| ESCRITA E CORPO, EM TORNO DE ESTADOS LIMITES |
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Coordenadores Profa. Dra. ANA PAULA VEIGA KIFFER (PUC-Rio) Prof. Dr. MARCELO JACQUES DE MORAES (UFRJ) |
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Resumo: Esse Simpósio tem por objetivo maior
investigar as relações entre a escrita e os corpos, não apenas no âmbito
de uma reflexão acerca das representações do corpo na literatura mas, e
sobretudo, no espaço de uma interferência, ou mesmo de uma violação da letra
pelo corpo. Entende-se que tal violação se liga à emergência de estados
limites, no plano artístico e também no plano das subjetividades. Estado
limite deve ser entendido como um operador conceitual que permita traduzir
e refletir sobre as noções de intensidade, 'fora de si' e de alteridade,
que penetrando, através do corpo, o espaço literário e cultural, contribuíram
para uma tensão cada vez mais irredutível entre as noções de eu e de outro
e, sobretudo, para o apagamento das delimitações que as apartavam. Mapear
e investigar, por conseguinte, a configuração de estados limites na literatura,
na psicanálise e na filosofia contemporânea são os objetivos principais
que gostaríamos de desenvolver. " Subtema: Literatura, dialogismo e intertextualidade |

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| Raymond Roussel: grito ou canto? por Ana Maria Amorim de Alencar |
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Resumo Não fossem alguns grandes leitores (Foucault, Butor, Robbe-Grillet, Duchamp), Raymond Roussel (1877 - 1933) seria provavelmente esquecido. A comunicação apresenta alguns aspectos da obra deste autor em suas implicações com a teoria literária comtemporânea. |
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| Intelectuais delirantes por Ana Cristina de Rezende Chiara |
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Resumo Reflexão sobre o "intelectual delirante". A partir das experiências discursivas de quatro figuras de intelectual, fora do sentido canônico atribuído à palavra, proponho pensar a figura do intelectual delirante , rasura no campo conceitual, deslocamento violento, em Carolina de Jesus, Estamira, Hilda Hilst e Arthur Omar. O Intelectual delirante seria aquele que, em transe, trânsito, força a passagem da periferia, do lixo, dos restos, para o mundo das letras e/ou da alta cultura, seja por um empreendimento de vontade de potência, seja por um enfoque novo proporcionado pela exposição ao público de "conteúdos delirantes, desfocados, desmedidos" e, com isso, consegue abalar o pensamento condicionado e deixar vazar um modo novo de articulação/desarticulação do pensamento sobre a realidade nacional, terceiro-mundista ou periférica como se achar melhor. |
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| Escrita e Corpo por ANA PAULA VEIGA KIFFER |
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Resumo O trabalho pretende mapear as relações entre o corpo e a escrita no quadro de literaturas limites do século XX, tomando como referências centrais as obras de Antonin Artaud e Samuel Beckett. Com o intuito de buscar repensar o próprio do literário (no sentido do que é apropriado e / ou expelido), essa abordagem deseja, ainda, interrogar a noção de "estados limites" e investigar como a literatura desses autores citados recoloca tal noção. |
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| O PARAÍSO É BEM BACANA: A ÚLTIMA “TEOGONIA ÀS AVESSAS” de ANDRÉ SANT’ANNA por Angela Maria Dias de Brito Gomes |
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Resumo O mundo vazio de deuses de André Sant’ Anna, no seu último enredo sobre um atentado terrorista, é constituído como encenação da mesma violência à linguagem. A tresloucada e caudalosa estória de Mané, talvez o personagem mais derrotado da literatura brasileira, certamente pode ser interpretada a partir da noção de literatura menor, concebida por Deleuze e Guattari para considerar, segundo a experiência de Kafka, “o nômade e o imigrado e o cigano de sua própria língua” . A pobreza, a banalidade e o caráter chulo do estilo, somados à platitude intelectual dos personagens configuram uma enunciação coletiva e genérica, um jargão iletrado ou semi-letrado, do qual nem o narrador escapa. Nesse sentido, a incessante reiteração das expressões da baixo calão, a redundância de exclamações e interjeições, a estrutura recorrente dos fragmentos compõem a violação da língua pelos afetos primários da dor e do prazer, ou pelos transes do corpo, expressos pelo imediatismo da fala colada aos sentidos. A abjeção social da cidade pequena e sem perspectivas e da vulgaridade das paixões plaina destesrritorializada em qualquer espaço, inclusive na metrópole européia onde o universo subalterno do protagonista só encontra expressão no delírio, modelizado pelo lixo midiático da pornografia e pela pulp fiction. Mané, o subalterno abjeto, o informe, encarna o silêncio dos impotentes e, evidentemente, no único ato que pratica, que é o da própria extinção, não é entendido por ninguém, mas, ao menos, transforma-se numa voz para o leitor. |
