ESCRITAS DE BABEL


Coordenadores
Prof. Dr. ANDREA GIUSEPPE LOMBARDI (UFRJ)
Profa. Dra. CARLINDA FRAGALE PATE NUÑEZ (UERJ)
Profa. Dra. SUSANA KAMPFF LAGES (UFF)
Resumo: A proposta do simpósio parte do pressuposto de que, na contemporaneidade, a condição pós-babélica se impõe a todo artista e escritor. Por isso, pretende agregar pesquisadores que estudem autores/textos nos quais o tema de Babel ou da multiplicidade das línguas seja fundamental. Serão bem-vindas propostas que reflitam sobre a literatura enquanto escrita ou reescrita da dispersão, ligada seja a deslocamentos espaciais (viagens/migrações, exílio), seja a movimentos temporais (memórias). Sendo a dispersão babélica o pressuposto do trabalho de tradução, serão aceitas propostas de estudos sobre questões de tradução lingüística ou cultural, ou mesmo, de tradução entre meios expressivos diferentes (literatura/arte/cinema), desde que de alguma forma focalizem problemáticas advindas do contato ou choque entre culturas/línguas diversas. "

Subtema: Literatura, dialogismo e intertextualidade

Velhice e juventude no espaço da diáspora da Itália contemporânea
por Ana Maria Chiarini
Resumo
Este trabalho parte da hipótese de que o espaço da diáspora, no caso da Itália contemporânea, além de ser atravessado pelos eixos de diferenciação do gênero, da etnia e da cultura, é particularmente marcado pelo eixo de diferenciação geracional, isto é, pelo embate entre a Vecchia Italia e a vitalidade e a juventude dos estrangeiros. Lançando mão de duas narrativas que exploram a nação italiana como cenário de encontros e confrontos transculturais, La terra è di tutti (1996), de Ferdinando Camon, e I fannulloni (1990), de Marco Lodoli, pretendo analisar a desestabilização identitária experimentada pelo "nativo", que se revela frágil e envelhecido, sob a teia de idéias racialistas ou a atração do exótico, diante da presença vigorosa do diaspórico, cheio de sonhos e projetos de uma nova vida. Se o exílio já foi estudado como um ato corporal, como uma experiência vivida com o corpo e nele inscrita, aqui me proponho a refletir sobre as conseqüências da migração e do trânsito não para quem migra, mas para o corpo do sujeito imóvel, através de inscrições poderosas, das quais Lodoli e Camon oferecem várias pistas em suas narrativas.
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Uma língua do exílio ou um exílio da língua. Antes ou depois de Babel
por Andrea Lombardi
Resumo
A “língua cuja verdade referir-se-ia apenas a ela mesma”, que Derrida postula em seu Des tours de Babel (Torre de Babel), não pode, a rigor, ser a “língua sagrada”, que ele toma emprestada a Walter Benjamin, interpretação ligada àquele nome de Deus, que o autor francês cita na tradução platonizante da tradução dos Setenta, um nome tachado no mesmo texto de “impronunciável” e que, enquanto “nome próprio permanece(-ria) sempre intraduzível”. Nem pode a língua sagrada, a rigor, referir-se ao mito ou à narrativa de Babel, pois o episódio de Babel e o Tetragrama pertencem ambos à tradição javista, anterior à revolução eloísta, essa última responsável pelo aparecimento do “Homem Moisés” (a definição é de S. Freud), por sua vez inscindível do mito da origem da escrita alfabética em nossa tradição (através da tradição judaica, definitivamente incorporada na tradição ocidental, como uma das duas vertentes junto à grega ou greco-cristã). Resta ver se aquele mesmo Moisés, idealizador de um mito subversivo da linguagem, não poderia assumir o papel de antagonista de Thot, que é personagem de um mito exótico no Fedro de Platão, um verdadeiro pesadelo, de autoria do filósofo grego, com o objetivo de aprofundar algumas linhas de raciocínio desenvolvidas na Gramatologia.
