| RELAÇÕES CULTURAIS E METAMORFOSES DA LINGUAGEM |
|
Coordenadores Profa. Dra. Irene Hirsch (UFOP) Prof. Dr. Hélder Garmes (USP) | |
|
Resumo: O simpósio pretende discutir as
complexas e imbricadas relações que se estabelecem no contato entre
culturas diferentes, entendendo-se a noção de "cultura" ao modo das
diversas reflexões da antropologia contemporânea, isto é, como um conjunto
de elementos simbólicos que cumprem o papel de integrar uma determinada
comunidade num também determinado período histórico, cujas manifestações
são sempre dinâmicas e passíveis de interpretação pela própria comunidade.
Nosso foco em relação a tudo aquilo que se pode designar de "contatos
culturais" centra-se preferencialmente nas manifestações artísticas, tais
como a literatura, a música, as artes plásticas, as artes cênicas, o
cinema, entre outras, sem, no entanto, excluir profícuas reflexões sobre a
própria língua e outras linguagens, em geral, ou sobre a circulação de
idéias e de imagens de toda a natureza que povoam os conjuntos simbólicos
em questão. Para especificar as relações culturais aqui privilegiadas,
lembrarmos alguns exemplos. Quando se realizam adaptações de textos para o
teatro e para o cinema, ou quando um filme ou uma peça se transforma em
livro, temos uma forma de relação entre conjuntos simbólicas simbólicos
distintos, ainda que dentro de uma mesma cultura, gerando novos parâmetros
e regras de representação. Quando se traduz romances, contos, poemas de
uma língua para outra, temos uma forma de relação entre tradições
literárias distintas. Quando tramas, personagens ou estruturas narrativas
migram de uma cultura para a outra, quer no âmbito da literatura, quer no
da história, quer no das diversas artes, temos relações entre culturas
distintas. É esse gênero de relação cultural que será privilegiada neste
simpósio. Vale lembrar que, além de considerarmos as formas em circulação
propriamente ditas, não perderemos de vista as expectativas e os pactos
existentes entre os receptores dessas formas nas culturas envolvidas e nem
deixaremos à margem a hierarquia dessas relações, fundada nos interesses
econômicos e políticos que as condicionam e muitas vezes as promovem.
" Subtema: Literatura, dialogismo e intertextualidade |

![]() |
| De Stonewall e Adé para o Brasil:
homoerotismo e tradução cultural na obra de Samuel
Steward por Adail Sebastião Rodrigues-Júnior |
| Resumo Steward lançou, em 1966, nos EUA, a primeira edição de sua coletânea de contos homoeróticos intitulada Stud. Nessa década, práticas sociais homoeróticas tiveram como lócus de manifestações o bar Stonewall Inn, com clientela variada. É nesse cenário cultural que a obra Stud surge, pouco antes da batida policial no referido bar, em 1969, que levou à prisão de seus proprietários e às ações de homofobia por parte dos policiais. Após um ano, nasce a primeira manifestação do Gay Pride, por meio da qual as minorias gays vêm a público e se tornam notícia. Em 1998 surge sua tradução no Brasil. Nessa década, diversas ONGs e grupos ativistas nacionais realizavam campanhas contra o vírus HIV, inicialmente denominado “peste guei”, por ter-se disseminado primeiramente entre os homossexuais. Nesta comunicação, tenho por objetivo explorar as relações culturais entre o gaynismo norte-americano, com ênfase em um conto da obra Stud que discute questões étnicas e homoeróticas, e sua tradução brasileira em As Aventuras de um Garoto de Programa. Pretendo salientar que a tradução revela-se uma estratégia de “desguetificação gay”, ou seja, busca pela notoriedade por meio do abandono do confinamento espacial e social dos gays (negros) em locais privados. |
![]() |
![]() |
| A desconstrução da glória em Eça de
Queirós e Pepetela por Ana Lúcia Gomes da Silva Rabecchi |