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| Jean Genet: santo transgressor por Geisa Rodrigues |
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Resumo Para além do registro histórico do passado marginal de Jean Genet, pode-se afirmar que o caráter “transgressor” de Nossa Senhora das Flores deve-se principalmente à complexa relação estabelecida pelo autor com o mal, a perversão, o erotismo e os corpos, numa escrita caracterizada pelo hibridismo de formatos, revelando uma habilidade de levar ao limite a função do autor e formas canônicas literárias. Destaca-se, neste sentido, um jogo estabelecido por Genet entre o espaço e o tempo, composto por idas e vindas constantes e caracterizado por ações pulsantes. Sua escrita apresenta-se de forma dinâmica, pautada pelas sensações, sonhos e delírios que brotam no tempo presente. Isto permite que o corpo do autor realize uma performance apaixonada, v alorizando a experiência, que Foucault ressalta em Bataille e em Blanchot, por exemplo, como experiência-limite. Algo que pressupõe a dissolução do sujeito, ou é um reflexo da impossibilidade de defini-lo. Desta forma, por meio do corpo do autor/personagem, Genet viola o texto e brinca com a literatura, instaurando uma escrita de si difícil de ser decifrada ou classificada. Considerando o período em que se insere a obra, este trabalho pretende investigar o processo de composição de pontos de fuga em Nossa Senhora das Flores. |
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| Linguagens cruéis - nos limites da representação por Karl Erik Schollhammer |
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Resumo A partir de exemplos da literatura e das artes contemporâneas brasileiras o texto discute a questão da estética da crueldade discutindo as propostas de Antonin Artaud, Clement Rosset, Gilles Deleuze e Elaine Scarry. Questiona-se o modo como a criação literária e artística lida com os limites da representação do inumano e da violência. Trata-se de marcar a diferença entre os excessos representativos da violência e a procura estética de um tratamento contido e ao mesmo tempo irremediável que provoca impactos afetivos além da interpretação. |
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| Escrever com a boca: violação da palavra e liberação dos sentidos prisioneiros na poesia de Ghérasim Luca por Laura Erber |
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Resumo A voz se inscreve na poesia de Ghérasim Luca (Bucareste 1913 – Paris 1994) como um meio de violação da forma gráfica/visual das palavras. A partir dos anos 60, Luca encara a vocalização do poema como um gesto imprescindível na ativação de uma poesia capaz de produzir incertezas e liberar os múltiplos e dissonantes sentidos que ficam aprisionados pela rigidez da representação visual da linguagem. A performance vocal será então um modo de perturbar o fluxo verbal, produzindo uma gagueira poética que envolve fisicamente o leitor na busca de uma experiência que não se contenta com a presença fixa da palavra impressa. |
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| Lima Barreto e a literatura da urgência: a escrita do extremo como insurgência ao controle do corpo por Luciana Hidalgo |
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Resumo Propõe-se o desenvolvimento do conceito literatura da urgência para definir um tipo de escrita realizado sob estado de emergência, consolidado como inscrição capaz de ir além das técnicas de controle corporal no hospital psiquiátrico. Por isto, o foco dessa investigação é Diário do hospício, de Lima Barreto, produzido em 1919-20 durante internação no Hospital Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro. Demonstra-se como esta literatura nasceu conspurcada, contaminada pela loucura e pela rotina no manicômio, sendo simultaneamente uma escrita de si (conceito de Michel Foucault) criada para defender o eu acuado ante a instituição e um documento de valor histórico capaz de denunciar, pelo viés do paciente, minúcias do dia-a-dia psiquiátrico, constituindo uma literatura não-oficial do hospício. Em Diário do hospício, a medicina, em toda a sua autoridade e com o peso cientificista da época, foi vista e criticada pelo olhar do paciente. Um paciente desapropriado da cidadania, em posição desprivilegiada na cadeia de poder, com o corpo compulsoriamente detido e inserido no processo homogeneizador de quereres e poderes. Esta escrita do extremo, esta narrativa-limite inventada para enfrentar uma situação-limite, teve a função de compensar o corpo louco, desgovernado por si e forçado à fronteira do ser com o não-ser pela violência da instituição. Surgiu para preencher a angústia, a não-memória, o não-pensamento, a ausência do corpo, recuperando aos poucos o ser, reagrupando-o, recolocando-o no interior do invólucro corporal. É possível, portanto, perceber como a literatura da urgência funcionou, para Lima Barreto, como ponte do não-ser, aniquilado pela instituição, com o ser integral, pleno. Uma escrita que inverteu a idéia do panóptico, do controle institucional, funcionando como uma forma de cuidado de si para o autor internado e submetido a uma severa padronização de gestos e sentidos. |
