O MITO NA LITERATURA E EM OUTROS SISTEMAS SEMIÓTICOS CONTEMPORÂNEOS


Coordenadores
Profa. Dra. ELAINE CRISTINA PRADO DOS SANTOS (Mackenzie)
Profa. Dra. RAQUEL DE SOUSA RIBEIRO (USP)
Resumo: A criação mítica consiste em dar sentidos novos a mitos antigos, adquirindo forma e identidade em quase todas as manifestações artísticas, pois a utilização do mito, conforme Marcela Mortara in Teatro francês no século XX (1970, p.30), permite atingir dois objetivos artísticos: rejuvenescer uma forma e, transcendendo o tempo, ascender ao eterno. O mito, consoante Kirk, in El Mito, su significado y funciones en la Antiguedade y otras culturas (1970, p. 262-264),apresenta, basicamente, três tipos de funções: 1) especulativa e explanatória, 2) iterativa e validatória e 3) narrativa. Mitos, que tentam explicar ou oferecer uma solução para um problema complexo e que podem desafiar uma análise racional, exercem uma função especulativa. Tais mitos explicam ou especulam tanto mistérios profundos da existência humana quanto problemas metafísicos de uma elevada ordem. O dilúvio, por exemplo, é um mito especulativo, assim é o tratamento do mito pelos grandes trágicos gregos. Por outro lado, mitos que fornecem um estatuto para o legítimo direito de um objeto ou costume apresentam uma função iterativa, como o culto da árvore de Filêmon e Báucis (Ov. Met. VIII,724) ou a fundação lendária de Roma (Ov. Met. XIV ,772-804). Eliade, in Aspects du mythe (1963, p.18 e 32), define o mito uma narrativa que faz reviver uma realidade original e que responde a uma profunda necessidade religiosa, a aspirações morais, a constrangimentos e imperativos da ordem social e mesmo a exigências práticas. Ainda para Eliade, in Le sacré et le profane (1975), o homem moderno que se sente e se pretende a-religioso dispõe ainda de toda uma mitologia camuflada e de numerosos ritos degradados. Em suma, pretende-se, com este simpósio, demonstrar como o mito pode ser renovado, em uma recontextualização tanto na literatura quanto em outros sistemas semióticos contemporâneos, dando sentido à sua presença ainda hoje. "

Subtema: Literatura, dialogismo e intertextualidade

No contraste, o destacar do mito.
por Alexandre Huady Torres Guimarães
Resumo
O Auto de Mofina Mendes, de Gil Vicente, inicialmente concebido como Os mistérios da Virgem, aborda como tema principal a anunciação do Anjo Gabriel à Virgem Maria e o nascimento de Jesus Cristo, paralelamente ao cenário profano em que se destaca a segunda personagem feminina relevante do auto: Mofina Mendes. Por meio das posturas contrastantes das duas personagens, o dramaturgo português traz à tona a questão do exemplum, o qual serve como um elemento didático-catequético. O exemplum, recorrente na mentalidade medieval, esteve presente em diferentes formas artísticas, entre elas, a pintura. Neste caso, busca-se a pintura portuguesa intitulada Adoração dos Pastores, de Josefa de Óbidos, que dialoga com o auto vicentino. Assim sendo, pretende-se, por meio das personagens tanto do texto dramático quanto da pintura , discutir a formação do mito.
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Da Literatura ao Teatro: a Eterna Luta entre o Bem e o Mal nas Figuras do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde
por CARLOS EDUARDO BREFORE PINHEIRO
Resumo
Dentre as questões de ordem metafísica que acompanham a trajetória do homem ao longo da História, a luta maniqueísta entre o princípio do Bem e o princípio do Mal sempre motivou a criação artística, como uma temática de peso, envolvendo o ser humano numa luta eterna e titânica entre essas duas forças ou, em outro patamar, entre abnegação e desejo, entre medo e anseio, entre honestidade e corrupção, entre ordem e desordem. Sob este ponto de vista, a obra O médico e o monstro, de R. L. Stevenson, personifica esses dois princípios abstratos, Bem e Mal, em dois protagonistas que vivem um embate interior entre desejos e conseqüências: o doutor Jekyll e o senhor Hyde. Saindo das páginas da novela e ganhando os palcos do teatro, o musical Jekyll and Hyde, baseado na obra de Stevenson, dá um novo trato a essa luta mítica entre as duas forças antagônicas, revitalizando e reconstruindo a temática da novela em questão. Essa comunicação se propõe a analisar comparativamente as duas obras e verificar em que medida há uma continuidade do texto-fonte no intertexto e em que medida há uma estilização.
