| LITERATURA E EROTISMO/ERÓTICA LITERÁRIA NA AMÉRICA LATINA |
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Coordenadores Profa. Dra. ELIANE ROBERT DE MORAES (PUC-SP) Profa. Dra. LAURA JANINA HOSIASSON (USP) |
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Resumo: A proposta, nesta ocasião, é convocar
tanto os estudos mais propriamente voltados para problemas específicos de
uma erótica literária, como as análises que privilegiam diálogos mais esporádicos,
porém não menos significativos da literatura com o erotismo. De Platão a
Freud, o erotismo tem sido concebido como a capacidade humana de prolongar
a intensidade do desejo por meio da imaginação. Vertigem, excesso, desmedida
- não importa o nome que se dê a tal capacidade - trata-se sempre de multiplicar
as imagens da volúpia carnal, submetendo-as a um jogo de espelhos que transformam,
deformam ou ampliam tudo o que neles se reflete. Daí a afinidade profunda
com a literatura: não há erotismo sem fantasia. A erótica literária, embora
não seja um gênero, se constitui como uma tradução privilegiada desse excesso,
na qual se pode reconhecer uma vigorosa tradição, consolidada no Ocidente
quase sempre por meios clandestinos. Propõe-se, neste simpósio, a abordagem
de temas, obras e autores latino-americanos que gravitam em torno ao sexo,
na tentativa de colocá-los em diálogo. " Subtema: Literatura, dialogismo e intertextualidade |

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| “Presença de Anita”: uma erotização do espaço por Ana Carolina Sanches Borges |
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Resumo Presença de Anita, de Mário Donato, é um romance ousado e erótico. Pelo teor erótico, escandalizou a sociedade da época no ano de seu lançamento (1948). Mesmo sendo uma obra chocante para os padrões vigentes, obteve um sucesso tão grande que, em 1951, fez-se um filme (do diretor Ruggero Jacobbi). Também Manoel Carlos, autor de novelas, lançou sua versão em forma de minissérie no ano de 2001. A presente comunicação visa investigar as relações existentes entre erotismo e a construção do espaço em Presença de Anita (2001) para ressaltar a importância do espaço erótico na estruturação desse romance. Os autores que abordam a questão do erotismo como George Bataille em O erotismo (1957) e Michel Foucault, com a História da sexualidade (1988) analisam-n o somente em relação à categoria narrativa da personagem, excluindo a análise do espaço. Os estudiosos do espaço, por sua vez, não abordam o erotismo. É o caso de Gaston Bachelard em A poética do espaço (1989) e Iuri Lotman em A estrutura do texto artístico (1978) . Nesta comunicação, erotismo e espaço serão estudados por meio do exame das obras citadas acima, e também por meio de autores como Osman Lins (1976); Ozíris Borges (2007) e outros. |
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| Conquistador amoral: Don Juan, precursor do libertino por André Luiz Barros da Silva |
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Resumo Analisaremos o personagem Don Juan, surgido na peça El burlador de Sevilla, em 1616, como ancestral do “libertino” que, no século XVIII, protagonizará o roman du libertinage francês. Altivez aristocrática, ímpeto de conquistador e mestria nas intrigas de corte fazem dele um antecedente do Versac de Égarements du cœur et de l’esprit (Crébillon, 1736), do Valmont, de Liaisons dangereuses (Laclos, 1782), ou dos libertinos de Sade. Examinaremos como a versão de Molière (1665), polêmica à época, translada-o para a França. O personagem fascinará vários autores, de Casanova e Da Ponte, libretista do Don Giovanni de Mozart, a Byron e Kierkegaard. Investigaremos as ambigüidades a torná-lo riquíssimo como arquétipo da nobreza jovem pautada por impulsos baixos (sexualidade), antagônica quanto ao transcendentalismo eclesiástico e à nova racionalidade das Luzes, que se anuncia. Entre as contradições do Don Juan, adiante-se que um precursor da crueldade sadeana foi também ancestral do cerebralismo burguês, exercido mesmo em questões eróticas e amorosas. Por fim, examinaremos o que parece ser uma inversão do don-juanismo: o romance Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez, em que um idoso em busca de sexo encontra o vazio do afeto. |
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| Sade em Piva por Clara Carnicero de Castro |
