Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Palavra e existência: a reivindicação dos sujeitos invisíveis em O voo da guará vermelha, de Maria Valéria Rezende
Rayssa Duarte Marques Cabral (UNEMAT), GISELE MEIRE TITA NAZARIO DA SILVA (UFMT)
O direito à literatura, disseminado por Candido (2017), está — ou deveria estar —, ao lado de outros direitos fundamentais, tais como alimentação, moradia, vestuário e saúde, bem como de direitos mais amplos, como a liberdade individual, o amparo da justiça pública e a resistência à opressão. Posto isso, notamos que no romance O voo da guará vermelha (2014), de Maria Valéria Rezende, o protagonista Rosálio personifica-se como um cidadão que reivindica tal direito como parte de sua identidade e existência. Isso porque, mesmo sendo um trabalhador braçal e analfabeto em decorrência da omissão estatal, é um entusiasta dos livros e das narrativas orais. Sua jornada baseia-se na busca por alguém que o ensine a ler e escrever, mas mesmo com essa lacuna, ele resiste, esperança, cria e sonha, transpondo assim seu contexto desfavorável e nossas expectativas estigmatizantes. O romance escancara um Brasil a partir da perspectiva da margem, razão pela qual afirmamos que, na obra, o subalterno pode falar (SPIVAK, 2010). Nesta comunicação, objetivamos evidenciar como se dá a constituição e humanização da personagem Rosálio por meio da literatura; seja desfrutando-a pela leitura em voz alta, seja compartilhando em suas narrativas orais a criação de outros horizontes/imaginários possíveis. A fim de sopesar esta análise, recorremos a Agamben (2015) e Mbembe (2016), que já abordaram a temática do biopolítica e da necropolítica, respectivamente, afirmando que há vidas que valem mais do que outras; assim como a Bauman (2005), que teorizou sobre as vidas desperdiçadas. Assim, pretendemos demonstrar que a personagem invisível, antes tomada apenas como um corpo na multidão, ao lidar com as palavras — armas que não esperaríamos que utilizasse com tamanha maestria —, impulsiona uma nova articulação no mundo factual, reivindicando sua existência como sujeito na literatura e fora dela.
Palavras-chave: Maria Valéria Rezende; O voo da guará vermelha; Sujeitos invisíveis; Direito à literatura.
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