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| Armando Freitas Filho: a máquina de escrever por Marcelo Diniz Martins |
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Resumo Corpo e escrita, sempre presentes na trajetória poética de Armando Freitas Filho, ganham a configuração limite em seu último projeto-práxis: a série de poemas intitulada Numeral implica o corpo e a escrita como forma de numerar até a morte. A comunicação apresenta uma leitura dessa série como um projeto de obra, a priori, inacabada. |
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| Cicatriz: abismo do corpo, marca da linguagem por Marcelo dos Santos |
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Resumo Se o texto literário pode ser visto como a fabricação dos corpos imaginados, mas também do corpo do texto, de que modo podemos pensar as interrupções, os cortes nessa estrutura? Como entender a fissura, a cicatriz? Este trabalho pretende pensar a cicatriz, perseguindo um ponto de desequilíbrio que pode sustentar uma discussão teórica na arte contemporânea. Partimos dos dípticos (de texto e imagem) de Cicatriz, da artista plástica Rosângela Rennó, e deles nos apropriaremos para estabelecer um diálogo entre literatura e imagem, mais exatamente centrado naquilo que acaba se tornando o limite entre as duas instâncias, naquilo que o discurso tenta reparar, na distância, no espanto e na beleza que a cicatriz provoca. Enfim, trata-se, sobretudo, de pensar a possível sutura entre corpo, texto, imagem e experiência. |
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| Georges Bataille e a violência da forma por Marcelo Jacques de Moraes |
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Resumo No início da narrativa de Madame Edwarda , Bataille escreve entre parênteses : “ Minha entrada no assunto é dura . Eu poderia tê-lo evitado e permanecido ‘ verossímil ’. Eu me interessava pelos rodeios . Mas é assim , o começo é sem rodeios . Vou continuar ... mais duro …” Proponho-me aqui a discutir o sentido dessa “ dureza ” “ sem rodeios ” que dispensa toda verossimilhança e que caracterizará a inclassificável escrita de Bataille, partindo sobretudo de sua própria reflexão sobre a forma – que , como explicita Georges Didi-Huberman, pressupõe a “ violência como trabalho ”. |
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| "Meu retrato é uma tela branca": O diário do hospício como espaço de escrita de uma vida sem sujeito. por Mariana Patrício Fernandes |
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Resumo Neste trabalho iremos abordar alguns diários íntimos de escritores, produzidos a partir da experiência da loucura e do internamento em um hospital psiquiátrico (Antonin Artaud, Lima Barreto, Carlos Sussekind, e Maura Lopes Cançado). Nesses escritos é possível entrever uma escrita de si na qual não se constrói uma imagem identitária, uma vez que o estilhaçamento desta imagem constitui a experiência primordial que impulsiona a escrita. O que se vê nos diários que trabalharemos é a emergência de uma voz que pretende resistir à uniformização mortificadora do poder normativo do hospício, em um processo de singularização, que não é aquele que constitui o reconhecimento do indivíduo moderno. A concepção moderna na qual o indivíduo é reconhecido enquanto totalidade autônoma, ancorada na racionalidade, não concede lugar à essas vozes que falam de fora dos limites da razão e da consciência. A leitura crítica destes diários deve, entretanto, repensar a definição tradicional de autobiografia que se baseia na idéia de expressão da interioridade de um sujeito. Nos escritores trabalhados esta fronteira entre interioridade e exterioridade já não é mais claramente delimitada.Para tanto, é necessário pensar os limites desta concepção moderna de sujeito, assim como a relação entre vida e escrita rompendo com uma relação causal. Como escapar à despersonalização sem construir uma identidade fixa, é o que nos mostram estes diários. |
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| A viva voz da escrita por Marília Rothier Cardoso |
