidade estética? A ênfase na fragmentação e na relativização das verdades como características específicas do momento pós-moderno não estará forjando uma compreensão redutora dos romances produzidos nos anos 20 do século passado, nos quais já eram esses mesmos os traços mais notáveis?

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Dos altos e baixos da existência
por RICARDO KOICHI MIYAKE

Resumo
Esta comunicação consiste de uma leitura do conto"Afinação da arte de chutar tampinhas", de João Antônio (1937-1996),publicado no livro de estréia do escritor, Malagueta,Perus e Bacanaço. Contestando, em certa medida, a linha geral da crítica, a proposta é interpretar a referida narrativa, a partir dos procedimentos analíticos propostos pela Estilística germânica ­- em particular Leo Spitzer e Erich Auerbach -, e tendo como chave os referenciais da crítica dialética materialista, buscar demonstrar o quanto a forma adotada pelo escritor representa, nas suas lacunas, impasses, contradições e mesclas (notadamente as de fundo estilístico), o processo histórico e social problemático do Brasil entre as décadas de 1930 e 1960, período que a obra inicial de João Antônio abarca, ainda que nem sempre de maneira explícita. A idéia, nesse sentido, é ultrapassar a fraseologia crítica já tornada clichê a que a obra do escritor ficou relegada, mostrando que, muito além de ser mera "linguagem das ruas", a fala do narrador, em João Antônio, é representação problemática (inclusive e principalmente no sentido utilizado por Lukács) daquele processo sócio-histórico, em todos os seus percalços e tropeços.

 
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A entrevista literária como incremento ao diálogo entre o campus e a cidade
por Dau Bastos

Resumo
Relato da produção do livro Papos contemporâneos 1, composto de entrevistas realizadas por alunos e professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro com escritores e poetas brasileiros em atividade. A idéia é esmiuçar as diferentes etapas do processo: pesquisa sobre as obras, elaboração das questões e edição do material bruto. Também se cogitará do potencial analítico da entrevista literária, com vistas a propô-la como reforço à interlocução com os autores vivos cujos livros são estudados nos cursos de Letras.


Migração e transmigração, memória e patrimônio: o próprio e o impróprio de Luiz Ruffato e João Gilberto Noll
por Eva Pereira

Resumo
O trabalho busca confrontar dois diferentes modos de narrar o deslocamento espacial dos personagens (dentro de um mesmo país e de um país para outro) em dois escritores-chave da atual literatura brasileira: Luiz Ruffato e João Gilberto Noll. Para isso, serão abordados alguns aspectos derivados da presença do migrante na cidade grande em tempos de globalização, como sua transformação em um transmigrante e o conseqüente sentimento de perda da memória individual, do sentido de pertencimento a um grupo social e do desejo de construção de um patrimônio coletivo.


Os agregados nos romances de Milton Hatoum
por Maria da Luz Pinheiro de Cristo

Resumo
Os romances de Milton Hatoum têm em comum, dentre outras coisas, a questão dos agregados. É uma prática comum que consiste em trazer para a família meninas do interior que são utilizadas como empregadas em troca de casa e comida. Uma grande tensão nos romances gira em torno destes personagens. Os narradores também são agregados. Em Relato de um certo oriente, a narradora é uma agregada que não se permite escrever, mas colher testemunhos. Já o narrador de Dois irmãos pertence à família, mas sua posição oficial é de agregado também. Os três agregados, as empregadas e Nael, narrador de Dois irmãos, contam suas histórias, adiam a morte e o esquecimento por vias diferentes. Mas Nael opta pelo caminho da tensão entre oralidade e escrita, engendrando a memória. O narrador funcionaria como um operador que desliza pelo discurso do imigrante, mas também pelas formas discursivas dos da terra. Sua possibilidade de criação de um espaço-tempo em que todas essas linhas confluam depende da memória e do ato de narrar, de enunciar. O objetivo desta comunicação é discutir as operações de escrita utilizadas pelo autor para vincular história e memória e, consequentemente, como se dá este processo de legitimação .