REGIONALISMOS E FRONTEIRAS CULTURAIS: ARTICULAÇÕES ENTRE O PRÓPRIO E O ALHEIO


Coordenadores
Prof. Dr. PAULO SÉRGIO NOLASCO DOS SANTOS (UFGD)
Prof. Dr. JOSÉ ANTÔNIO DE SOUZA (UEMS)
Prof. Dr. PAULO BUNGART NETO (UFGD)
Resumo: A abrangência teórica do conceito de regionalismo, a partir de novos aportes dos estudos culturais e de literatura comparada, ganha pertinência sobretudo em função da crescente globalização cultural, atravessando e reconfigurando fronteiras, ao redesenhar diferenças de etnia, gênero e outras formas de pertencimento que fazem do regional renovada categoria trans-histórica. Sob esta perspectiva, os estudos regionalistas acentuam e recriam os paradoxos entre o local e o global, o centro e a periferia, a metrópole e a colônia, o próprio e o alheio, como modos de articulações em novos discursos, reafirmando o que Angel Rama, em outro contexto, denomina "transculturação narrativa". A proposta deste simpósio é, portanto, demonstrar em que medida o regionalismo cultural articula, nas palavras de Hugo Achugar, "o hambúrguer do McDonald's com o mate uruguaio", assegurando a permanência do local e dos mais variados locus de enunciação. "

Subtema: Literatura, dialogismo e intertextualidade

Perspectivas de estudo da memória e identificação nas obras:memórias inventadas de Manoel de Barros
por Ana Claudia Duarte Mendes
Resumo
A presente comunicação tem por objetivo apresentar as perspectivas de estudo dos aspectos da memória e de identificação, presentes na obra de Manoel de Barros, com especial destaque aos livros poéticos: "Memórias Inventadas: a primeira infância" e "Memórias Inventadas: a segunda infância". Ao observar as imagens que formam o tecido poético, que ora recuperam de forma inventiva a infância, ora retomam imagens presentes em outras obras, percebemos, a partir dos elementos que compõem esse discurso, a possibilidade de analisar a questão da memória. Nesse olhar, que volta ao passado, reencontramos imagens recuperadas de um tempo, no qual podemos localizar o que denominamos de processo de construção poética, a partir de conceitos de memória coletiva e individual. Ao estudar esse processo encontramos o conceito de identificação, pois ao pensar no texto poético, percebemos a relação de pertencimento ao lugar, o Pantanal, que recriado miticamente pela poesia se apresenta enquanto diálogo entre o local e o universal, uma vez que esta produção poética, no momento que olha para si, fala a partir de suas imagens dissonantes do universo que a cerca, do chão, do outro e de outros mundos e leituras.
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ALDYR SCHLEE E A CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA DO GAÚCHO DE FRONTEIRA
por Angelise Fagundes da Silva
Resumo
Este trabalho aborda a construção da identidade do sujeito fronteiriço na obra Uma Terra Só, de Aldyr Schlee. Para tanto, foram selecionados três contos - Primeiro de Janeiro, Domingos e Estação Rio Branco – nos quais a questão da fronteira entre Brasil e Uruguai é bastante significativa. O gaúcho, sujeito habitante desse espaço flutuante é, por conseqüência, híbrido, diferente, mestiço, em função, também, do próprio processo globalizante, que dissolveu as fronteiras. O sujeito desse espaço de passagem é aquele que, como aponta Aldyr Schlee, desvenda o lado de lá, mas com a certeza de que ele é apenas uma outra maneira de se ver o lado de cá. Como resultado desta troca, do “ir e vir” fronteiriço, há a transculturação, que fragiliza e contesta a precisão das fronteiras e a soberania do Estado.