| Resumo Este trabalho busca apresentar algumas reflexões em torno da construção de dois romances: "A ilustre casa de Ramires", do escritor português Eça de Queirós e "A gloriosa família", do escritor angolano Pepetela. Entre o século XIX de Eça e o XVII de Pepetela - dos tempos turbulentos que figuram a ocupação de Angola por portugueses e holandeses - existem um tempo e um espaço refeitos na ordem inversa do que apresentam os romances e os títulos que os denominam, configurando as famílias Van Dun e Ramires como metonímia de Angola e Portugal. |
![]() |
![]() |
| O conflito familiar e o espaço em
ruínas em Os dois irmãos de Germano Almeida e Dois irmãos de Milton
Hatoum por Antonio Aparecido Mantovani |
| Resumo O intercâmbio literário entre Brasil e Cabo Verde, que nasce na década de 30 do século XX não se esgota enquanto manifestação literária nesse mesmo contexto. Este pode ser observado até a atualidade e em outras regiões além do Nordeste brasileiro. A partir desta reflexão, este estudo tem como objetivo investigar um novo espaço adicionado à identidade brasileira, a Manaus do romance Dois irmãos (2000), de Milton Hatoum e o contexto tradicional da Ilha de Santiago, Cabo Verde, retratado em Os dois irmãos (2000), de Germano Almeida. Nestes dois romances, há uma estreita ligação entre as personagens e o espaço em virtude de uma série de fatores como a emigração, a influência dos valores da sociedade e o drama familiar por causa do adultério e da vingança. Aqui focalizaremos principalmente as tensões das personagens a partir do espaço em que estão inseridas. |
![]() |
![]() |
| A barbárie no âmago da
civilização por Carla Carvalho Alves |
| Resumo As origens históricas dos conceitos morais, a crítica acerca dos mecanismos civilizadores, e, principalmente, um questionamento sobre o valor, mesmo, dessas estruturas, amplamente discutidos na Genealogia da moral e abordados de forma menos evidente em O Nascimento da tragédia são parte de uma elaboração bastante interessante que parece se repetir nas duas obras de Friedrich Nietzsche. Para se pensar a civilização, entendida como um padrão moralista e decadente, Nietzsche traz à tona o elemento bárbaro, ou, para definir a arte plástica, comedida e apolínea, o filólogo abarca a embriaguez e desmedida dionisíaca. Assim, é através da intervenção do elemento bárbaro que o filólogo alemão propõe sua reflexão crítica sobre a ordem, a civilização, a moral. Depreendendo da argumentação de Nietzsche, a possibilidade de se revisar a história e, até mesmo, a imanência valorativa dos conceitos morais, através da introdução de um elemento “não viciado”, estrangeiro, alheio ao status quo dominante, ou seja, o elemento bárbaro, buscaremos apresentar, em nosso trabalho, uma conjugação entre o âmbito literário e essa barbárie aqui alinhada à alteridade cultural. |
![]() |
![]() |
| Leitura: entre a política cultural e
a cultura política por Cláudia Camardella Rio Doce |
| Resumo A revista Leitura, que começou a ser publicada no começo dos anos 40 tendo como objetivo a popularização da literatura (se inserindo, portanto, na política cultural do período), promove, para tal, determinadas idéias como a aproximação do artista e do povo e a democratização da arte, o que resulta em uma série de adaptações feitas pelo próprio periódico ou nele difundidas: traduções, resumos de romances, adaptações cinematográficas, explicações de obras e autores por eles mesmos ou por seus pares. Através desta prática, não é difícil perceber a busca por um lugar onde as diferenças se harmonizem, embora sempre haja quem remarque este mesmo lugar como sendo de confronto e oposição. O trabalho, portanto, procura pensar a ambiguidade deste local que pode ser de limite ou interseção entre termos antagônicos ou complementares. |
![]() |
![]() |
| "O mistério da estrada de Sintra: das
páginas portuguesas ao cinema por Damares Barbosa |