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Berlim - A Babel partida de Brecht
por Carlinda Pate Nunez
Resumo
A agitação cultural de Berlim, nos anos 1920, tornou-a lugar babélico, baseado na convivência conflitiva de partidos políticos, das exposições de arte e da imprensa efervescente, das agremiações científicas e trabalhistas, da intensa vida esportiva e das reformas urbanísticas, dos antros e dos palanques glamorosos. A fratura imposta à capital cultural da Alemanha durante a guerra fria foi-lhe, entretanto, favorável, através da situação de confronto entre ocidente e oriente desenvolvido no campo da cultura. O caldo cultural da Berlim de Brecht manteve fumegante o impasse entre comunismo e democracia, mesmo depois do arrefecimento do prestígio e da produtividade do Berliner Ensemble. O desgaste do regime soviético, assim como as brutalidades perpetradas pela STASI são os focos contraditórios que colocam em xeque as idéias presentes no teatro e na poesia de Brecht, mas são também argüidos pelos sonhos proféticos do dramaturgo e poeta utopista. A discussão dessa problemática é tema do filme A vida dos outros (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, que servirá de mote para pensar o lugar do intelectual na constelação cultural daquela Berlim partida, bem como para dimensionar a adaptação de idéias e traduções extratextuais que tomam a Brecht como arquissigno do próprio babelismo.
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Galáxias - fragmentos de Babel
por Cristina Monteiro
Resumo
O caos do mundo contemporâneo é encenado, em um impressionante teatro textual, nas Galáxias de Haroldo de Campos. Os sons e sua apresentação visual formam palavras certeiras para a insinuação de significados dúbios, que multiplicam suas possibilidades de sentido no contato com a imaginação do leitor. Haroldo de Campos quis criar um “épos sem estória”. Sem fim nem começo, o leitor trilha o movediço caminho das metamorfoses. O mito de Babel se realiza no caminhar dos leitores por textos, lugares e situações fragmentadas. A simultaneidade sugerida aproxima a Alemanha de Goethe e Hölderlin à Espanha árabe, aos mares homéricos e a prostíbulos norte-americanos. Em meio ao texto em português, ecos do francês, do grego, do inglês, do alemão, do japonês, entre outras tantas línguas disseminadas no episódio da Torre de Babel se acomodam e se impõem em uma nova situação. O mundo se adaptou ao caos provocado pela ira de Deus e se apresenta em Galáxias na lógica da era mais contemporânea da “globalização”. A nova torre é fragmentada e sua harmonia, dissonante. Minha comunicação apresentará as possibilidades de reflexão crítica do tema a partir de trechos selecionados da obra.
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Língua estranha e familiar: Aprendizado do árabe e do tupi esquecido em Milton Hatoum
por Daniela Birman
Resumo
Ao explorar em seus dois primeiros romances o trânsito entre Oriente e Ocidente, as fronteiras permeáveis existentes entre as culturas e o diálogo de indivíduos pertencentes a diferentes religiões e etnias, o escritor Milton Hatoum também trabalha a temática do contato entre idiomas. Ele nos mostra, dessa forma, a língua como uma ilusória figura de origem, solo fundador, também utópico, que deteria a essência e verdade daqueles que dali procederam (FOUCAULT, 1979). “Maternas” ou “estrangeiras”, as línguas devem ser entendidas como sendo sempre artificialmente aprendidas. Elas sempre pertencem, pois, aos outros, e são apropriadas por nós. Para sustentar esta hipótese, examinaremos dois episódios dedicados ao estudo de idiomas na obra do autor. O primeiro situa-se em Relato de um certo Oriente (1989), no qual o personagem Hakim conta-nos como foi o aprendizado do árabe, a “fala estranha” de seus pais. O outro se localiza em Dois Irmãos (2000), livro no qual Yaqub aplica-se para relembrar seu “tupi esquecido”. Tomaremos como fio condutor da nossa leitura o “testemunho” de Jacques Derrida apresentado em O monolinguismo do outro ou A prótese de origem (2001).