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A catábase: a descida aos Infernos, segundo a visão de Vergílio, de M.Camus e de V. Ward
por Elaine Cristina Prado dos Santos
Resumo
Segundo Chevalier (1994, p.505), na simboligia, o subterrâneo é o local das ricas jazidas, o lugar das metamorfoses, das passagens da morte à vida, da germinação. Houve, na antigüidade, grandes modelos de uma visão do Além: os cantos XI e XXI da Odisséia; os quatro mitos escatológicos de Platão ( o do Górgias, o do Fédon, o de Er no final da República e o de Fedro); entre os latinos, o Sonho de Cipião de Cícero. São numerosos os escritores latinos que se referem ao mito, oferecendo descrições variadas sobre a mansão dos mortos - o império de Plutão. Vergílio nos oferece a descrição mais completa do Inferno, apresentando a catábase de Orfeu, nas Geórgicas e consagrando todo o livro VI da Eneida à viagem de Enéias aos domínios de Putão. A proposta deste trabalho visa a apresentar a catábase de Orfeu e de Enéias, segundo Vergílio(I a. C.), em uma linha comparativa, com os filmes Orfeu Negro de Camus (1959) e Amor além da vida de Vincent Ward (1998) e verificar, a partir dessas leituras comparativas, como se estabelecem as relações dialógicas entre os universos: literatura clássica e cinema e como o mito pôde ser recontextualizado.
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A construção mítica nas narrativas poéticas
por Fani Tabak
Resumo
Este trabalho propõe a discussão da presença do mito em narrativas poéticas. Em se tratando de um gênero híbrido, amalgamado, basicamente construído a partir de uma perspectiva estrutural de um foco narcíseo, a presença do mito constitui uma ilusória e decisiva imposição da aspiração à perpetuação de uma eternidade dentro da própria noção de subjetividade. O mito estrutura a subjetividade enquanto possibilidade transcendente à história, acentuando a necessidade de uma busca ontológica presa ao sonho de totalidade.
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O discurso mítico na modernidade: uma leitura de "Panamérica"
por Gabriel da Cunha Pereira
Resumo
Pretende-se pensar de que maneira a epopéia Panamérica, de José Agrippino de Paula, faz, através do mito, uma releitura da modernidade, levando-a ora para o palca, ora ao picadeiro e encenando-a como espetáculo. Propõe-se, desde já, algumas questões que tentarão ser respondidas ao longo da análise: é possível propor uma epopéia moderna? Ou melhor: será que a cultura moderna pode ser apreendida neste formato? Será a proposta de Panamérica (caso ela tenha alguma) apresentar, um retrato ou uma caricatura da cultura moderna, com seus heróis e mitos? Para tentar responder a essas e algumas outras questões, utilizar-se-á, como corpus teórico, o livro Mitologias de Barthes;Impressões de viagem: CPC vanguarda e desbunde, de Heloísa Buarque de Hollanda; Poética do pós-modernismo de Linda Hutcheon; e os Ensaios de Literatura de Lukács.
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Símbolos e mitos norte americanos usados no romance BRAZIL-MARU, de Karen Tei Yamashita, relacionados aos imigrantes Japoneses no Brasil"
por Gloria Delbim
Resumo
O objetivo do presente trabalho é analisar algumas passagens do romance Brazil-Maru, da autora nipo-americana Karen Tei Yamashita, e a partir dessa análise, mostrar como alguns símbolos e mitos da sociedade norte-americana são usados e refletidos na construção de identidades de suas personagens no Brasil. Para este estudo e discussão sobre a triangulação entre Japão, Estados Unidos e Brasil, serão consideradas referências teóricas desenvolvidas por James Oliver Robertson, Avtar Brah e Stuart Hall, entre outros.
