Gustavo Henrique Alves de Lima (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho")
Esta comunicação se propõe a tratar da relação poesia e poder em um campo cultural específico: a Cantoria praticada no Nordeste brasileiro entre o final do século XIX e início do XX, protagonizada por cantadores negros, brancos e mestiços, à luz do conceito de representação, de Chartier (1988, 1991), de poder simbólico, violência simbólica e distinção, de Pierre Bourdieu (1989, 2007, 2017), com vistas a lançar luz sobre as determinantes históricas e socioculturais que orientaram as relações sociais e étnico-raciais estabelecidas no contexto das lutas reais e simbólicas travadas no período em tela. Por um lado, cantadores brancos e mestiços, munidos de um capital cultural – tradição e expertise na arte do improviso – e simbólico – status social e alegada superioridade étnica – tentam desmobilizar o adversário (negro) se utilizando de representações que vão do insulto à depreciação física e moral, erguendo uma espécie de dique à sua ascensão social e ao reconhecimento de suas habilidades poéticas. Por outro lado, cantadores negros que resistem se utilizando das mesmas armas poéticas do adversário com a finalidade de reverter os efeitos nefastos do poder e da violência simbólica exercida arbitrariamente na interlocução poética e, por extensão, no âmbito da sociedade estabelecida no Nordeste brasileiro no período pós-Abolição.