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Resumo A leitura de trechos escolhidos de narrativas africanas e latino-americanas propõe-se como trabalho de rastreamento das marcas que a tradição oral teria inscrito, à maneira de um legado, no registro impresso convencional, consolidado e estável, da literatura em circulação. Se as percepções e afetos do corpo escapam às regras do código lingüístico, sua energia se comunica, de diversos modos,´`a voz do narrador, cujos efeitos de ritmo e tom combinam-se a posturas, gestos e movimentos. Toda a energia da narrativa direta, exposta às reações dos ouvintes, potencializa-se pela condensação do desejo imediato do falante ao substrato dos saberes e dúvidas, vontades e resistências da coletividade. Essa força da empatia e do acaso, que a escrita perde, quando congela a voz, ecoa na imagem da página (ou da tela) onde os caracteres se combinam através de expe3dientes lúdicos, inesperados, até mesmo chocantes, para colocar, insistentemente, em risco a atividade decodificadora do leitor. Sem preocupações classificatórias ou historicizantes, vão-se anotar fragmentos analítico-investigativos desses textos que se escrevem, cada um a seu modo, como que conjurando os fantasmas dos aedos, dos oráculos, dos sacerdotes em transe. Pretende-se uma espécie de leitura-audição de simulacros silenciosos do rito narrativo, com o interesse de experimentar certa vitalidade prática possível na literatura. |
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| Escritos brutos e outros escritos: a "experiência limite" em questão por Marta Dantas da Silva |
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Resumo A experiência radical da linguagem como experiência limite, realizada no espaço da linguagem literária, ultrapassa a oposição metafísica entre as palavras e as coisas, a alma e o corpo, a interioridade e a exterioridade, o sujeito e o objeto, o eu e o mundo, etc. Nela, a linguagem independe do sujeito que fala: “O eu não tem a menor importância”, afirma Bataille; “O eu jamais foi sujeito da experiência", diz Blanchot; “Que importa quem fala […]”, questiona Beckett. Enquanto a liberação da escrita do tema da expressão do “eu” é tida, por Foucault, como um dos princípios éticos fundamentais da escrita contemporânea, é chamada de loucura pelo discurso médico que não poupou da pecha de louco escritores como Raymond Roussel e Artaud. O que se pretende é — a luz do pensamento de Blanchot, Foucault e Thévoz — aproximar algumas experiências radicais com a linguagem, produzidas no interior da instituição literária, com experiências com a linguagem refratárias e completamente à margem da mesma, como a escrita produzida por Arthur Bispo do Rosário durante os quase 50 anos de internamento numa instituição psiquiátrica. |
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| A literatura fora de si: escrita e alteridade em Tununa Mercado por Paloma Vidal |
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Resumo Exilada durante a ditadura de 1976, a escritora argentina Tununa Mercado morou no México e lá conheceu Pedro, filho de Sonia, uma judia alemã, forçada a fugir de Paris na primavera de 1940 com seu filho pequeno, diante da iminência da invasão nazista. Durante a viagem, Sonia deixa seu filho no caminhão que os transportaria em direção ao sul para ir buscar água e mantimentos numa cidade vizinha. Temendo um bombardeio, o caminhão parte, separando mãe e filho. Essa cena, narrada em En estado de memoria, livro que Mercado escreveu ao retornar do exílio, é retomada em seu livro mais recente, Yo nunca te prometí la eternidad (2005), em que Mercado resgata os escritos de Sonia para a partir deles dar materialidade a uma experiência limite da qual se sente próxima e distante ao mesmo tempo. Interessa-me analisar essa incorporação do outro no próprio texto como condição de possibilidade de uma escrita à beira da dissolução, que se afirma na extrapolação dos limites do literário. |
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| "Sou negão, careca, da Ceilândia, mesmo, é daí?" - O corpo como suporte discursivo na construção da identidade através do RAP. por Paulo Roberto Tonani do Patrocínio |
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Resumo Em consonância com a proposta do Simpósio, a presente comunicação objetiva investigar os dispositivos discursivos, a partir da música e da performance dos rappers, que utilizam o corpo como elemento constituinte de uma identidade cultural baseada na diferença. O corpo surge não apenas como uma esfera que reproduz estruturas sociais excludentes, mas, igualmente, como um suporte de um discurso artístico e político. Este espaço de poder deve ser compreendido como a única esfera de domínio destes sujeitos marginalizados. |
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| A escrita e a voz por Pedro de Souza |
