Francisco Claudio Alves Marques (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP))
A (des)construção verbal de “territórios” imaginários como fortalezas, castelos, sítios e lagoas era um expediente poético bastante comum entre poetas de cordel, repentistas e cantadores do Nordeste brasileiro, pelo menos entre o final do século XIX e início do XX, conforme se tem notícia. Esses territórios poéticos, denominados “marcos”, vão sendo verbalmente demolidos à medida que um cantador lança provocações ao seu rival de modo que, durante o debate, ambos procuram demonstrar sua superioridade na arte de compor em verso. Aquele que consegue desconstruir com maior eficácia o “marco” edificado verbalmente pelo outro, é considerado o vencedor da peleja, sendo, por isso, aplaudido e eleito pelo público ouvinte como o poeta mais habilidoso no trato do verso e da rima. Nesta comunicação pretendemos demonstrar que, além de se apresentar como uma oportunidade para que os artistas nordestinos demonstrem suas habilidades na arte de narrar em versos, o “marco” poético também se constitui como um território em que os rivais da voz exibem sua capacidade de cantar “ciência” – conhecimento adquirido no acesso a compêndios escolares, jornais e almanaques –, apontando para o fato de que tanto poetas de cordel como cantadores se apropriam de textos da literatura erudita para alinhavar suas composições.
Palavras-chave: “Marco” poético; repente; literatura de cordel