LITERATURA, LEITURA E CRISTIANISMO: INTERFACES DE UMA RELAÇÃO


Coordenadores
Prof. Dr. JOÃO CESÁRIO LEONEL FERREIRA (Mackenzie)
Prof. Dr. GLADIR DA SILVA CABRAL (UNESUL)
Resumo: Seguindo a temática geral do Congresso: Tessituras, interações e convergências, o simpósio propõe como tema: "Literatura, leitura e cristianismo: interfaces de uma relação", buscando estudar as interações entre literatura e cristianismo, no contexto mundial e brasileiro, reconhecendo que ambos têm desenvolvido, no desenrolar da história do Ocidente, um relacionamento próximo. Procura-se identificar, por um lado, como o cristianismo influenciou a literatura e, de outro, como a literatura trouxe inspiração ao cristianismo, criando novos caminhos para sua reflexão e práxis. Como decorrência, dá-se atenção também à história da leitura cristã, de modo particular ao modo como os cristãos de todos os matizes desenvolveram protocolos de leitura, indagando se houve e quais foram as influências da literatura mundial nas práticas de leitura cristã. Além das convergências entre literatura, leitura e cristianismo, o simpósio também estará aberto para estudos que enfoquem as tensões existentes entre eles. "

Subtema: Literatura, dialogismo e intertextualidade

A representação do paraíso e do inferno na meditação religiosa de Max Jacob
por Adalberto Luis Vicente
Resumo
Max Jacob, ao lado de Apollinaire e Reverdy, é um dos mais importantes representantes do cubismo literário na França. Poeta, romancista e pintor de origem judaica, a obra polimórfica de Jacob constitui um desafio para o crítico preocupado em apreender sua unidade. Um fato inusitado ocorrido em 1909, a conversão súbita ao catolicismo depois de uma visão, afastou o poeta da vida boêmia de Montmartre e fê-lo refugiar-se junto à antiga abadia de Saint-Benoît-sur-Loire onde passou a levar uma vida de recolhimento e devoção, até que em 1945 é preso pelos nazistas e morre a caminho do campo de concentração de Drancy. Sobretudo depois da conversão, a obra de Jacob é profundamente marcada pela religiosidade que nele se configura de uma maneira muito particular. Até seus últimos dias, escrevia diariamente uma meditação religiosa que, quase sempre, enviava a um amigo. Nosso objetivo neste trabalho é o estudo do tema do paraíso e do inferno nas Méditations, textos em que o diálogo intertextual com São Francisco de Sales, com a Imitação de Cristo e com as cartas paulinas é freqüente. Além disso, pretendemos mostrar que, por meio dos temas apontados, Jacob continua sendo poeta em sua recriação desse gênero de literatura religiosa e que tais textos, reveladores do drama religioso de seu autor, longe de serem, como querem alguns críticos, uma extravagância dentro de sua obra, são coerentes com o projeto literário de Jacob.
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Entre o real e o imaginário: a literatura e o puritanismo de Nathaniel Hawthorne
por Breno Martins Campos
Resumo
Em diálogo com Jorge Luis Borges e Italo Calvino, esta comunicação discute a contaminação da literatura de Nathaniel Hawthorne pelo puritanismo protestante (tomado aqui como ética, um modo de ser e viver sob o prisma da fé religiosa, não apenas como fuga dos prazeres sexuais). Nascido em Salem, descendente de puritanos ingleses que vieram "fazer a América", Hawthorne fez de sua literatura um caminho para expurgar a herança religiosa recebida de seus ancestrais, dentre eles, um caçador de bruxas. Sua libertação foi alcançada apenas no limite do possível: mais difícil do que sair do imaginário puritano era tirá-lo de dentro de si. A busca por uma moralidade (o desejo puritano) a cada fantasia revela uma luta tensa entre imaginário e real em Hawthorne. Literariamente descendente de John Bunyan, Hawthorne escreveu alegorias com certo fundo moral e religioso. Colocou a literatura a serviço de sua cosmovisão religiosa. O objetivo principal desta comunicação é o de demonstrar a contaminação puritana na literatura de Hawthorne (em alguns de seus contos e no romance A letra escarlate). Contaminação que não o impediu de ser um dos maiores autores da literatura estadunidense.
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"Salve-rainha à virgem santíssima": intertextualidade como ferramenta de reforço ao panegírico gregoriano.
por Cláudio Augusto Carvalho Moura
Resumo
O presente trabalho parte da observação de uma relação dialógica entre o panegírico Salve-Rainha à virgem santíssima, de autoria de Gregório de Mattos e a oração da Salve-Rainha, que se encontra presente em sua completude nos versos finais de cada estrofe do poema. O que se pretende analisar nesse trabalho é a extensão da amplificatio- aqui chamada de reforço- recorrente da presença da oração de estimado valor entre os católicos em um poema de cunho também religioso. Tomar-se-á por base a noção contemporânea de intertextualidade de Kristeva, visto que o diálogo estabelecido não se limitará apenas às relações mantidas entre as duas obras citadas, mas remeterá diretamente às escrituras sagradas, hipotexto das poéticas coevas e base da ideologia cristã do século XVII. Tal relação não seria contemplada se o mesmo fosse analisado apenas como um exercício de emulatio, pois deixariam de ser observados aspectos sócio-culturais diretamente ligados à influência exercida pela doutrina católica apostólica romana na em todos os campos da vida do homem dos seiscentos, aspectos esses, importantes para a compreensão da dialética estabelecida entre poema e oração.