Co-autor: Prof. Dr. PEDRO BRUM SANTOS (UFSM)
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O fato colonial na "A Amazônia misteriosa" de Gastão Cruls
por Claudio Silveira Maia
Resumo
Considerando o contexto histórico do Brasil em fins do século XIX e inícios do século XX, verifica-se um país politicamente independente, mas cultural e economicamente ainda dependente de metrópoles que se fizeram impérios sob o signo da neocolonização. Nesse sentido, acreditamos ser pertinente uma releitura do romance "A Amazônia misteriosa" (1925), de Gastão Cruls, cuja narrativa transfigura algumas tensões advindas da relação entre o neocolonizador e o neocolonizado. O primeiro tem por objetivo perpetuar a situação de dependência na ex-colônia política, enquanto o segundo tenta resistir às influências impostas pelas potências imperialistas, buscando expressar-se com voz própria e assim denunciar e identificar o neocolonizador como um sujeito criminoso. Destarte, essa proposta de releitura de "A Amazônia misteriosa" comparecerá no diálogo com algumas reflexões da teoria pós-colonial, o que permitirá reconhecermos, na narrativa crulsiana do romance assinalado, vozes insurgentes derrogatórias da neocolonização, bem como um artista comprometido com uma produção crítica e identitária de um sujeito que se deseja livre e com direito à voz, sendo estes dois dos princípios fundamentais para a construção da soberania política, econômica e cultural nacionais, pelo sujeito local.
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DE IERECÊ A GUANÁ: HISTÓRIA E IDEOLOGIA EM VISCONDE DE TAUNAY
por Fábio Luis Silva Neves
Resumo
Visconde de Taunay tem seu nome inserido no cânone literário brasileiro. No entanto, as críticas referentes ao autor são, quase sempre, a respeito das obras A retirada da Laguna (1871) e Inocência (1872). Esta última foi recentemente considerada obra “símbolo” do estado de Mato Grosso do Sul. Acreditamos que a obra de Taunay necessita ser rediscutida sob um olhar crítico do século XXI e não a partir da escolha de determinadas obras, o que acaba por construir uma identidade mascarada acerca do autor. Diante disso, escolhemos o conto “Ierecê a Guaná” (1874), somente republicado 126 anos depois, para tal discussão. Um outro fator a ser rediscutido na obra do autor é o caráter de apagamento étnico-cultural que está presente no conto por meio da relação do personagem colonizador em detrimento do indígena. Para tanto, utilizaremos como suporte teórico o texto “Índia Romântica. Brancos Realistas”, de Lúcia Sá, os textos “O narrador”, “Experiência e pobreza” e “Sobre o conceito da História”, todos de Walter Benjamin, a obra Brasil: mito fundador e sociedade autoritária, de Marilena Chauí e a obra O próprio e o alheio: ensaios de Literatura Comparada, de Tania Franco Carvalhal.
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Fronteira México-Estados Unidos: representação de conflitos pós-modernos
por Gisele Fernandes
Resumo
Este trabalho analisa a obra “Borderlands/La Frontera: The New Mestiza” (1987), de Gloria Anzaldúa, cujo tema remete à problemática fronteira México-Estados Unidos. A fronteira é representada como um local de muitas dores, sofrimentos, angústias e incertezas. Anzaldúa não se atém apenas a escrever sobre limites físicos, uma vez que as fronteiras culturais e econômicas são as verdadeiras divisoras entre, de um lado, os imigrantes e seus descendentes e, de outro, os americanos. Em ano de eleições presidenciais nos Estados Unidos, a imigração, mormente a ilegal, é um dos assuntos mais polêmicos nos debates entre os candidatos, por envolver interesses diversos. A economia americana necessita desses imigrantes, mas há grupos contrários ao vertiginoso crescimento das comunidades de hispânicos. Contudo, trata-se de um processo irreversível. Anzaldúa, em seu texto, mostra a força do hibridismo desses imigrantes e os conseqüentes conflitos desta situação. A obra escrita em Inglês e em Espanhol, e em prosa e em poesia, enfatiza o rompimento de fronteiras, inclusive o de gêneros literários. Textos de Homi Bhabba, Walter Mignolo e George Yudice constituem o embasamento teórico para as reflexões apresentadas.