| Resumo Como um dos principais escritores e críticos de seu tempo, Eça de Queirós, ao escrever O mistério da estrada de Sintra (1870), com Ramalho Ortigão, questionou valores culturais da sociedade portuguesa, o que ele fez ao propor um mistério a ser desvendado. A adaptação cinematográfica, co-produção luso-brasileira, d’O mistério da estrada de Sintra (2007), de Jorge Paixão da Costa, explora o mistério apresentado na novela queirosiana, submetendo-lhe a um enfoque diverso, de maneira a criar no espectador uma tensão constante sem deixar de destacar a crítica social, mantendo, dessa forma, a mesma perspectiva do romance original. Pretendemos, assim, discutir a recepção das duas manifestações artísticas e, também, analisar como o texto escrito e a produção fílmica, ao revelar o mistério, dialogam com os temas clássicos. |
![]() |
![]() |
| Relações Culturais entre Brasil e
Moçambique: a presença do Teatro do Oprimido em Maputo como forma de
difusão estética e de luta social por Elizabete Sanches Rocha |
| Resumo A Estética do Teatro do Oprimido, concebida por Augusto Boal, no começo dos anos 1970, e posteriormente difundida mundialmente, hoje está consolidada em mais de setenta países. Interessa aqui abordar a presença do T.O. em Moçambique, considerando sua importância naquele país como pólo estético e de luta por direitos básicos dos cidadãos moçambicanos. Em 2006, o Ministério da Cultura brasileiro nomeou o GTO de Maputo como Ponto de Cultura, pelo Programa Cultura Viva. Há uma nítida afinidade entre os anseios culturais e sociais dos moçambicanos e a busca do governo brasileiro por parcerias político-culturais, sobretudo com países de língua portuguesa. O principal objetivo desta comunicação é explorar a natureza destas trocas culturais, seus principais desafios e realizações. Sabe-se, por exemplo, que um dos pontos facilitadores para a entrada e permanência do T.O. em Moçambique é sua porosidade estética, ou seja, não se trata de uma forma fechada de se fazer teatro. Antes, trata-se de uma “metodologia”, capaz de respeitar as peculiaridades de cada ambiente cultural. Por outro lado, a existência de inúmeras etnias em Moçambique exige que o T.O. metamorfoseie sua linguagem conforme as realidades de cada região, gerando uma riqueza criativa coincidente com a diversidade cultural do país. |
![]() |
![]() |
| A imagem de um Brasil ideal ou uma
re-colonização às avessas: a importância da imprensa periódica
luso-brasileira e as suas relações culturais no início do século
XX por Fernanda Müller |
| Resumo Neste trabalho objetivamos discutir a importância da imprensa periódica literária luso-brasileira como fonte fundamental para a elaboração de um estudo inédito sobre as verdadeiras relações culturais entre ambos os países no inicio do século XX. Respaldada principalmente pelos estudos preliminares de Arnaldo Saraiva acerca do Modernismo Brasileiro e Português, abordaremos ainda nessa comunicação o programa de algumas revistas da época - como a Atlântida e a Águia - , bem como refletiremos acerca das imagens de um Portugal e Brasil ideais projetados em tais publicações através do discurso e da linguagem. |
![]() |
![]() |
| Eugénio Tavares: Um precursor da
cabo-verdianidade por Genivaldo Rodrigues Sobrinho |
| Resumo Eugénio Tavares é considerado um ícone da vida cultural, política e social de Cabo Verde entre 1890 e 1930. Durante estas 4 décadas, ele se mostrou o nome mais importante em todas as áreas da cultura de seu povo, tendo se tornado o seu maior intérprete até os dias de hoje. A sua obra é vasta e vai da poesia à música, da retórica à ficção, enveredando-se também pelo ensaio. Em sua poética, Eugénio Tavares busca da tradição crioula a morna, representante máxima da alma cabo-verdiana, aproximando o discurso literário da canção e da fala do povo. Nos textos em prosa e no jornalismo, o autor enfoca questões de natureza política e social (o texto engajado já abre um debate sobre a necessidade da independência política, social e cultural de Cabo Verde). Sua produção, bastante inovadora para a época, opera a confluência entre a arte culta e a arte popoular. Neste encontro, o autor resgata as formas tradicionais e preserva o patrimônio imaterial crioulo. Esta comunicação tem por objetivo maior fazer uma apresentação concisa da produção escrita de Eugénio Tavares, escritor emblemático de uma época e tido como um dos precursores da cabo-verdianidade. |