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Resumo “Não se é criminoso por fazer a pintura das bizarras inclinações que a natureza inspira”, disse Sade. “Pelos muitos caminhos por onde meu coração me arrasta, não pode ser que eu não encontre uma verdade”, disse Artaud, em palavras que Roberto Piva reproduziu nas paredes de seu quarto. Não é por acaso, portanto, que Sade – “o espírito mais livre que jamais existiu no mundo”, segundo Apollinaire e “um dos mais importantes surrealistas avant la lettre”, conforme Breton – é figura reverenciada na obra de Piva. Sustentando a tese fundamental de que o prazer tem um papel constituinte na estruturação do sujeito e de que não existe nenhuma grandeza moral no mundo capaz de elevar-se acima da simples percepção sensível, o marquês proporcionou aos surrealistas, e igualmente a Piva, argumentos que autorizavam o exercício pleno e “irresponsável” da liberdade: “contra as responsabilidades pelas sensações”, segundo o autor em Piazzas. Trata-se, para ambos de avalizar o completo desregramento das sensações. E tanto em Sade, como em Piva, é exatamente a transgressão dos limites por meio da experiência sensível que possibilita a descoberta da unidade profunda do homem, bem como a transcendência do espírito. |
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| A erótica literária no modernismo brasileiro por Eliane Robert Moraes |
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Resumo Embora a intenção obscena se faça presente desde os primórdios de nossa cultura escrita, a admissão explícita do erotismo como expressão literária só ganha evidência no Brasil a partir da Semana de 22. Já no prefácio a Macunaíma, Mário de Andrade atenta para o fato de que o país tem uma “pornografia desorganizada”, mas nem por isso menos rica do que a literatura erótica de outros povos: “se falam que três brasileiros estão juntos, estão falando porcaria... De fato”. Não surpreende que essa curiosidade tenha sido manifesta justamente no modernismo, já que o movimento reunia duas preocupações fundamentais para constituir a questão: de um lado, a conquista de um novo olhar para o Brasil que levasse em conta formas mais “rebaixadas” de cultura; de outro, a busca de sintonia com as vanguardas européias que, em grande parte, voltavam particular atenção para as expressões do erotismo. Munidos desse interesse, os modernistas se empenharam tanto na pesquisa de tal vertente como na criação de obras do gênero. O objetivo da comunicação é apresentar essa faceta pouco estudada do modernismo brasileiro, na tentativa de discutir suas principais linhas de força. |
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| Orifícios e secreções: a poética erótica de João Gilberto Noll por Fábio Figueiredo Camargo |
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Resumo Este artigo analisa trechos da obra de João Gilberto Noll e suas relações com a teorização sobre o erotismo proposta por Georges Bataille como algo da ordem de uma violência natural, tentativa de continuidade para o descontínuo, numa representação na qual o corpo (re) produz e é produto de uma escrita pulsional. |
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| "Sejamos pornográficos": o erotismo na poesia de Drummond por Ivan Marques |
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Resumo O livro "O amor natural" foi publicado em 1992, cinco anos após a morte de Carlos Drummond de Andrade. Apesar dos ventos trazidos pela "revolução sexual" das décadas de 60 e 70 -- e mesmo atribuindo valor à antiga tradição da poesia erótica --, o poeta não chegou a editar seus próprios versos fesceninos. Com isso, parece ter cedido à visão de que tais poemas seriam "marginais", contrariando os vôos da dita "alta poesia" e, neste caso particular, da altíssima poesia que o autor vinha publicando ao longo de décadas. Mas as questões ligadas ao corpo são centrais na obra drummondiana. Como diz o poeta, o amor é "palavra essencial". A proposta desta comunicação é abordar aspectos do erotismo em Drummond, mostrando conexões de "O amor natural" com os poemas publicados na década de 20 e 30, nos quais Mário de Andrade identificou, por trás do gauchismo, um "seqüestro sexual" (segundo ele, não sublimado em poesia). Já nessa fase inicial, a poesia erótica se combina com o poema-piada e o estilo mesclado e coloquial do modernismo, para configurar uma celebração da "vida besta" e terrena. "Sejamos pornográficos", convoca o poeta num verso famoso do livro "Brejo das almas". Em todas as suas fases, a melhor poesia drummondiana se faz com o corpo. |
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| Sexualidade e política em Jorge Edwards por LAURA JANINA HOSIASSON |
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Resumo O escritor chileno, Jorge Edwards, constrói um percurso narrativo dentro do qual o elemento erótico vai desempenhar papel fundamental no desvendar de uma realidade que se mostra dúbia, móvel, escorregadia. Através do exame de um grupo de narrativas curtas, publicadas dentro do volume, Fantasmas de carne y hueso de 1992, pretendemos relacionar esse expediente do erotismo com a configuração de personagens deslocadas de seus territórios físicos e políticos, à procura de sentidos na direção de um passado e de um presente sempre alienados. Os relatos se encaminham feito espirais, em espasmos que marcam um ritmo de vaivém, um entra-e-sai que oscila entre o orgasmo e o ‘néan’, para nunca chegar a lugar nenhum, ou melhor, para sempre voltar ao lugar de partida, onde os protagonistas se defrontam com a alienação -propria e alheia- e a desintegração de sentidos, numa escrita debitária de Joyce e de Borges entre outros, mas fortemente enraizada no diálogo com a história chilena recente. |