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Mito e tragédia em Yerma de García Lorca
por Irley Machado
Resumo
O objetivo do presente artigo é analisar a ligação que a obra Yerma, de Federico García Lorca, estabelece com os mitos da Grande Mãe, bem como com o mito de Dionísio. Na dramaturgia poética de Lorca os seres são passionais e o sofrimento que experimentam é apenas o resultado de desejos em que a vida se manifesta e a paixão se torna fatalidade. Nesta obra há toda uma aproximação às tragédias de Eurípides, sobretudo com Medéia e As Bacantes. Seus personagens assumem, com a mesma força cega, as ações que a eles são predestinadas e que modelam e destroem suas vidas. Lorca, no último ato de Yerma, através de um ritual pagão de extrema força e beleza, recupera e revive elementos trágicos e mitológicos presentes no teatro grego, em que os seres se deixam impregnar por uma atmosfera sagrada. Todo ato ritual segundo Eliade (Aspects du Mythe) reatualiza e rememora , através dos canto e da dança, os acontecimentos míticos essenciais. O poeta ao refletir seu sentimento religioso, místico e pagão, possibilita inúmeras interpretações a sua obra. O aspecto poético e as idéias estéticas de seu teatro nos revelam um mundo mágico e mítico que vem sendo pesquisado a partir dos estudos iniciados por Marie Lafranque, Charles Aubrun, André Belamich, Guillermo Díaz-Plaja, Claude Leibenson, Christoph Eich, entre outros.
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A imagem da mulher na pintura européia: interface com a mitologia
por Isabel Orestes Silveira
Resumo
Esta reflexão pretende discutir como a definição de feminino foi sendo construída enquanto imagem ou objeto de apreciação para o observador masculino através das pinturas européias em interface com o mito de Vénus e de Pigmaleão e Galatéia, presentes nas seguintes obras literárias: Afrodite - a Odisséia (VIII) e a Ilíada (II) de Homero; Teogonia de Hesíodo (119 e ss.); Vênus - De Rerum Natura ( I ) de Lucrécio e ainda: Vênus e Adônis, e Pigmaleão, e Galatéia nas Metamorfoses (X), de Ovídio. Os mitos foram ocupando um papel determinante na construção do imaginário coletivo e as diferentes adaptações e recriações da imagem da mulher como protótipo da representação visual da sensualidade possibilitam novas traduções quando os atualizamos à luz das artes visuais. Como objeto de análise apontamos para as pinturas de Botticelli (1483); Boucher (1754); Cabanel (1863); Bouguereau (1879);) e Carl Frieseke (1913); que contemplam o mito de Vénus. Nas pinturas de Jean-Léon Gérôme (1890) e Salvador Dali (1952) destacaremos a presença do mito de Pigmaleão e Galatéia. Através da leitura dessas obras pretendemos promover o debate crítico sobre as relações de gênero e estender o diálogo à dimensão cultural da sociedade brasileira.
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Mulher-feiticeira, o duplo e outros mitos em Eu, Tituba, feiticeira... Negra de Salem, de Maryse Condé
por Lilian Cristina Corrêa
Resumo
A imagem da mulher como feiticeira parece estar presente há muito na história da humanidade, como se tal imagem representasse seu duplo: de conhecedora de segredos da natureza a entidade demoníaca, tal figura feminina sempre sofreu conseqüências por ser “diferente”, por ameaçar as esferas do ser, do poder e do saber e, acima de tudo, por intimidar ou questionar o ponto de vista religioso. O presente trabalho propõe apresentar tais questões através da personagem Tituba , protagonista do romance Eu, Tituba, Feiticeira... Negra de Salem, de Maryse Condé, e suas relações não somente com a imagem da feiticeira, mas também com suas possíveis releituras intertextuais com figuras mitológicas.