![]() |
![]() |
| Primeiras estórias em duas
versões por HELENA BONITO COUTO PEREIRA |
| Resumo O sucesso na transposição de narrativas literárias para o cinema depende da resolução adequada de uma série de questões, em especial a do narrador, conforme apontaram Xavier (1998) Johnson (1995) e outros. Embora a produção cinematográfica se alimente da literatura desde seus primórdios, é paradoxal constatar que, como ressalta Bluestone (2003), poucas vezes a adaptação de um bom livro resulta em um filme do mesmo nível e que, em relação inversa, livros apenas medianos algumas vezes resultam em excelentes filmes. Os desafios para a transposição ampliam-se consideravelmente quando se trata de narrativas com intensa elaboração textual, como é o caso de Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, que foram alvo de duas versões cinematográficas nos anos 90: A terceira margem do rio, (Nelson Pereira dos Santos, 1994) e Outras estórias (Pedro Bial, 1999). Em ambos os casos, a roteirização privilegiou a unificação das narrativas curtas, em que se compôs um grande quadro de personagens com relações de parentesco, relacionamentos ou envolvimento em situações que extrapolam o conteúdo diegético dos contos. O simples fato de acrescentar, reduzir ou alterar personagens ou episódios não seria suficiente para comprometer o bom resultado das adaptações. Entretanto, as peculiaridades da escrita de Rosa interferem substancialmente em qualquer tentativa de recriação do mundo narrado em outro suporte que não o da palavra escrita. O presente trabalho confronta determinadas personagens nas versões literária e cinematográfica, ressaltando diferentes efeitos de sentidos alcançados em cada uma dessas linguagens. |
![]() |
![]() |
| Melville e os
portugueses por Irene Hirsch |
| Resumo Após a publicação de doisgrandesromances, Moby-Dick e Pierre, Herman Melville começou a escrever contos para as revistas norte-americanas Harper’s e Putnam´s, talvez porque nenhum dos dois romances tenha sido muito bem recebido pelac rítica coeva, nembem sucedido comercialmente. A sua produção mostra-se notável: em menos de quatro anos, ou seja, entre o final de 1852 e o começo de 1856, publicou quinze narrativasbreves nas duas revistas. Numa dessas histórias, “Os ‘tugas” (abreviação de “portugas”), o autor faz uma descrição dos marinheiros portugueses, sempre dispostos a embarcar nos naviosnorte-americanos, com gratificações abaixo do preço. O texto de Melville, escrito em tempos da escravidão, é um depoimento do ambiente de racismo que testemunhara a bordo dos baleeiros em que viajou. |
![]() |
![]() |
| O olhar e o redemoinho: paradoxos do
tempo em "Grande sertão: veredas" por Julio Cesar Machado de Paula |
| Resumo Em entrevista a Günter Lorenz, João Guimarães Rosa justifica o uso recorrente que faz do paradoxo definindo-o como um dispositivo capaz de expressar algo para o qual não existem palavras. Anos mais tarde, em seu livro Metáfora Viva, o filósofo francês Paul Ricoeur, insatisfeito com a concepção da metáfora como simples ornamento do discurso, propôs revitalizá-la aproximando-a do paradoxo. A verdadeira metáfora, a metáfora viva, constituir-se-ia não apenas por uma relação de similaridade entre dois termos, mas também pela dessemelhança observável entre eles. Partindo da afirmação de Rosa e das reflexões de Ricoeur, desenvolvo no presente trabalho uma análise da construção do tempo em Grande sertão: veredas. |
