ARTE E MITO NA LITERATURA


Coordenadores
Profa. Dra. Christina BIELINSKI Ramalho (UFRN)
Prof. Dr. Carlos Magno SANTOS Gomes (UFSE)
Resumo: Este simpósio discute o papel da arte e da retomada das imagens míticas em diferentes literaturas como uma forma de interpretação e avaliação do contexto social. As imagens míticas constituem inscrições simbólicas na cultura e nela circulam. A arte, por sua vez, conjuga, de diferentes modos, o prazer estético e o papel social, em obras nas quais se reconhecem tanto as transformações da sociedade como as da concepção estética e da recepção da obra de arte. Assim, busca-se, neste simpósio, dar destaque a textos literários que, privilegiando o diálogo multi-referencial com o mito e a arte, ampliam tanto a questão da recepção da literatura como as possibilidades de representação do mundo, aí incluindo questões bastante atuais como as de gênero, minorias, hibridismo e mídia, por exemplo. Quando arte e mito aparecem integradas ao texto literário que as referencia, novos significados surgem, dada a natureza multi-referencial que resulta dessa confluência de linguagens. Nesse sentido, percebem-se as imagens míticas como indicadoras de leitura e as diversas manifestações artísticas referenciadas pelo literário como roteiros de leituras que podem melhor esclarecer o texto literário e sua época. Nesse sentido, as contribuições teórico-críticas de Benjamin, Adorno, Eco, Eagleton, Hutcheon, Bakthin e Gablik, entre outros, podem iluminar reflexões sobre o diálogo cultural proposto aqui."

Subtema: Literatura e outras artes

Leitura do mito da serpente em "Cobra Norato", de Raul Bopp e "A serpente Emplumada", de D. H. Lawrence.
por Ana Leal Cardoso
Resumo
Este trabalho propõe um estudo comparativo do mito da serpente nas obras modernistas "Cobra Norato " e "A serpente emplumada", baseado não só no mapa da trajetória mítica do herói, traçado poe Joseph Campbell, mais ainda, na abordagem psicológica estabelecida por C. Jung. Utilizando conceitos junguianos como Persona, sombra, animus/anima e self, desenvolveremos a análise de algumas metáforas/símbolos recorrentes em ambas as narrativas que descrevem a busca de identidade do herói.
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Dialogismo entre Mito e Literatura: Lendas em Kai Uchikawa e Mohammed Tammarzit
por CARLOS EDUARDO ABBUD
Resumo
Partindo do conceito de dialogismo formulado por Bakhtin em seus estudos sobre Rabelais, o estudo verifica como as estórias da tradição oral se atualizam nas obras de dois autores contemporâneos. Mohammed Tamarzit, nascido em Níger, naturalizado francês, no conto Fauzia et son Fiancé justapôe os relatos orais da avó de Fauzia, uma berbere de Chade, com as intemperanças da neta, desafiando as tradições para se casar com um francês. Fauzia acaba por identificar-se com a heroína Djialê dos contos berberes da avó. Em Sankatsu no Yume Monogatari, Kai Uchikawa, escritor nipônico moderno, faz um paródia da obra Sansichi Zenden Nanka nanika Sankatsu no Yume de Bakin Kyokutei, do qual o autor hodierno é descendente indireto. Em ambas as obras, o imaginário popular surge em sonhos das protagonistas, sendo que na obra de Bakin são apenas mencionadas, ao passo que Sankatsu de Kai as usa como parábolas para sua situação marginal na sociedade japonesa moderna.