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Literatura e protestantismo: influências da literatura ensaística no Diário de um missionário norte-americano no Brasil
por João Cesário Leonel Ferreira
Resumo
Esta comunicação, sob o tema do simpósio: Literatura, leitura e protestantismo: interfaces de uma relação, estuda de modo particularizado como a leitura do livro Essays by a Series of Letters, do escritor inglês John Foster, publicado originalmente no início do século XIX, influenciou os apontamentos no Diário do missionário norte-americano Ashbel Green Simonton, fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil, em meados dos século XIX. Tal influência se deu não apenas na seleção de fatos para registro, mas também na forma como eles foram anotados. Portanto, a comunicação pretende indicar como um texto, o Diário, de cunho essencialmente religioso, é tributário em sua forma e conteúdo às influências da literatura.
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A constituição de Deus da obra hilstiana
por Kamilla Kristina Sousa França Coelho
Resumo
Este trabalho se propõe a estudar as imagens da religiosidade na poesia de Hilda Hilst (1930-2004). Valendo-nos, para isso, de relações com os dogmas e crenças da religião judaico-cristã e de diversos estudos sobre a obra hilstiana, abordaremos poemas de Hilda Hilst que possuem como tema a busca de Deus, e o anseio da autora por entender a figura divina, características que fundamentam, especificamente, a obra Poemas malditos, gozosos e devotos. Desse modo, seremos capazes de concluir que o tratamento que Hilda direciona a Deus, a maneira como o nomeia, é o que faz da poeta uma autora inovadora. Porém, ainda que a autora busque essa irreverência, Hilda Hilst realiza questionamentos comuns a todo ser humano, como a relação entre Deus e homem, a efemeridade do tempo e a solidão em que nos encontramos neste mundo, almejando, assim, uma identificação com o leitor. A escolha do tema “religiosidade” é justificada por ser ainda pouco estudado no meio acadêmico, mas principalmente por ser um campo surpreendente dentro de sua obra.
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Sermões vieirianos: uma ferramenta teológico-cristã
por Kellen Dias de Barros
Resumo
O século XVII, em países e colônias ibéricas, foi marcado pelo poder da Igreja Católica, que mantinha um rígido controle sobre as pessoas e instituições, sempre alegando que o fazia em nome de uma força maior: Deus. A obra de Antonio Vieira, orador seiscentista, não pode ser analisada sem levarmos em conta esse contexto de criação. Imbuído em sua missão de porta-voz divino, Vieira elaborava seus sermões ricamente adornados por uma série de recursos retóricos e, especialmente, motivados pelos preceitos cristãos – fim primeiro e último de sua sermonística. Uma análise minuciosa da obra do jesuíta nos permite perceber que para além da máquina de conversão, no que concerne ao poder persuasivo do discurso, havia uma teologia bem fundamentada e claramente defendida por Vieira. Seguindo especialmente guias como Agostinho e Tomás de Aquino, o sermonista sustentava e elaborava conceitos teológicos complexos como, por exemplo, o de eu-não-eu – uma figuração do sujeito como súdito, mera ferramenta dos desígnios divinos, apesar de dotado de livre-arbítrio. No presente trabalho, investigaremos o conceito teológico de eu-não-eu apresentado por Vieira em seus sermões, destacando a permanência de um pensamento medievalista ainda no século XVII ibérico.
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O intertexto Bíblico em Paraíso, de Toni Morrison
por Luciana Duenha Dimitrov
Resumo
Em Paraíso, publicado em 1998, a consagrada escritora Toni Morrison delineia um romance completamente entrelaçado com a linguagem bíblica e com os costumes religiosos que permearam a sociedade negra interiorana norte-americana entre a década de 20 e meados da década de 80. Partindo da leitura crítica e analítica do romance, intertextual desde seu título, comprova-se a afirmativa de Mikhail Bakhtin que estabelece que a linguagem literária “(...) se torna plurilíngüe tratando-se não de uma linguagem, mas de um diálogo de linguagens”. Assim sendo, alicerçado em questões religiosas que variam desde citações bíblicas até regras de condutas intrinsecamente ligadas ao clero, o sétimo romance da ganhadora do prêmio Nobel se torna uma obra de intensa reflexão sobre aquela realidade que descreve, fruto da pulsante influência da religião sem sua formação.