![]() |
![]() |
| Traduzindo a cultura do outro:
reflexões a partir de um caso do sânscrito por Lilian Cristina Gulmini |
| Resumo A tradução de um texto produzido por outra cultura no passado é tarefa que pressupõe alguns desafios. Dentro de casos como o analisado neste artigo – a tradução de um tratado sânscrito de autoria do pensador Çankara (c. 788-820 d.C.), e portanto representativo da doutrina do Advaita-vedânta na Índia –, defende-se a necessidade, por parte do tradutor, do conhecimento do campo discursivo da cultura de origem no qual está inserido o tratado e do reconhecimento de suas referências dialógicas. Além disso, algumas soluções tradutórias são defensáveis no caso da tradução de textos temático-conceituais, tais como um recurso mais intenso aos comentários e uma investigação mais acurada dos termos polissêmicos e daqueles que representam conceitos inexistentes na cultura de chegada. No presente artigo, tais reflexões são acompanhadas de exemplos de soluções de tradução. |
![]() |
![]() |
| A cidade e a infância: os da minha
rua por Vera Maquêa |
| Resumo Luandino Vieira e Ondjaki representam duas gerações de escritores angolanos, do mundo. Em A cidade e a infância, Luandino Vieira, pela memória, reedita um tempo deixado para trás, na geografia de uma cidade maior que Luanda. Ondjaki em Os da minha rua, também pela memória, reinventa personagens que povoaram suas ruas. As duas narrativas se aproximam pelas ruas de um cidade, de um país, de um mundo que inspira histórias na forma mágica do conto. Em ambos, as duas cidades se divergem e ao mesmo tempo são a mesma cidade. Neste trabalho pretende-se discutir a perspectiva de dois livros escritos sob diferentes motivações e que guardam um diálogo silencioso entre si pela abordagem do espaço da cidade transformada pela memória. |
![]() |
![]() |
| O intelectual e a construção do
discurso marginal por Waldilene Miranda |
| Resumo O trabalho em questão investiga - tendo como pano de fundo relações sociais e políticas - como se sustenta a construção discursiva produzida pela periferia brasileira. Esses enunciados em nome do povo - a música do Hip Hop e a Literatura Marginal - passam pela ótica do intelectual que ao lançar o seu olhar em direção à existência do “outro”, desenterra a memória dos indivíduos esquecidos pela história pedagógica. Esses discursos periféricos serão analisados a partir de suporte teórico que conta com figuras do universo crítico, como Bhabha, Hall, Said e Jameson. E, para entendermos como se re(constrói) o imaginário nacional, levantaremos questões relativas às estratégias de construção e articulação de identidades culturais fragmentadas, híbridas e em processo de formação. Logo, demonstraremos de que modo tais discursos atuam como elementos marcantes da cultura brasileira, e como a enunciação do intelectual marginal se destaca como um ‘medium’ entre a voz dos indivíduos silenciados pelos discursos homogeneizantes e a sociedade. |
![]() |

![]() |
| A figura do mestiço nas Décadas da
Ásia de João de Barros por Helder Garmes |
| Resumo Se é fato que a própria palavra “mestiçagem” nem era empregada no século XVI, não é menos verdade que o uso que se fazia da palavra “mestiço” em vários textos do período nos leva a essa noção. É evidente que seu sentido não é, á rigor, aquele que lhe é atribuído contemporaneamente por antropólogos ou historiadores, mas é muito provável que guarde alguma relação com este. É na busca dessa relação que o presente trabalho se debruça, tomando por base a obra Décadas da Ásia de João de Barros. Ainda que levando em consideração o contexto quinhentista, com parâmetros muito distintos daqueles empregados pela historiografia contemporânea, João de Barros parece