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Ecos do mito de Lilith em “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë
por Marcos Stulzer de Almeida
Resumo
O mito de Lilith, primeira mulher de Adão, ressurge intertextualmente no romance “Jane Eyre”, da inglesa Charlotte Brontë, especialmente na personagem Bertha Mason. As duas narrativas expõem a inferiorização do feminino no contexto patriarcal. A rebeldia de Lilith e Bertha constituem infração à ordem instituída, o que acarreta punição para ambas: à primeira, expulsão do paraíso e extermínio de seus filhos, tidos com os demônios nas charnecas desertas do mar arábico; à segunda, enlouquecimento emorte. A postura agressiva, sempre noturna, assumida por ambas em resposta à repressão sexual e cultural que lhes é imposta, ou seja, a sua “demonização” demonstra que o desequilíbrio entre poder masculino e poder feminino trará sempre alto custo para o lado dominador, qualquer que seja este, pois a vida se harmoniza entre opostos, tais como dia e noite, obscuridade e luz.
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Romantismo: o mito do amor impossível
por Maria de Lourdes da Conceição Cunha
Resumo
Diversos mitos dão o amor como impedido e irrealizado, transformando-se em histórias de amores suicidas ou destinados a um desfecho trágico. Orfeu e Eurídice, Cêix e Alcione, Píramo e Tisbe são símbolos do amor incompreendido e levado ao extremo da existência. Na literatura romântica brasileira e portuguesa, muitos autores escolheram o amor e seus conflitos como assunto primordial de seus romances, levando em conta principalmente que a sociedade do século XIX moldava-se na proposta patriarcal, a qual estabelecia o casamento como a base da constituição familiar. Para se defender a instituição da família, a maioria das vezes os casamentos eram conduzidos não pelo amor, mas pelos interesses sociais e familiares, sendo a mulher obrigada a aceitar um relacionamento com o homem que lhe fosse determinado pela autoridade paterna.. Assim, os verdadeiros amores tornavam-se inviáveis como é o caso de Isabel e Álvaro, em O Guarani de José de Alencar, que são impossibilitados de viverem o amor descoberto tardiamente, sendo a morte a única forma de união dos dois apaixonados. Em Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, o afeto de Simão por Teresa, e vice-versa, é genuíno, natural, descoberto quando ambos ainda eram bem jovens e buscavam a liberdade do sentimento amoroso, mas impedido pelos interesses familiares e sociais. Buscando a felicidade plena, heróis e heroínas românticos chegam a lutar contra as exigências impostas pela moral burguesa do casamento vinculado a algum tipo de interesse. Porém esse duelo exige força sobre humana frente às provações que são impostas aos pares amorosos e, muitas vezes, a união de duas almas gêmeas só é possível por meio da morte, um fim possibilitador de um recomeço: a morte, início de uma nova vida sem conflitos terrenos.
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O Homem Duplicado de José Saramago: o duplo em questão.
por Nefatalin Gonçalves Neto
Resumo
A proposta deste estudo visa estabelecer, na esteira do topos do Duplo, o resgate do Mito d' O Anfitrião retomada pelo escritor português José Saramago em seu romance O Homem Duplicado , romance que em sua adoção na narrativa do ponto de vista do outro abre várias portas de recepção ao leitor interessado em interpretá-lo. A temática do Duplo, central no desenvolvimento da História da Literatura, está sempre se atualizando por meio de escritores que buscam neste topos base para revelar uma outra face da relação eu/outro (ou, se preferir, ego/alter ego), uma busca de, através da escrita reconhecer o outro na sua especificidade insuspeitada, por meio dos diversos pontos de vista que o gênero romance possibilita. Essa busca que ora realizamos pela questão da identidade/alteridade inserida no topos do duplo acabou por encontrar-se com o projeto plautino de recontar literariamente a vida social-religiosa de uma Roma decadente. Ora, de acordo com Bakhtin, a linguagem é um organismo em que se cruzam as interações do intertexto e do contexto, ela "vive apenas na comunicação dialógica daqueles que a usam" (Bakhtin, 1981, p. 158), uma vez que a enunciação constrói o seu sentido ao apreender a linguagem em funcionamento. Deste enfoque decorre o entendimento de que todo discurso é dialógico, pois sujeito da enunciação se constitui a partir de um contexto cultural que lhe forma e que ele o atualiza no seu discurso. Nesta perspectiva, um texto para se constituir como tal precisa se amparar em outros escritos para com eles dialogar e se erigir enquanto forma literária. Essa atitude fomos buscar no romance contemporâneo O Homem Duplicado , que aborda a mesma questão a partir do momento que toma a idéia de duplicação das personagens da peça O Anfitrião do escritor latino Plauto para com ela interagir.