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| Álbum da Rapaziada: o humor obsceno de Francisco Moniz Barreto por Leônidas Pellegrini |
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Resumo Esta comunicação propõe um estudo a respeito do livro “Álbum da Rapaziada” (1864), do poeta baiano Francisco Moniz Barreto (1804 – 1868). Autor bastante desconhecido em nosso atual cânone romântico, Moniz Barreto acumula uma vasta produção em toda a variedade de gêneros poéticos de então, tendo sido bastante aclamado em seu tempo, sobretudo por seu talento improvisatório. Seu “Álbum da Rapaziada” reúne sua produção fescenina, e constitui obra ímpar do Romantismo brasileiro: possuindo um total de cinqüenta e nove composições, a maior parte improvisos, revela-se o maior registro deixado das produções obscenas de então, tendo sido pivô, também, do único caso de processo contra publicação pornográfica no século XIX. Seu “Álbum” constitui um rico registro dos costumes e da mentalidade de então, reunindo algumas das principais características da tradição fescenina e revelando marcas próprias da estética romântica. Deixou, ainda, influências que podem hoje ser lidas na lírica fescenina de Laurindo Rabelo, Moysés Sesyom, Bráulio Tavares, Glauco Mattoso, Leo Pinto e Marcos Satoru Kawanami. |
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| O homoerotismo nas obras "Sombra severa" e "Jaz mim" por LUCIANO FERREIRA DA SILVA |
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Resumo Esta comunicação tem por objetivo fazer uma leitura das obras "Sombra severa" de Raimundo Carrero e "Jaz mim" de Júlio Barbabella depreendendo das obras citadas as representações do que se poderia chamar de relações homoeróticas. Lembrando que as obras pretencem a uma concepção de construção literária alicerçada na homotextualidade. A primeira dialoga com o texto bíblico colocando dois personagens, um chamado de Abel e o outro de Judas, numa encruzilhada de desejos difusos e incompreendidos até um certo momento culminando na morte de um. A segunda obra traz um relato de uma personagem que está na UTI com AIDS que busca fazer um resgate da sua vida desde o início da descoberta de sua sexualidade até o seu atual estado. Relatadas em terceira pessoa e em primeira, as duas obras engendram reflexões e pontos de vista diferentes relacionados à idéias de sexualidades que podemos considerar como em trânsito. |
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| A erotização da natureza e a natureza erótica da poesia de hilda hilst e Paula Tavares. por MAILZA TOLEDO E SOUZA |
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Resumo Segundo a teoria ecofeminista, existem conexões históricas, simbólicas e teóricas entre a repressão e subordinação da mulher e a exploração da natureza. Assim, este estudo tem como proposta detectar nos textos de Hilda Hilst e Paula Tavares representações poéticas dessa interação entre mulher e natureza através da exploração da temática do erotismo. |
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| O erotismo e o Feminino por Marcia Cristina Xavier |
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Resumo O Conto O Corpo de Clarice Lispector e a Adaptação fílmica homônima de José Antonio Garcia, trabalham a questão do erotismo e suas implicações com o universo feminino (O corpo, O sagrado, O Profano). Sendo assim este trabalho tem como objetivo analisar estes signos textuais e visuais eróticos que diretamente interferem na caracterização das figuras femininas das respectivas obras. |
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| MANIFESTAÇÃO DO DESEJO E DA INQUIETAÇÃO DO CORPO: por Martanézia Rodrigues Paganini |
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Resumo A escritora Clarice Lispector colocou no centro de sua criação o problema da busca de uma linguagem nova e especial para traduzir a vida interior. A palavra nos textos de Clarice assume estatuto transgressor. Nos textos de Clarice reside um erotismo que vai muito “além do princípio do prazer”, no sentido freudiano, chega ao gozo, a fruição, como diria Barthes. Clarice imprime em seus textos a força de eros, uma força criadora que resulta em vida e ação, revelando uma tensão entre carência e excesso. Dentro desse horizonte de expectativas, pretende-se, nessa comunicação, analisar textos do livro A via crucis do corpo, coletânea de contos, publicada em 1974. Nessa obra, Clarice reúne catorze textos, na maioria dos quais a questão principal é a sexualidade. O corpo feminino é o grande personagem dos contos deste livro. Em A via crucis do corpo Clarice nos apresenta o corpo feminino diante das fantasias, manifestando desejos carnais, chegando a mundanos, num violento processo de busca de afirmação de identidade. |
