Uédipo Ferreira dos Reis (Universidade Federal Fluminense)
“Parque das ruínas” é um poema-inventário em que Marília Garcia coleciona arquivos de distintas naturezas, de diferentes campos: trechos do diário que escreveu ao realizar uma residência artística na França, excerto de anotações de David Perlov, fotografias da artista americana Rose-Lynn Fisher, desenhos de Jean Baptiste Debret, frame do documentário intitulado Imagens do mundo e inscrições da guerra, de Harun Farocki, correspondência familiar, reprodução do quadro “Angelus novus", de Paul Klee. A partir da execução de dois deslocamentos, quais sejam, transposição dos arquivos de suas linguagens de origem para dentro do poema e intervenção, mediante um trabalho ativo de leitura, nos objetos inventariados, a vida, dispositivo também arquivável, é inserida no que desejamos nomear escrita arquivística. O aspecto desta reunião que nos interessa examinar, cabe ressaltar, é a maneira com que a mesma foi montada, os modos com que a poeta tece este texto, o manipula e nele intervém, através do gesto curatorial aqui aludido. Nesse sentido, propomos uma leitura deste poema que focalize, para tanto, não só os vínculos estabelecidos entre texto e imagem, e os desdobramentos decorrentes deste encadeamento, como também o sujeito arquivador e os materiais por ele selecionados e rearranjados e, ainda, os modos de feitura com os quais Marília Garcia tece o poema que analisaremos.