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Entre a voz e o eco: a performance da artista em Nélida Piñon
por Carlos Magno Santos Gomes
Resumo
Os romances A força do destino (1978) e A doce canção de Caetana (1987), de Nélida Piñon, abordam as óperas de Giuseppe Verdi com uma irreverência pós-moderna que amplia o conceito de simulacro. A performance das personagens artistas surpreendem pela condição subversiva ao recriarem as óperas conforme seus interesses particulares. Assim, este trabalho analisa a estreita relação entre a proposta estética e a performance política da artista na ficção de Nélida Piñon. Isso porque essas obras apresentam a arte como metáfora do processo narrativo, pois se apropriam dos enredos operísticos de forma paródica. A dinâmica dessa representação torna-se um questionamento da arte, pois são personagens que constroem um simulacro como uma nova realidade. O texto escrito não deixa dúvida ao denunciar o status de simulacro que sustenta a narrativa. Com isso, Nélida Piñon questiona as fronteiras artísticas, como os limites entre o texto encenado e o texto narrado, propondo, assim, seu próprio ritmo artístico, o da dissimulação. Para o leitor modelo, o atento ao “como” o texto foi escrito, o simulacro da ópera de Verdi é, na verdade, outro enredo e não o que havia sido anunciado. Por esse jogo estético, entre o eco da ópera e a voz da artista, o texto de Nélida Piñon atualiza seu papel social.
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Alina Paim e Eudora Welty: uma leitura do mito da heroína em A sombra do patriarca e Casamento no delta.
por Daniele Barbosa de Souza Almeida
Resumo
O mito do herói dentre muitos outros é talvez o mais difundido entre as várias culturas de todo o mundo. A recorrência desse mito em obras ficcionais possibilita a analise dos princípios que regem a transmissão dos códigos de poder tão discutidos pela crítica feminista. Esse artigo objetiva ressaltar os pontos de convergência das heroínas dos romances A sombra do patriarca (1950) de Alina Paim e Casamento no Delta (1943) de Eudora Welty levando em consideração aspectos sociais, políticos e culturais. Esse estudo pretende ainda identificar os recursos utilizados pelas autoras, ambas feministas, para construir personagens femininas que inscrevem em seus corpos características de libertação das amarras da ideologia patriarcal, conferindo a esse estudo uma característica de gênero. Os aportes teóricos que nortearão essa análise vão desde as reflexões de Tania Franco Carvalhal sobre os estudos de literatura comparada a Joseph Campbell e Annis Pratt que iluminarão os conceitos do mito do herói/ heroína, mostrando que o papel da mitologia sempre foi a de fornecer os símbolos que levam o espírito humano a avançar, opondo-se àquelas outras fantasias humanas que tendem a levá-lo para trás.
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A tessitura da escrita: do mito à expressão pela arte
por ELIANE TEREZINHA AMARAL CAMPELLO
Resumo
Neste trabalho, busco evidenciar questões de submissão/liberação e silêncio/expressão, por meio da análise de textos ficcionais, que tematizam o fazer artístico da mulher como o resultado de uma atividade de artífice a qual se manifesta, metaforicamente, na forma de uma escritura. A hipótese é a de que há, via relação metafórica, uma íntima associação entre a agulha e a pena, o fiar e o escrever. As personagens femininas da mitologia greco-romana, direta ou simbolicamente, associadas ao ato de fiar e bordar, se presentificam na ficção de autoria feminina ─ originária de diversos períodos históricos e culturais. A atividade artesanal/artística revela-se um meio de ruptura e transgressão do discurso e da cultura hegemônicas.
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Gênero, mito e arte em 'Valsa negra', de Patrícia Melo
por Lúcia Osana Zolin
Resumo
Nosso objetivo, nesta comunicação, é tecer considerações acerca do romance Valsa negra (2003), da escritora brasileira contemporânea Patrícia Melo, a partir do ponto de vista dos estudos de gênero e da teoria crítica feminista, perscrutando possíveis significados entre a arte musical e o mito do patriarcado, ambos entrelaçados na tessitura do romance. Narrado em primeira pessoa por um narrador autodiegético, o romance traz à tona a discussão acerca do relacionamento entre os sexos, de um ponto de vista masculino, claramente comprometido com a ideologia patriarcal. Nesse sentido, ao dar voz a um maestro enciumado pela esposa independente, trinta anos mais jovem que ele, a escritora parece fazer o registro do modo como entende e lê o comportamento masculino face à nova realidade da mulher. O resultado aponta para um interessante entrelaçamento entre tal comportamento, matizado pelas tintas dos conceitos cristalizados pela ideologia patriarcal – que não mais condizem com o modo de estar da mulher na sociedade de nosso tempo –, e a música, mais especificamente, a posição privilegiada do maestro frente à orquestra que rege.