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A trajetória de Paulo Simões e seu diálogo com narrativas bíblicas - um estudo do romance "Pessach: a travessia", de Carlos Heitor Cony
por Marina Silva Ruivo
Resumo
Paulo Simões, o protagonista de Pessach: a travessia, romance publicado em 1967 por Carlos Heitor Cony, a certa altura de sua narração afirma haver caído em uma “seqüência de acasos e equívocos” que o teria levado a se envolver com um grupo que preparava a luta armada contra a ditadura militar. De escritor que se mantinha afastado, em sua vida e sua obra, das questões políticas, ele fora parar justamente no seio de um movimento guerrilheiro, sem conseguir compreender direito como e por quê. Contudo, apesar de certa estranheza que se pode sentir à primeira leitura, logo se percebe que os “acasos e equívocos” não dão conta de explicar seu percurso, o qual guarda muito pouco de casualidade. Ao contrário, é estruturado de forma coesa, o que se dá principalmente por intermédio do diálogo que trava com a narrativa bíblica do Êxodo, que confere unidade ao romance como um todo. Esta comunicação pretende abordar elementos dessa relação com o Êxodo – manifesta desde o título do romance, e que nele se entrecruza com imagens da Paixão de Cristo –, a fim de deslindar como a trajetória de Paulo é organizada no texto, com sua coerência apenas travestida de acasos e equívocos.
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RITUAL E SIMBOLOGIA NO LIVRO I DO TOMBO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA BAHIA
por Marla Oliveira Andrade
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Tendo início na cultura dos povos pagãos os ritos sobreviveram durante os séculos e foram sendo passados e adaptados ao longo do tempo, revestidos pelo cristianismo, podendo ainda ser observados em boa parte da literatura atual. Os rituais, verdadeiras fórmulas “mágicas”, são uma seqüência ordenada de gestos, sons e presença de objetos sagrados. Um desses rituais pode ser observado no Livro I do Tombo do Mosteiro de São Bento da Bahia, um manuscrito raro e importante para a construção da História do Brasil e para a compreensão da cultura e simbologia populares registrados nesse documento. Esse manuscrito contém cartas, escrituras, doações de terras entre outros, e nele está registrado o ritual composto por palavras, gestos e comportamentos essenciais para que a transação fosse concluída, além de elementos fundamentais como o cajueiro, o curral e a cruz. Desenha-se nesse documento um prospecto da formação da Cidade de Salvador e dos costumes antigos que sobreviveram ao decorrer dos anos. Este trabalho que ora se apresenta, constitui-se de uma leitura e percepção da presença dos símbolos e rituais utilizados na antiguidade e incorporados pelo cristianismo em atos, hoje, somente burocráticos como a venda, doação da terra.
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O olhar ex-cêntrico da História: A mulher que escreveu a Bíblia de Moacyr Scliar
por Rafaella Berto Pucca
Resumo
O objetivo deste trabalho é analisar o romance A mulher que escreveu a Bíblia de Moacyr Scliar a partir da perspectiva de revisão histórica pretendida pela obra, recontando sob uma outra visão (o olhar feminino) episódios de um texto canônico: A Sagrada Escritura. Para tanto, focalizaremos a análise no olhar da narradora/protagonista, o olhar ex-cêntrico (o das margens, fora dos centros produtores de sentido), tentando mostrar queao dar a voz a uma mulher para narrar a trajetória da humanidade, pautando-sena versão bíblica, o escritor gaúcho nos mostra que a posição do discurso é uma questão de perspectiva e não um dado natural e, ao propor tal inversão, de um discurso tipicamente patriarcal para o olhar feminino, o autor apresenta uma reflexão sobre como tem sido composta a nossa História (ou nossa historiografia) de maneira excludente e unilateral.
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Literatura, teologia e ciência no século XVII italiano: Francesco Redi
por Sergio Mauro
Resumo
Pretende-se examinar aconfluência das idéias científicas, sobretudo as de Galileu e dos naturalistasda Toscana, na literatura italiana do século XVII. Para tanto, serão analisadosos escritos de Francesco Redi, médico e naturalista famoso da Corte dos Médici, nascido em Arezzo em 18de fevereiro de 1626 e morto em Pisa em 01 de março de 1698, autor de notáveislivros em que refuta teorias aristotélicas ainda em vigor sobre a geraçãoespontânea dos insetos e, de fundamental importância para a presentecomunicação, poeta refinado que cantou o amor ao vinho e o elogio dos prazeresmundanos no poema “Bacco in Toscana”, em 1685, famosoditirambo em que se faz a louvação das virtudes do Vino Nobile de Montepulciano,um dos mais conhecidos vinhos da Toscana.
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Entre o sagrado e o profano: a imago mundi n'A Relíquia
por Ubiracy Alberto Macieira Cintra
Resumo
Pretendemos examinar, nesta comunicação, a passagem em que Raposão, protagonista d'A Relíquia, sonha com o julgamento e condenação de Cristo. É neste momento que a personagem transita do espaço profano para o sagrado em como encontra a fé cristã. Considerando que a Bíblia trata deste assunto, estudaremos o tratamento dado por ela às referidas passagens, e, em seguida, detectaremos os elementos de que Eça de Queirós se apropria bem como os que recria, remetendo sempre ao propósito maior de cada obra.
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