empregar a palavra “mestiço” num sentido similar ao que hoje qualificaríamos como culturalista, isto é, a partir de uma perspectiva não-eurocêntrica, apontada por Antonio José Saraiva em seu famoso ensaio “Uma concepção planetária da história em João de Barros”. Isso o aproximaria da concepção de mestiçagem cultural presente em obras como as de Jean-Loup Amselle, Serge Gruzinski ou Carmen Bernard. Portanto, o presente trabalho pretende se perguntar em que medida João de Barros pode ou não ser lido como um cronista que realiza uma descrição de base culturalista dos contatos entre os distintos povos do globo. |
![]() |
![]() |
| Entre Culturas: representações do
casamento em literaturas de língua portuguesa por João Figueiredo Alves da Cunha |
| Resumo Tendo em vista a proposta de trabalhar o comparativismo a partir de “contatos culturais”, esta comunicação tomará por base as obras Niketche: Uma História de Poligamia de Paulina Chiziane, e Jacó e Dulce: cenas da vida indiana do goês Francisco João da Costa, para expor modos distintos de reação cultural, em países colonizados, considerando que, ao absorver, ainda que pela imposição, a cultura dos colonizadores, cada sociedade a adaptou ao seu próprio modo de existir. As conquistas lusitanas pretendiam não apenas a retirada de bens materiais das terras “descobertas”, como também a difusão da fé cristã. Contudo, assim como a exploração das terras se deu de maneira diferenciada em cada colônia, a recepção da religião católica também o foi. O impacto da cultura do colonizador na vida de cada colonizado e de seus descendentes (e que por vezes passa despercebido nos livros de história), revela-se fortemente na expressão artística. Sendo assim, pretendendo fazer uma análise literária e não sociológica (sem desprezar a aproximação das duas vertentes), utilizaremos a temática do casamento e sua representação na trama de cada uma das obras supracitadas, para expor a violência cultural da empresa colonial e a reação dos “canibais” a tal imposição. |
![]() |
![]() |
| Pepetela e Graciliano: dois olhares,
uma só voz por Maria Alzira de Souza Santos |
| Resumo Em A geração da utopia, do escritor angolano Pepetela, e em Vidas Secas, do escritor brasileiro Graciliano Ramos, observamos dois olhares dirigidos a realidades diferentes - o momento histórico da Guerra de Libertação e o Pós - Independência em Angola e o ciclo da seca no nordeste brasileiro - mas que convergem para um ponto em comum: a denúncia da opressão das camadas populares pela dominante e a construção de uma resistência e de um caminho que leve à dealienação.Podemos encontrar no romance angolano "marcas" do romance brasileiro: ambos voltam-se para questões sociais e apresentam um mesmo estilo de linguagem direta e o mesmo desejo de revelar as injustiças e a reificação impostas. Aproximam-se também pela dimensão popular na medida em que seus textos recuperam e dão voz aos setores populares que foram silenciados. |
![]() |
![]() |
| Sherlocks tropicais em solo francês:
o Brasil em ritmo de "polar" por MARIA CLAUDIA RODRIGUES ALVES |
| Resumo O presente estudo visa mapear o atual mercado editorial francês, bastante receptivo em relação à literatura brasileira, sobretudo no que se refere especificamente a obras que se aclimatam ao gênero polar /roman policier ou roman noir. Esta vertente, inaugurada por Rubem Fonseca, talvez malgré lui, vem se desenvolvendo, por exemplo, em traduções de obras de autores contemporâneos como Patrícia Melo, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Tony Bellotto, que uma vez editados, acabaram por conquistar um público especial e fiel. Interessa-nos obervar e compreender de que maneira os tradutores e as editoras se apropriam desses textos, muitas vezes transformando-os, enriquecendo-os com material para textual, para contentar o público francês. |
![]() |