Bruno Ribeiro Pereira (Universidad de Buenos Aires (UBA) - Universidade de Brasília (UnB))
O romance "De gados e homens" (2013), da brasileira Ana Paula Maia, costuma ser lido apenas como uma narrativa sobre o transbordamento das fronteiras entre o humano e o animal. No entanto, também podemos encontrar nele uma história sobre contaminação maligna e enfermiça, o que permite um paralelo de leitura com "Distância de resgate" (2014), da argentina Samanta Schwweblin. Esta análise assume uma estrutura discursiva médica, estudando as causas, sintomas e tratamentos das doenças que são construídas nos dois romances. Tal leitura das obras em conjunto permite também entender também o aspecto metafórico que o terror contemporâneo latino-americano revela sobre a indústria alimentícia, um "ponto de pressão fóbica" de nossa região, como definiria Stephen King. O campo agropastoril, grande motor econômico dos países de origem das autoras, mas também é gerador de injustiças trabalhistas e sociais que são parte do cenário de ambos textos. Esta análise toma um elemento-chave do terror, o mal desconhecido, analisando ele a partir de seu significado patológico — o mal como sinônimo de contágio e vice-versa — e como os dois romances trabalham a contaminação que leva à loucura, à violência, à morte e também às tentativas malsucedidas de superá-la a partir de uma cura de aspecto espiritual.
Palavras-chave: terror latinoamericano; doenças na literatura; animalidade;