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Resumo Nesta exposição quero me ocupar estritamente de uma conferência que Michel Foucault produziu para ser apresentada em uma emissão radiofônica. Trata-se do texto Corps, lieu d'Utopie. Meu ponto de partida é a consideração de que esse escrito circula hoje apenas em forma sonora, tendo sido remasteurizado e multiplicado para ser difundido em CD. Portanto a escrita que devo perseguir em minha análise só pode ganhar sua partitura na voz de seu próprio autor. A hipótese que deve guiar minha proposta analítica é a de que, diferente do Paul Valery, estudado por Agamben, Foucault, valendo-se da possibilidade de vocalização de uma escrita, faz uso da linguagem, não como lugar em que aparta de seu corpo, mas antes como o espaço em que o eu pode ser dito e feito corpo, o que, conforme nos mostra Agamben, era impossível para Valery. Este, na breve novela Monsieur Teste, ao pretender tocar o eu que rondava o próprio corpo, perdeu-se para tornar-se reduzido tão somente ao ser da linguagem da qual partia para tentar dizer o eu. Como tentativa de compreensão, sugiro, à guisa de conclusão provisória, que se a voz que opera em Foucault pode ser escutada em sua singularidade, não como objeto, mas como sujeito de si, então, mediante a performance vocal que aplicou à escritura e leitura de seu texto - Corps, lieu d'Utopie -, ele atingiu o ponto não atingido por Valery, uma vez que para o poeta a voz que vem proferir o separa irredutivelmente do Eu. Sob esse mesmo ponto de vista, Foucault surpreende ao mostrar, em voz alta, que a linguagem e o sujeito que dela deriva têm o corpo como sua condição inafiançável. |
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| James Joyce e "a idéia de si como corpo" por Ram Mandil |
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Resumo O trabalho partirá da hipótese lacaniana a respeito do "ego" de James Joyce apresentada em seu Seminário livro 23: O sintoma. Neste Seminário, o psicanalista define o "ego" como a idéia que um sujeito faz de si como corpo. Para Lacan, no caso de James Joyce a idéia que o escritor tem de si como corpo não parece não estar assentada sobre a imagem corporal , mas derivar de sua prática com a escrita. Isso poderá ser demonstrado através de passagens de sua obra, sobretudo em Um retrato do artista quando jovem. Neste trabalho pretendo discutir como essa leitura lacaniana poderá contribuir para uma abordagem dos fenômenos contemporâneos relativos aos diferentes modos de relação com o corpo. |
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| Georges Perec e a instabilidade do nome por Rodrigo Ielpo |
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Resumo Bretzel, Peretz, Perec. Como a máquina kafkaniana que inscreve a condenação no corpo do condenado, as metamorfoses do sobrenome dão a medida da pena de Georges Perec: a instabilidade do nome que parece fantasmagorizar a escritura do autor de La vie mode d'emploi, denunciando um espaço-ponte entre as palavras e as coisas que não cessa de ser alterado. Nomear os corpos, nomeando-se a si mesmo, num inventariado que se desloca entre a tentativa de salvação e o imperativo do luto diante do eterno retorno da morte. Assim, o livro do mundo, assumido como fragmento, aponta para seu duplo, o livro túmulo. |
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| Fome de Destruição: Performance de Body Art e Niilismo Radical em dois Romances de Santiago Nazarian por Irene Depetris-Chauvin |
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Resumo Santiago Nazarian já publicou quatro romances. Mas, antes disso, este jovem escritor paulistano obteve alguma repercussão na mídia por suas performances de "body art". Em 1996, foi personalidade-tema do documentário "Um Caso de Body Art" e, dois anos depois, participou do curta-metragem "Ame o Garoto Que Segura a Faca". Nesta comunicação, quero examinar as interrelações entre as performances de "body art" e a escrita de Nazarian em os romances "A Morte Sem Nome" (2004) e "Feriado de Mim Mesmo" (2005). Deste modo, busco refletir não somente sobre o processo criativo do autor (as representações literárias do corpo, a presença do corpo e da performance do autor como parte da obra), mas também considerar no seu trabalho distintas formas de niilismo. Alenka Zupančič argumenta que, ao passo que o niilismo passivo é uma expressão de impotência, o niilismo ativo é uma luta contra a aparência, uma atitude que expõe e desmascara as "ilusões" em nome do Real. Os personagens de Nazarian levam o corpo a seus limites físicos: as cenas de cortes, homicídio, canibalismo e suicídios em série parecem apontar a uma liberação eufórica das normas e podem ser vistas como estrategias desesperadas de volta ao Real |
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