Vaga carne é uma peça escrita e performada por Grace Passô, atriz e dramaturga de Belo Horizonte. Em suma, trata-se de uma voz que invade, em primeira instância, coisas, como estalactites, café, cães e patos, e por elas vai vagando, relatando sua experiência no escuro, até que ela invade o corpo de uma mulher negra. A partir daí, as marcas de raça, gênero e classe social surgem nas falas e passam a conformar o discurso, culminando na percepção de que a mulher está grávida. Este trabalho se propõe a analisar essas marcas a partir das discussões sobre subalternidade e representação de Spivak em Pode o subalterno falar? (2010) e de interseccionalidade de Gonzales (1984), passando pela questão da linguagem que importa em Corpos que importam de Judith Butler (2019). Será buscado apoio, ainda, na construção de teatro performativo de Féral (2008) e nos debates sobre decolonialidade de Quijano (2005). De antemão, a pesquisa aponta que a performatividade de gênero e raça da atriz se interseccionam com o discurso proposto pela voz-protagonista, construindo e marcando uma posição decolonial proferida por um corpo subalterno. Ao final, ainda é possível pensar na projeção do futuro do feto da obra, uma vez que, como afirma Quijano (2005), o futuro é um território temporal aberto.
Palavras-chave: subalternidade; teatro performativo; interseccionalidade; materialidade; decolonialidade.