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Romance de Cavalaria: Tessituras entre Arte e Mito na Literatura Medieval
por Marcia Medeiros
Resumo
Cada sociedade humana é, da mesma forma que suas realidades econômicas, políticas e sociais, um produto de suas angústias, de suas fantasias e de seus sonhos, projetados nas utopias que ela elabora e que encontram vida e forma nas linhas que seus escritores garatujam. Essas utopias podem servir a vários senhores desde sonhos de liberdade até ideais totalitários sem, porém, identificarem-se com qualquer dominus, pois elas representam o maior exercício possível de liberdade humana. Se a utopia é a negação de um presente medíocre e sufocante, é também o espaço de um futuro sem limites e sem fronteiras, sustentado unicamente pelo desejo, representando um sonho que apazigua as consciências mais rebeldes, regressando à perfeição das origens, marcando o reencontro do homem consigo mesmo. Toda a utopia é marcadamente globalizante, abarcando todos os aspectos do sentir, do agir e do pensar humanos. Especificamente no caso das utopias medievais, existe uma diferença latente, qual seja ela, a presença acentuada de componentes míticos, os quais sustentam todo um ideário de comportamento e valoração social, que está refletido nas páginas dos romances de cavalaria, organizando um código de ética e moral seguido, senão na realidade, ao menos pelos heróis como Lancelote e Artur. A proposta dessa comunicação é demonstrar a ilação desses elementos e a tessitura que se estabelece, no romance de cavalaria, entre o mito e a arte enquanto formas de expressão do pensamento de uma época.
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Intertextos e cultura sergipana em “Coivara da memória” de Francisco Dantas
por Maria Luzia Oliveira Andrade
Resumo
Este trabalho analisa a relação entre intertextualidade e cultura sergipana no romance Coivara da memória, do escritor Francisco Dantas. Os evidentes diálogos dessa obra com textos literários que compõem a considerada literatura regionalista, e com obras de outra categorização teórica, é o ponto de partida da nossa investigação. A esse processo de intertextualidade, insere-se a representação do interior de Sergipe e de suas tradições, conforme um painel cultural, no qual a prática da coivara, hábito local de queimar a terra tanto com o objetivo de prepará-la para o cultivo quanto com o propósito de espantar os maus espíritos, associada à lenda do caipora, criatura mítica responsável por tomar posse do espírito das pessoas, compõem e configuram um universo tipicamente rural, repleto de superstições, mas contraditoriamente, impregnado de valores e de hábitos da urbes. Desse modo, ao discutirmos a relação intertexto/cultura sergipana, em Coivara da memória, consideramos essa obra um objeto literário transculturador, no qual os elementos locais e nacionais da cultura encontram-se e comungam de uma proposta literária que coloca, no centro das representações, os valores sociais de um sujeito múltiplo.
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DA LITERATURA AOS MITOS: A MITOPOÉTICA NA OBRA DE LYA LUFT
por Maria Goretti Ribeiro
Resumo
Este artigo discute o processo de remitologização na literatura de Lya Luft, especificamente nas obras O rio do meio e Histórias do tempo, em cujos ensaios poéticos a autora expressa, metafórica e metalingüisticamente, o fenômeno mitopoético de seu ato criador. Partindo de aportes teóricos formulados por Mielietinski (1987), Durand (1997) e Jung (1991), demonstraremos que a literatura contemporânea, como a literatura clássica e de toda e qualquer época, serve-se da mitologização como instrumento de organização semântica do enredo, da construção dos personagens, combinando elementos da mitologia antiga com o objeto literário tanto pela intenção de dialogar com o imaginário das origens quanto pela identificação com arquétipos do inconsciente coletivo.