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As Úrsulas e o mito grego de Tântalo
por Sílvia Cristina Cópia Carrilho Silva Martins
Resumo
Já que "a criação mítica consiste em dar sentidos novos a mitos", e " a partir de um cunho comparatista estabelecido entre o mito na obra literária e em outros sistemas semióticos contemporâneos e de uma leitura dos mitos materializados em diferentes linguagens", as autoras apresentarão um caso clínico, mais especificamente o de uma paciente, cujo nome fictício será Úrsula; aliás, este nome fará referência a uma das personagens da novela do escritor colombiano Gabriel García Marquez, "Cem Anos de Solidão", também objeto de estudo do artigo. Assim, junto à discussão dos conceitos de sina e destino, utilizaremos o mito grego de Tântalo e de seus descendentes, pois nele encontraremos indícios tanto na linguagem clínica, quanto na literária supracitada de esse mito estar ligado a uma certa "sina", que sobredeteminará que os seus integrantes sejam portadores de fatalidade, além de como se constrói e se transmite um estatuto mítico familiar por meio das gerações.

Co-autor: NORA ROSA RABINOVICH
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Lavoura Arcaica: pletora de mitos
por WAGNER MARTINS MADEIRA
Resumo
A interpretação do romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, revela uma exuberância de mitos. Desde os mais primitivos, associados à sexualidade, que povoam a história humana: ameaça de castração, cena primária, perversão polimorfa, interdição do incesto, assassinato do pai da horda primitiva, etc., passando pela tradição mediterrânea de um eterno retorno, do ciclo fechado terra, trigo, mesa, família, terra, até desembocar em questões religiosas paradigmáticas, como a paródia à parábola bíblica da volta do filho pródigo.
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A Caverna e o mito adâmico
por Raquel Sousa Ribeiro
Resumo
O oleiro Cipriano Algor, personagem da obra de José Saramago, vive da fabricação e fornecimento de utensílos de barro ao Centro Comercial que, a certa altura, deixa de comprá-los, alegando preferência do consumidor pelos de plástico. Com o auxílio de sua filha, Marta, e de seu genro, Marçal, Algor dedica-se à fabricação de estatuetas de barro, na tentativa de continuar no mercado. O tratamento dado pelo autor à criação destes "seres" de barro remete o leitor à criação de Adão (entre outros mitos de origem como Prometeu e Golem), também modelado no barro, por Deus, segundo a Bíblia. Surge, assim, este "novo homem" como uma espécie de mito de origem ou de renovação na vida da personagem e na sua tentativa de sintonizar e ser aceito por este mundo, representado pelo Centro, predominantemente tecnológico. Por outro lado, na medida em que se assemelha e difere do cânone, apresenta-se como seu duplo. Pretendemos, em nossa comunicação, examinar essa relação com base no dialogismo bakhtiniano.

O mito de Helena em Homero: a abertura figurativa
por Rodrigo Marques de Oliveira
Resumo
A multifacetada figura de Helena na Ilíada de Homero nãosó inaugura as representações do caráterambíguo da personagem na tradiçãoliteráriaocidental, mastambém garante ao poema do grande aedo gregoengendrardiferentes e contrastantes retratações da espartana. Oravítima das pelejas, ora causadora da discórdia, ora confinada ao espaçofeminino, oracentro das atenções masculinas, ora inocentada pelas outras personagens, oramatéria de suaprópria admoestação, Helena é compostapordiferentesparadoxosque se reiteram a cadacenaou a cadamenção de seunome no cerzirtextualhomérico. Justamentepelaanálise desse jogo antitético que procuramos defender, neste artigo, a existência de várias Helenas na Ilíada que, concomitantemente, criam, desautorizam e recriam a suafigura.