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| Os galanteios homo-eróticos na ficção de João Gilberto Noll por PAULO CESAR SOUZA GARCIA |
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Resumo Sem dúvida, o erotismo constitui-se como marca de leitura na literatura ocidental e latino-americana. E o homo-erotismo se revela como lugar de enunciação em seus gestos e práticas investidos na legião livre da existência. Como um olhar que registra as vias urbanas, este mesmo olhar flagra os contatos homossexuais entre e com homens demarcados no disparate, tendo como medida as experiências on the road. Na perspectiva de George Bataille, o encontro homoerótico se projeta com o riso partilhado, as conversas, a amizade, o erotismo, o que espelha, assim, a aventurança sexual abrigada por intermédio do tempo dos instantes, convocando o prazer. Em nome da amizade erótica, o galanteio da conquista aciona outras parcerias sexuais masculinas e a narrativa de João Gilberto Noll visa a esse campo de visão. Através da escrita vertiginosamente fálica do autor gaúcho, pretendo refletir, neste simpósio, como as relações homoeróticas são construídas, engendrando formas de existência e dando visibilidade aos experimentos do homem com o seu corpo, com o sexo, aflorando a potência do masculino por outras fronteiras. |
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| Por uma estética da perversão por Ronnie Francisco Cardoso |
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Resumo Em Totem e Tabu, Freud relacionou as diferentes formas de neuroses às instituições culturais. Conforme observação do psicanalista, as neuroses apresentariam ponto de concordância notáveis e de longo alcance com a arte, a religião e a ciência. Contudo, ressalta que a neurose se aparenta com a caricatura dessas grandes instituições sociais. Assim, a neurose obsessiva seria a caricatura da religião, o delírio paranóico seria a caricatura de um sistema filosófico e a histeria seria a caricatura da obra de arte. Analogicamente, a partir dessa observação, consideremos a possibilidade de uma estética do sintoma no qual o fetiche perverso, representado através do discurso pornográfico na nossa delimitação preliminar, seria a caricatura da relação sexual. Isso nos leva ao limiar de uma investigação, na qual considero o campo da arte, e especificamente o espaço literário, como o lugar apropriado para se falar da perversão, já que através dele podemos não só nos deleitar com nossas próprias fantasias, sem auto-acusações ou vergonha, como também nos libertar ou tomar consciência das tensões recalcadas na nossa mente. Roberto Piva, vale destacar, sua obra é exemplar dessa estética da perversão no Brasil, sempre deixou evidente tanto em seus textos, quanto em entrevistas e depoimentos, que sua poesia se “constitui num verdadeiro ato sexual”, ou melhor, sua poesia se funda naquilo que ele mesmo considera “como a mais fascinaste Orgia ao alcance do Homem”. Parece-me que Piva e sua obra literária convocam a urgência de uma estética pensada a partir da perversão. Arregimentado historicamente pela clínica psiquiátrica, mas que, contudo, a antecede e a ultrapassa, a apropriação da noção de desvio sexual pela linguagem médica é resultado de um esforço que se inicia no século XIX. A perversão foi primeiro uma discussão moral que só teve interesse médico tardiamente e de forma indireta, já que não era uma matéria específica de uma clínica, mas uma classificação em relação ao desvio normativo, possibilitando a conseqüente sanção a ser imposta por instâncias legais. A medicina só passou a tratar do assunto a pedido dos magistrados. Doravante, o conhecimento clínico em relação à perversão permanecerá dependente e tributário dos dispositivos morais institucionalizados ao longo da história. Como o interesse de nossa discussão não é o aspecto clínico, mas o estético-literário, cabe lembrar que são dois escritores que vão fornecer material da sua criação literária para nomear dois atos desviantes. Sade e Masoch nos apresentam quadros de sintomas e de signos que se ligam ao nome próprio de cada um, designando duas perversões básicas que foram incorporadas aos manuais de psiquiatria. No entanto, as noções de masoquismo e sadismo foram demarcadas menos pelas considerações da vida íntima dos sujeitos