Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
A poesia de Ico Lisbôa como testemunho da violência ditatorial
Aparecida Cristina Novaes Moura (UFES)
O poeta Luiz Eurico Lisbôa, engajado na política desde os quinze anos, escreveu o poema Cabo Arraes em 1967, aos dezenove anos. O poema antecede em cinco anos o assassinato do poeta pelos militares. O jovem Ico antes de ‘desaparecer’, e seu corpo ser encontrado como Nelson sete anos depois, em 1979, parecia antever, premonizar seu próprio fim. A reedição em 2022 de seu livro de poesias Condições Ideais para o Amor marca a passagem de 50 anos do extermínio, enquanto os laudos indicavam suicídio. A tessitura do poema Cabo Arraes traz de início a escuridão da noite, a fuga de jovens companheiros, o cunho político do ideal de libertar uma nação. Eram estudantes e o cabo não tinha instrução, mas é ele quem avalia, pesa, pondera e decide a situação. Trata da prisão, fome, liberdade, vida, Revolução, tortura, coragem, incertezas e morte. Ainda que se apoie em rimas com versos livres, o poema porta uma sonoridade e leveza com versos curtos em linguagem coloquial e desfralda a ficção poética que corresponderia à violência, à catástrofe, ao evento-limite. Nos detalhes não casuais da escrita percebe-se a intencionalidade do autor. O poema, um relato cronológico, uma narrativa, se desenvolve com início, meio e fim apresenta aspecto cinematográfico. Este texto, encontrado com outros treze poemas, representa mais um exemplo do testemunho na literatura. Aquele que fala, a testemunha ou sobrevivente, aquilo que se fala – a violência, a catástrofe, o evento-limite, a coletividade representada (Salgueiro, 2011, p.11) aqui antecedem o evento-limite, talvez pela tênue teia entre verdade e ficção, entre ética e estética, entre história e forma, como proposto por Salgueiro (p. 9). O destemor e a esperança são característicos da obra do rapaz que sonhava e lutava por um país melhor e decente.
Palavras-chave: testemunho; poesia; Ico Lisbôa; memória; violência
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