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HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA NA TORRE DE BABEL
por Heidrun Krieger Olinto
Resumo
É recente na construção de conhecimento científico, no espaço disciplinar dos estudos de literatura, a emergência de uma escrita em sintonia com os questionamentos subjacentes a sua fundamentação atual. A reflexão teórica proposta aborda o descompasso tradicional a partir do olhar sobre novos experimentos que traduzem “um sopro de gaia ciência” sob o signo de babel. A metáfora de valor negativo em sua origem-como catalisadora de dispersão e confusão- será reconfigurada no contexto de projetos teóricos que se despedem de modelos científicos de redução da complexidade pelo acento explícito sobre o multivocal e o não linear. Neste âmbito serão analisados experimentos inovadores de historiografia literária (e cultural) que contornam formas binárias de identidade e diferença pela ótica da transdiferença e que, sem minimizar conceitos de nação, por exemplo, se pautam pela coexistência de estruturas supranacionais e sistemas referenciais nacionais gerando uma pluralidade de linguagens e cenários multitemporais. Trata-se de projetos que não questionam a cronologia a favor de uma simultaneidade aleatória, mas que apontam para múltiplas camadas espaciais e durações temporais que atravessam eventos singulares instantâneos impossíveis de serem enclausuradas em narrativas unitárias e contínuas. A própria forma privilegiada nestes experimentos se aproxima da prosa ensaística, equilibrando o seu discuso argumentativo na fronteira entre arte e ciência e sublinhando, assim, em sua escrita babélica -atravessada por investimentos subjetivos- o dinamismo aberto de toda história da literatura.
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As leituras babélicas de Nietzsche (o dionisíaco: princípio revolucionário ou estético?)
por Kathrin Rosenfield
Resumo
Seria Nietzsche um polemista a-sistemático ou anti-sistemático? Seu estilo fragmentário pode dar a entender que ele rejeita o rigor do pensamento sistemático. Mostraremos, no entanto, que sua superação do formalismo de Kant e da dialética hegeliana não significa falta de rigor, nem de exigência formal. Sua obra não é um elogio da "embriaguez" dionisíaca, mas um esforço de domar essa força embriagada com mais sutileza e inteligência.
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Intermedialidade mítica: "A menina louca por mel" e suas irmãs ibero-americanas
por Kathrin Sartingen
Resumo
O ponto de partida da presente proposta é a observação de que em meados do século passado, tanto em Portugal quanto na Espanha ao mesmo tempo dois importantes romances, bem como, vinte anos depois, três filmes de destaque, contemplaram o universo da abelha produtora de mel: os romances La colmena de Camilo José Cela (1951), e Uma abelha na chuva de Carlos de Oliveira (1953); os filmes são a adaptação portuguesa de Uma abelha na chuva, realizada por Fernando Lopes (1973), e El espíritu de la colmena de Victor Erice (1973) e La Colmena de Mario Ramus (1982). Embora todas as obras remetam a uma mesma figura (a abelha), à primeira vista, ela parece não constituir mais do que um detalhe que em nada leva a relacionar essas obras entre si. O elemento unificador será encontrado numa narrativa mitológica pré-colonial ("A menina louca por mel"), a partir de cuja leitura os romances e filmes podem ser relidos e religados.
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A aliança do poeta no exílio: Edmond Jabès e a questão da língua
por Maria Angelica Deângeli
Resumo
Em um ensaio consagrado a Jabès, “Edmond Jabès et la question du livre”, Derrida (1967) analisa as marcas da poética (e da judeidade jabesiana) narradas no Livro, ou seja, os tantos livros do poeta que metaforizam o Grande Livro das escrituras sagradas. Numa espécie de paródia derridiana, deslocamos a questão do Livro para a problemática da língua. Judeu, nascido no Cairo e educado em meio francófono, o francês terá sido para Jabès a língua da reconciliação da escritura com o mundo. Na própria trajetória do poeta, obrigado a deixar o Egito devido às suas origens judias, aparecem os traços fragmentados de uma língua edificada em ausência e em errância; língua que marcará uma escritura dilacerada entre a palavra perdida e a palavra prometida. A partir da leitura de “Livre des questions” (1963) e “Désir d’un commencement, angoisse d’une seule fin » (1991), procuraremos mostrar como, em Jabès, a língua (do estrangeiro, do outro do outro) constitui a aliança necessária do poeta com o exílio, a memória, o desejo e o próprio sofrimento.
