Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
O incômodo lugar da poesia de Cruz e Sousa
JÚLIO CEZAR BASTONI DA SILVA (UFC)
A produção do poeta catarinense Cruz e Sousa parece ocupar um lugar relativamente vário em nossa tradição crítica e historiográfica. Em sua recepção imediata, em 1893, Araripe Júnior, a partir de um viés ligado às teorias raciológicas de seu tempo, parece ter determinado um espaço para a recepção da poesia sousiana que ainda nos esforçamos por superar: a de um poeta “maravilhado” (ARARIPE JR., 1963, p. 147) com as conquistas da civilização, pouco afeito ou mesmo avesso às lides sociais da época. De outro lado, a publicação tardia de suas obras completas, organizadas por Andrade Muricy a partir do material legado pelo poeta a seu amigo Nestor Vítor, nos evidenciou a faceta abolicionista e mesmo antirracista do autor, senda continuada até estudos recentes, como os de Alfredo Bosi (2002) e Cuti (2009). Entre um poeta, portanto, afastado das questões materiais e políticas de seu tempo, e outro, profundamente vinculado à reflexão e crítica às consequências do racismo brasileiro de origem colonial-escravista, há uma clivagem que, a nosso ver, ainda não foi superada, pois aparentemente reside em ênfases diversas sobre manifestações particulares da poesia do autor. Em outras palavras, a poesia sousiana se dividiria em duas vertentes aparentemente não comunicáveis, entre a de um tribuno e a de um místico, um poeta simultaneamente voltado às questões da imanência e às da transcendência. Esta comunicação pretende, nesse sentido, refletir sobre esse “incômodo lugar” da poesia sousiana em nossa tradição historiográfica, procurando avaliar alguns pontos nevrálgicos de sua recepção crítica e seus processos de canonização, bem como buscar possibilidades de compreendê-la como resultado de um projeto literário orgânico, o que pode contribuir para o delineamento de seu perfil particular na poesia brasileira, a partir de sua experiência na periferia da modernidade ocidental.
Palavras-chave: Cruz e Sousa; Recepção crítica; Poesia brasileira oitocentista; Simbolismo brasileiro.
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