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As regiões culturais na Literatura no Rio Grande do Sul
por Ilva Maria Boniatti
Resumo
A inexistência de hegemonia cultural no Rio Grande do Sul, diferentemente do que se pensava no passado, obriga a revisar a questão do “regionalismo” para reconhecer o conjunto de sub-regiões culturais que formam uma identidade “uma e diversa”.Considerando que não é apenas a linguagem que identifica uma cultura, mas também a fixação da temática, dos usos e costumes locais expressos na literatura, pode-se supor que a literatura de uma região é fruto de diálogos interculturais. No caso da literatura do Rio Grande do Sul, a presença de diferentes etnias, com suas diversas culturas, contribuiu para formar regiões culturais bastante nítidas; especialmente no século XX, configuram-se ainda as regiões metropolitanas que cada vez mais se distanciam dos núcleos regionais tradicionais .Nesse sentido, através do mapeamento e descrição das regiões culturais do Rio Grande do Sul, a partir da identificação das principais obras representativas dos imaginários locais, e influxos estrangeiros presentes na diferenciação das sub-regiões culturais que formam a literatura do Rio grande do Sul, constata-se a diversidade da literatura regional do Rio Grande do Sul, que representam as diferenças locais, com vistas a propor a divisão do Estado em sub-regiões culturais.
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A ELABORAÇÃO DE SELVA TRÁGICA, DE HERNÂNI DONATO
por Jérri Roberto Marin
Resumo
Essa pesquisa visa analisar o processo de criação literária de Selva Trágica: a gesta ervateira no sulestematogrossense, de Hernâni Donato, publicada em 1959. Pretende-se recuperar os intertextos que foram absorvidos pelo Autor na composição da obra, inserindo Donato como leitor, pois a produção literária é uma construção mosaica. Nesse sentido, proponho-me refletir sobre os percursos da construção de Selva Trágica, sobre as ligações com outros textos, sobre os nexos com materiais de origens, qualidades e naturezas distintas e, no confronto, reconhecer singularidades. Trata-se, sobretudo, de ir ao encontro de Donato, por meio de sua obra.
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Uma aproximação poética entre Lobivar Matos e Jorge de Lima
por José Antonio Souza
Resumo
Boa parte da produção literária brasileira da década de 1930 – modernista por excelência – teve como principal objeto a denúncia e a crítica social, especialmente a produzida na região nordeste de nosso país e, mais marcadamente, por intermédio do chamado romance regional. A relação entre o espaço e o ser humano, dado o projeto dos modernistas, é distinta em relação aos procedimentos naturalistas: enquanto naturalistas optam pela descrição do homem a partir do meio (o espaço em primeiro plano, portanto), os modernistas empreendem um percurso distinto: o ser humano passa a ocupar o primeiro plano. Nesse sentido, o ser humano retratado por alguns textos literários, desvinculado de uma região específica, supera o regional, redimensionando-se, universalmente. Nossa proposta de trabalho buscará a aproximação entre “Sarobá” (1936), do escritor sul-mato-grossense Lobivar Matos, e a poesia de Jorge de Lima, com o intuito de evidenciar que não apenas a produção em prosa da década de 1930 possuiu compromissos sociais, bem como apontar o alinhamento da produção lobivariana ao movimento modernista.
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Do regional, ao social, ao universal: a regionalidade alcançada pelo percurso poetizado do Nordeste à Espanha
por Lisana Teresinha Bertussi
Resumo
Estudo da obra poética de João Cabral de Melo Neto, com o instrumental teórico, advindo da discussão sobre o Regionalismo, que, por ser programático, é limitador e localista, e a Regionalidade, possibilidade de, através da referência ao universo de uma região, atingir a universalidade, segundo proposta de José Clemente Pozenato, em O Regional e o universal na Literatura gaúcha.Demonstração de como o poeta ao tematizar a região, na dicotomia geográfica, Nordeste/ Andaluzia, aponta para questões universais como a miséria social nordestina com a resistência dos Severinos, e a miserabilidade da condição humana, e o amor, a mulher, a sensualidade, a fertilidade a generosidade e acolhimento humanos das cidades espanholas, com ênfase em Sevilha, onde o autor viveu por muitos anos. Demonstração de como a paisagem pode ser projeção da dor e apontar para a morte mesmo em vida, como no caso do Brasil nordestino, ou para as múltiplas possibilidades de vitalidade, como na Espanha, com a Andaluzia.