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Babel de fingimentos, realidades multi-reais
por Martha Alkimin de Araujo Vieira
Resumo
Se a cena contemporânea se caracteriza por uma condição pós-babélica que se impõe privilegiadamente a escritores e artistas, o que dizer da babel de fingimentos acionada pelos sistemas midiático-digitais e sua capacidade de promover alterações radicais nas formas como percebemos e conhecemos a realidade? Em meio a algaravia e aos cruzamentos sinestésicos patrocinado pelas novas tecnologias da comunicação, ali naquele/nesse mundo (real? hiperreal? irreal? babélico?) onde os castelos da tecnologia fazem a experiência humana girar como num rodamoinho para, em seguida, flanar nas infovias digitais, ali/aqui somos confrontados e interpelados pelas temáticas do fingimento, da mentira e da verdade, do ilusório e da certeza, da ficção e da realidade; questões que falam não apenas aos estudos teóricos de literatura, mas também à teoria da cultura e à epistemologia. Nessa perspectiva, este trabalho se propõe a indagar sobre como a babel de fingimentos dos sistemas midiático-digitais permitem questionar as nossas próprias noções de verdade e realidade, fato e ficção; o que, em outros termos, significa perguntar sobre como encenamos a nossa própria vocação para as ficções, para fabulação de realidades multi-reais, em nome das quais escrevemos mundos possíveis, mundos em devir.
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Cânone e Babel nos "Microcosmos" de Claudio Magris
por Maurício Santana Dias
Resumo
Dez anos após escrever um livro incomum sobre a história e a cultura dos países recortados pelo Danúbio, Claudio Magris faz em Microcosmos uma imersão nos lugares e episódios de sua Trieste natal e arredores. Ao contrário de Danúbio, em que amplos espaços eram absorvidos por uma narrativa cheia de saltos, Microcosmos procede sobretudo pelo método da descrição e da justaposição. Esta comunicação pretende mostrar como, nesses dois livros, Magris faz um movimento pendular entre os pólos da narração, que mesmo no limite deixa entrever certa hierarquização do repertório (cânone), e da descrição aberta à pluralidade babélica.
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O transbordamento das línguas na Babel domesticada: uma leitura de três romances de Sergio Kokis
por Renato Venâncio Henriques de Sousa
Resumo
No contexto da escrita migrante do Quebec, os romances Le pavillon des miroirs (1994), Negão et Doralice (1995) e Errances (1996), de Sergio Kokis, escritor de origem brasileira, lançam mão de processos de negociação identitária no cruzamento de línguas e de culturas diversas. Nestes textos, o autor faz o elogio da identidade movente e nômade, habitada pelo Outro e pelo estrangeiro, criando um texto híbrido, marcado por efeitos de tradução e de desterritorialização que interrogam os imaginários do pertencimento. Tendo em vista uma série de reflexões de teóricos e tradutores tais como Antoine Berman, Walter Benjamin, Henri Meschonnic, Jacques Derrida, Sherry Simon, Lawrence Venuti , entre outros, nosso trabalho estuda as implicações da escrita em língua estrangeira que , como se pode perceber nos romances em tela , promove descentramentos e desterritoralizações tanto no que concerne à língua e à cultura , quanto ao imaginário do público ao qual se destinam . Tais obras, a exemplo do que ocorre com inúmeros textos da chamada pós-modernidade, principalmente no Quebec, se inscrevem no contexto de uma “ poética da tradução ” (SIMON, 1994).