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Kassandra: releituras e reverberações do mito
por Rosvitha Friesen Blume
Resumo
Nesta comunicação pretende-se falar sobre duas releituras da figura mitológica Cassandra e de suas reverberações neste início do século XXI. A primeira, da literatura alemã, a novela Cassandra de Christa Wolf, de 1983, uma releitura do mito face à questão da Guerra Fria e à temática da emancipação feminina na Europa. A segunda, a peça de teatro Aos Que Virão Depois de Nós Kassandra In Process do grupo gaúcho de teatro Ói nóis aqui traveis, de 2002, uma releitura da novela de Wolf face à continuidade dos conflitos ao redor do mundo no novo século. Essas duas diferentes expressões artísticas, por sua vez, serviram de base para reverberações do mito num curso de literatura na UFSC no último semestre.
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Entrecruzamento de linguagens em Arnaldo Antunes
por Simone Alcântara
Resumo
Este trabalho analisa o projeto poético de Arnaldo Antunes a partir da intercomunicação entre iteratura e outras artes. Segundo esta abordagem, a expressão antuniense se dá não só pela linguagem verbal, com também por linguagens não verbais que se entrecruzam em um processo sígnico de contínua transposição, por exemplo, da literatura para a performance, caracterizando sua obra como exemplo do hibridismo da arte contemporânea, que já não percebe o movimento como atuação simplesmente cênica, mas, sobretudo, plástica. Dança, música e literatura, portanto, são vistas como experiências sinestésicas por meio das quais o poeta constrói o mundo, em uma obra cujo campo de possibilidades de percepção e conhecimento cada vez se abre mais, criando complexidade estética e ética em uma conseqüente multiplicidade de leituras.
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“Será só imaginação?"( A intenção do autor na obra de Renato Russo)
por SYLVIA HELENA CYNTRÃO
Resumo
A canção popular apresenta-se como um sistema de significações para o qual convergem e de onde partem, entre outros, os sentidos sociológicos e culturais lato sensu de um modo de vida urbano geracional. Uma análise estética de letras selecionadas, compostas por Renato Russo - ícone da canção brasileira da década de 1980- irá demonstrar, a partir de três vetores teóricos propostos por Umberto Eco, como essas letras incorporam informações simbólicas presentes nos signos sociais e recuperam um ideário mitopoético historicamente tematizado. Vários compositores da canção brasileira pós-1960 podem ser alçados – eles próprios – à condição de mitos porque, além de representarem artisticamente a história da nação, são a subjetividade de uma convergência ideológica. Impossível separar os signos estéticos produzidos por artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Renato Russo (para falar apenas de alguns compositores já clássicos da canção brasileira) da persona cultural destes poetas. A forte e explícita ligação com diversas referências culturais da recente história política brasileira, identificadas como posturas libertárias e transgressoras, faz a obra remeter eventualmente à persona do compositor que escolhemos aqui tratar – em si um sistema semiológico a ser considerado – para que se possa estabelecer as relações de equivalência e/ou superposição entre a intentio autoris e as intentio operis e intentio lectoris os três vetores de que fala Eco. Ressalte-se que a incorporação da “fala mítica” da persona do poeta só tem valor interpretativo no cruzamento com as articulações sígnicas textuais (intentio operis), quando confirma os sentidos aberto por estas últimas a partir da leitura (intentio lectoris), ou seja, é aprovada pelo complexo do texto como um todo orgânico. Interpretar esses “multidiscursos” para identificar a corrente mitogênica em que se inserem, sua representação ontológica e sua importância nos processos de construção de uma idéia de nação é o que visa este estudo.

Co-autora: PATRÍCIA APARECIDA CORRÊA
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Mito em Clarice Lispector
por Teresinha Vânia Zimbrão da Silva
Resumo
Este trabalho se propõe demonstrar que, em "Uma Aprendizagem ou o livro dos prazeres", Clarice Lispector atualiza situações míticas para o contexto moderno (ou pós-moderno) do Rio de Janeiro da segunda metade do século XX. Mostraremos que a autora se apropria do mito de "Eros e Psiqué" e, sobretudo, da "Odisséia" de Homero (os personagens principais do romance denominam-se Lori e Ulisses) a fim de escrever uma "odisséia às avessas".
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