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O REGIONALISMO DO SÉCULO XIX E AS RASURAS NA AUTORIDADE CULTURAL DO AUTOR
por Lucilo Antonio Rodrigues
Resumo
Em A literatura e a formação do homem (1972, p. 803-809) Antonio Candido compara dois contos: Mandovi, de Coelho Neto e Contrabadista, de Simão Lopes Neto. Candido recrimina Coelho Neto por operar marcas de oralidade no discurso da personagem rústica e reservar para o narrador a linguagem culta do colonizador europeu. Como contra-exemplo, ele afirma que no conto de Simões Lopes Neto esse problema não ocorreria porque o narrador se identifica com o universo da personagem rústica. Essa questão será retomada com base no dialogismo de M. Bakhtin e em alguns conceitos propostos por Homi Bhabha (Terceiro Espaço da Enunciação, diversidade e diferença, entre outros): sustentaremos que o texto de Coelho Neto dramatiza a diversidade cultural que vê o outro como um objeto dócil, ou seja, expõe o binarismo opositivo que caracterizaria a formação das identidades emergentes do século XIX a partir do mito da pureza originária. Por outro lado, em Simões Lopes Neto o drama se desenrola no próprio ato da enunciação, isto é, o texto se apresenta como um signo da própria ambivalência, uma vez que a autoridade cultural do autor - isto é a pureza de seu discurso eurocêntrico - é rasurada no presente da enunciação.
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Silvino Jacques em diálogo com Martín Fierro: das fronteiras platino-sul-rio-grandense ao cerrado sul-mato-grossense
por Maria de Lourdes Gonçalves de Ibanhes
Resumo
Esta comunicação visa demonstrar as aproximações entre a Décima Gaúcha, de Silvino Jacques e Martín Fierro, de José Hernândez, bem como, as relações entre as personagens foco de ambos os textos. Posto que a confluência da literatura platina, em especial a poesia gauchesca, decorre de fatores constitutivos da identidade desses 'locais", tais como: o espaço geográfico, político, social e cultural, mais particularidades antropológicas que lhes proporcionaram o processo de transculturação, gerando semelhanças e assegurando a diversidade que lhes é peculiar.
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A paisagem sul mato-grossense sob a perspectiva de Taunay
por Norma Wimmer
Resumo
No final de 1864, ao integrar as forças expedicionárias enviadas ao mato Grosso do Sul para atacar o Paraguai, então em guerra com o Brasil, Taunay pensava em seguir os passos dos viajantes-cientistas europeus e, como estes, desvendar o pitoresco interior do Brasil. De modo semelhante, o soldado-viajante dedicou-se à observação e ao desenho de paisagens, a inventariar espécies vegetais e animais. Muitas vezes é possível verificar uma estreita correspondência entre os desenhos e a representação verbal de alguns cenários dos textos de caráter regionalista de Taunay. Em alguns ocorre um processo de transposição de linguagens com evidente conotação ideológica; em outros - realizada uma primeira representação verbal do desenho - esta sofre sucessivas modificações. Assim, o objeto da comunicação a ser apresentada é refletir acerca da representação da natureza em alguns textos do Visconde de Taunay.