que lhes emprestaram os nomes, e sim, principalmente, a partir das obras literárias que produziram, resultante talvez de uma possível satisfação estética da pulsão perversa, convertida em belle-lettre. Diante do próprio impasse que persiste no campo psicanalítico em relação a uma clínica da perversão, percebemos que esta traz um desafio para os discursos normativos. Roland Barthes, numa instigante percepção, ressaltou o poder daquele que se desvia da norma. O referido semiólogo destacou a perversão como uma figura invocável e uma via de intercessão, observando que: “a Lei, a Doxa, a Ciência não querem compreender que a perversão, simplesmente, faz feliz; ou, para ser mais preciso, ela produz um mais: sou mais sensível, mais perceptivo, mais loquaz, mais divertido, etc. — e, nesse mais, vem alojar-se a diferença (e, portanto, o Texto da vida, a vida como texto).” |
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| O meta-discurso em Lori Lamby: por que não se deve olhar para as estrelas. por Tatiana Franca |
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Resumo O caderno rosa de Lori Lamby(2005)é um livro obsceno. A história, escrita em forma de diário, é o relato de uma criança de oito anos aliciada sexualmente pelos pais. Mas o que pode chocar de fato o leitor é o tom pueril dado ao testemunho porque Lori admite gozar o sexo e não vê absolutamente nenhum mal nisso. Além do mais, a garotinha justifica sua prostituição afirmando ser esse o meio possibilitador de suas realizações mais imediatas, como o desejo de possuir um quarto todo decorado de cor-de-rosa ou ter dinheiro, simplesmente. E ela admite gostar do dinheiro. Para além do ato sexual em si, a obscenidade do livro é o tom natural dado por Lori ao seu relato. Contudo, se reconhecemos no livro seu potencial pornográfico, devemos ser cautelosos para não nos iludirmos com um engodo. O caderno rosa é obsceno somente na medida em que cria um jogo de cena: entre cena e (obs) cena, pois aquilo que está “por detrás da cena” é o que, de fato, merece nossa atenção. Na "cena principal" estão Lori, os pais e os amantes. Uma história que poderia ser lida apenas como um chocante relato pornográfico. Por trás disso, um trabalho instigante de escrita e de reflexão sobre as possibilidades e limites da palavra. |
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| A revolução erótica: uma subversão poética em "Onde estivestes de noite", de Clarice Lispector por Vinícius Carvalho Pereira |
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Resumo Em A dupla chama – amor e erotismo, Octavio Paz aproxima erotismo e poesia: aquele seria uma poética corporal; esta, uma erótica verbal. Tal frase, além de um gozoso jogo de palavras, põe em questão a literatura (entendendo-se "poesia" em sentido amplo) e seu caráter sedutor (do latim seducere, afastar do caminho), desviando a linguagem da mera comunicação e a subvertendo em um jogo, como afirma Roland Barthes em Aula. Clarice Lispector é, pois, autora de textos eróticos do ponto de vista da enunciação, como supracitado. Porém, “Onde estivestes de noite” é um conto sensual não só no nível da significação, como também no do significado. Suas imagens, além de construídas de modo deleitoso, fazendo de cada palavra fonte de prazer, são também eróticas no que diz respeito ao conteúdo. Este trabalho analisa o enlace de ambas as dimensões eróticas no texto clariceano, pondo-o em diálogo com as idéias de O Banquete, de Platão. Sendo a poesia uma revolução erótica da linguagem, o erotismo da narrativa analisada é também uma revolução poética da doxa e do texto platônico, relendo muitas de suas imagens. |
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| Hilda Hilst e o desejo: poesia e escritura por Elaine Cintra |
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Resumo Minha proposta é que a poética de Hilda Hilst coloca-se como aquilo que Roland Barthes descreveu como texto-fruição, isto é, uma escritura imersa no desejo em que a linguagem se coloca em um exercício constante de transcendência. Devir constante, esta poética se constrói através da constante procura, imersa em um vasto querer, em um desejo-falta que busca na composição da poesia sua corporeidade, em uma espiral de ausência e trânsito. Através da composição das imagens, representações por si só de ausências, o desejo se coloca como o sentido central deste texto voraz. O objetivo deste trabalho é destacar como este desejo referenda uma subjetividade de ausências e movimentos, que se constitui através da corporificação da palavra na imagem. Para isto, pretendemos analisar especificamente os sete poemas que compõem a obra “O desejo”, discutindo suas representações do imaginário e sua composição convulsa . |
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