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Reescrevendo a literatura de viagem: uma critica cosmopolita ao exotismo na ficcao latinoamericana contemporanea
por Rosario Hubert
Resumo
A proposta deste trabalho é ler processos de desfiguração e de desterritorializção em narrativa contemporânea brasileira. A idéia é explorar a construção ficcional da viagem além de suas significações literais e geográficas, mas como princípio de processos de dês-subjetivação, tanto dos personagens quanto das construções narrativas. A hipótese é que na errância desenvolve-se uma retórica de despojo produto da des-subjetivação: há um esquecimento do passado e declínio dos nomes próprios; as vozes narrativas se misturam construindo uma pluralidade enunciativa que procura um máximo afastamento e a paisagem descrita passa a ser cada vez mais desértica. A língua é o lugar de resgate da personalidade e falta dela desestabiliza os sujeitos, tanto na mobilidade quanto na estabilidade. O corpus inclui três romances publicados nos últimos dos anos no Brasil onde as viagens têm papeis chave no argumento, na construção dos personagens e das narrativas mesmas: Mongólia (2003), de Bernardo Carvalho, Budapeste (2003), de Chico Buarque e Lorde (2006), de João Gilberto Noll. No entanto, a particularidade das viagens presentes nestes textos é sua condição de processo: a ênfase está colocada no trânsito, no caminho mais que nos extremos ou nas locações das mesmas. O traslado a geografias distantes não procura nestes textos uma descoberta de um Outro, de uma diferença, ou de um território exótico, senão de uma excursão interna.
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Resíduos da tradição
por Stefania Chiarelli Techima
Resumo
Ao tomar o Japão como inspiração e cenário para suas obras, dois escritores de literatura brasileira contemporânea investigam possíveis relações de nossa cultura com a tradição japonesa. O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho e Rakushisha, de Adriana Lisboa, são romances que tematizam não somente o transplante cultural como também o diálogo com tradições narrativas, vislumbradas nas figuras de Junichiro Tanizaki e Bashô. Este trabalho busca questionar estratégias de enunciação da alteridade a partir da presença de personagens deslocados, marcados pela diferença cultural. Recusando a vertente documental comum a inúmeras narrativas de ou sobre a imigração, os referidos textos problematizam de diferentes formas a experiência de dispersão e sua relação com o legado da memória.
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Babel revisitada: Reler e retraduzir "A tarefa do tradutor"
por Susana Kampff Lages
Resumo
Texto breve, enigmático e de impressionante influência sobre vários campos do pensamento nas ciências humanas, o ensaio “A tarefa do tradutor”, de Walter Benjamin, coloca-nos diretamente em contato com a dimensão aporética, não só da tradução, mas também da própria escrita, sempre incapaz de recobrir integralmente seu universo de referências. Pretendo realizar uma releitura de minhas próprias traduções desse texto, contrapondo-as a outras traduções realizadas para a língua portuguesa, bem como a traduções realizadas para outras línguas, com o intuito de refletir sobre os limites e possibilidades da linguagem enquanto meio de representação de idéias e relações, destacando no processo o papel fundamental do leitor-tradutor como intérprete privilegiado do texto. Para essa reflexão, deverei revisitar algumas interpretações fundamentais do texto benjaminiano (Derrida, De Man, Carol Jacobs, Haroldo de Campos), bem como estudos mais recentes sobre esse texto.
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A narrativa italiana nas fronteiras da cidade contemporânea
por Adriana Iozzi
Resumo
A narrativa italiana, que no período neo-realista havia cultivado um forte vínculo com lugares e com a história do país, abre-se, numa fase posterior, para a Europa e para o mundo seguindo modelos de referência que levam os escritores e os leitores para fora das fronteiras nacionais. A internacionalização dos mercados e a difusão das práticas de tradução oferecem uma peculiar contribuição nesse sentido. Assim, um dos traços mais originais e característicos da “nova narrativa” italiana, surgida no final da década de setenta, gira em torno das grandes cidades e do tema onipresente da viagem, que autores como Calvino, Moravia, Manganelli desenvolvem também na forma de reportagens. O propósito desta comunicação é refletir, por meio da análise de narrativas de alguns autores italianos da geração dos anos oitenta, sobre a mudança na forma de representar o espaço e, em especial, o espaço da metrópole. Transformada já no século XIX e XX em núcleo vital, monumental e labiríntico da literatura e da arte, a cidade torna-se um elemento proteiforme e incompreensível - lugar de desejos e medos, instalações, publicidade e tráfego -, convertido agora em mapa de citações, de estilos de vida e de etnias diferentes.