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Onde cantam as seriemas, de Otávio Gonçalves Gomes: presença do regionalismo no memorialismo sul-mato-grossense
por Paulo Bungart Neto
Resumo
Memorialismo e regionalismo mesclam-se quando as lembranças de determinado escritor recuperam cenas de infâncias vividas em fazendas, zonas rurais, pequenas cidades, etc, locais que imprimem na alma de quem posteriormente as invocar fazeres e falares rústicos, peculiares, culturalmente marcados, "regionais" portanto - mesmo que o Sujeito da Memória viva, no tempo da escritura da obra, em algum centro urbano cosmopolita e indistinto. Assim ocorreu com Graciliano Ramos em Infância (amargas recordações sobre o interior das Alagoas escritas no RJ), com Augusto Meyer em Segredos da infância (o lugarejo Cerro d'Árvore poeticamente eternizado anos mais tarde, em Porto Alegre), e com o sul-mato-grossense Otávio Gonçalves Gomes em Onde cantam as seriemas (belo registro, levado a cabo em Campo Grande, acerca de Ribas do Rio Pardo, cidadezinha do Mato Grosso do Sul a 100 quilômetros da capital do estado). À margem da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, funcionando, deste modo, como importante elo entre MS e SP, Ribas do Rio Pardo ressurge da memória de Gomes com suas pontes, rios, trens e ruas, cenários idealizados para reambientar personagens marcantes da história de vida do autor. Praticamente desconhecida, esta obra memorialística de Otávio Gomes não se restringe à bucólica cidade: seu testemunho engloba os arredores do município e privilegia a cor local ao evocar as frutas da região (tais como a guavira, fruta amarelada, de gosto ácido), a fauna (sabiás de "gorjeio melodioso, compassado e repousante" e as seriemas, que dão título à obra, aves desajeitadas, "elegantes e cantadeiras", típicas do Centro-Oeste brasileiro) e festas típicas como a de São Sebastião (20 de janeiro). Esta comunicação visa a demonstrar que a obra de Otávio Gonçalves Gomes recupera uma vertente essencial do gênero memorialístico ao confirmar, no dizer de José Couto Vieira Pontes em História da literatura sul-mato-grossense, a presença do "regionalismo nas reminiscências" pessoais do escritor.
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Fronteiras do local: reverificação do conceito de regionalismo
por Paulo Sérgio Nolasco dos Santos
Resumo
Com o advento do século XXI e a expansão da globalização cultural, alguns conceitos críticos e operacionais, relativos à vida da literatura, e da cultura enquanto história dos textos, acabam sofrendo reformatações outras, questionando perspectivas binárias, numa evidente necessidade de se pensar “para além dos binarismos”, que ainda formataram o projeto moderno no século passado. Em particular, as noções de região e regionalismo e suas confluências em “regiões culturais”, não só tiveram suas perspectivas “defasadas”, mas ao mesmo tempo colocaram em demanda uma outra “situação crítica”, voltada para a “permanência” do local/localização e da aldeia. Sob esta perspectiva, esta comunicação volta-se para a revisão do Regionalismo como renovada categoria trans-histórica, cujo conceito operatório torna-se validado, hoje, em sua análise, para explicar os atuais transladamentos culturais e ao que o discurso crítico latino-americano denomina “transculturação narrativa”.
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O sertão além das fronteiras: a revitalização do regionalismo na formação da identidade nacional na obra Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa
por Priscila de Cássia Pinheiro Castilho
Resumo
Com o crescimento acelerado das metrópoles nacionais rumo à modernização os escritores regionalistas tiveram dois caminhos a escolher: retroceder ou renunciar. É dentro desse conflito que os regionalistas surgem com a solução de lançar mão das contribuições da modernidade, revisar à luz delas os conteúdos da cultura regional e com ambas produzir um híbrido que seja capaz de continuar transmitindo a herança recebida que se renovará, porém, sem esquecer as raízes do passado. Guimarães Rosa adota essa posição ao escrever seu único romance Grande sertão: veredas (1956) aonde o narrador-protagonista Riobaldo, ex-jagunço, narra sua história a um interlocutor vindo da cidade. Nesse enredo temos dois tempos narrativos o passado e presente. Ao contar sobre o passado deste local, Riobaldo conta dos ‘causos’, dos costumes, do sistema jagunço, enfim, relata a cultura local a fim de o interlocutor conhecer o passado para entender o presente daquele local em que os costumes mudaram, o que era próprio do local quase não existe mais em vista do fenômeno da modernização. No entrecruzamento desses dois tempos, percebe-se a revitalização do conceito regionalismo a partir dos diálogos culturais entre o local e o global, tradição e modernidade através dos personagens Riobaldo e seu interlocutor, Zé-Bebelo, Joca Ramiro, Hermógenes, Diadorim, entre outros. Procuro assim conceituar em face da própria narrativa o regional em articulação com o nacional no afã de produzir novos sentidos, novos olhares sobre a identidade nacional por via da narração de Riobaldo, e dos personagens que articulam esse diálogo.
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O PAPEL DO TERRITÓRIO NA IDENTIDADE DO ÍNDIO KAIOWÁ: O HOMEM TRADUZIDO PELO LUGARA
por Rita de Cássia Pacheco Limberti
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É considerada inerente ao homem a sensação de pertencimento experimentada em relação ao lugar em que nasceu e/ou habita. Para o índio Kaiowá, contudo, tal sensação não se caracteriza como uma relação entre si e o lugar, um elo entre o homem e seu espaço, mas se constitui como a imanência do próprio ser. Melhor dizendo, o kaiowá e seu lugar são uma coisa só, há uma simbiose que nivela os homens aos animais, às plantas, às pedras, à terra. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que isso parece tornar insignificante a imagem do homem, tem-se sua imagem sublimada por uma outra dimensão: aquela proporcionada por uma comunhão plena entre todos os seres e elementos, a qual proporciona uma inestimável condição de completude e de invulnerabilidade. Os movimentos dos povos - que devastam e inventam fronteiras - levaram gentes, cidades e estradas para muito perto dos índios kaiowá da Reserva Indígena de Dourados-MS, encantuando-os. A partir de então eles passaram a perceber uma nova forma de relação de pertencimento do homem e seu lugar: a posse. O discurso indígena começa a transpor as próprias fronteiras para ressemantizar a noção de lugar, do que decorre a ressemantização da imagem de si mesmo.
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Mediações culturais entre o Paraguai e Mato Grosso do Sul: a mulher paraguaia no conto de Josefina Plá e de Hélio Serejo.
por Suely Mendonça
Resumo
Com a globalização, os conceitos de “regional” e “regionalismo” são reformulados pelos Estudos Culturais, descentralizando a cultura, ressaltando a diversidade cultural no mundo e reconstituindo as identidades nacionais, regionais e locais.Escosteguy ( Cartografias dos estudos culturais, 2001) analisa a identidade na América Latina, em destaque a América do Sul, abordando o hibridismo, o descentramento e a diáspora. Finalizando a guerra entre Brasil e o Paraguai (1870), imigrantes paraguaios, na maioria mulheres, deslocam-se de sua pátria para o antigo estado de Mato Grosso, hoje formado por Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Pelo viés dos Estudos Literários e pelo olhar descrentralizador dos Estudos Culturais, uma das mais acentuadas implicações da guerra entre dois países é o processo de sincretismo cultural que traz nova identidade às regiões onde um conflito bélico se desenvolve. Esta comunicação visa a resgatar as identidades nacional do Paraguai e regional sul-mato-grossense em La mano em la tierra, Jesus Menihno e Vaca retá (Cuentos completos,2000) da hispano-americana Josefina Plá, e Nhá Chamé (Contos Crioulos, 1998), do sul-mato-grossense Hélio Serejo, cotejando as representações da mulher no contexto paraguaio antes, durante e após a guerra, imigrando para o sul de Mato Grosso do Sul, no início de 1900.
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O projeto literário do escritor Lobivar Matos
por SUSYLENE DIAS DE ARAUJO
Resumo
Deslocar conceitos e deslizes da crítica, como os que fizeram de Lobivar Matos o poeta desconhecido, torna-se um ajuste de contas necessário para a Literatura produzida no Centro-Oeste do país no que diz respeito à limitação geográfica demarcada pelo cânone Modernista Brasileiro. Como aval deste acerto, o projeto literário de Lobivar Matos começa a ser reconstruído, já que rompendo limites, o conjunto da obra deixa de ser próprio para se tornar alheio. Elaborado entre Tessituras, Interações e Convergências, este trabalho pretende discutir questões relativas ao referido escritor e ao conjunto de sua obra, amparado pela tendência da critica literária voltada para a critica biográfica e aos estudos culturais, o que confirma a pertinência de uma nova categoria de articulação para o regional.
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