Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Na continuidade do tempo: À procura da valorização sem cair nas armadilhas da tipificação
Estefânia Francis Lopes (Universidade de São Paulo)
Em nossa pesquisa de doutorado, temos como elemento central a representação das quitandeiras na ficção angolana e brasileira. Para o presente encontro, ampliamos nossa análise comparativa para o musical Bertoleza (2019), do grupo Gargarejo Cia. Teatral, com enfoque em sua dramaturgia - a qual tenho acesso, por ter sido gentilmente disponibilizada pelo grupo -, como também quanto à encenação teatral. Destacaremos o protagonismo feminino negro no musical, desde a relevante participação da escritora Le Tícia Conde, responsável pelo dramaturgismo e pela poesia da peça, como também pelo texto final, em parceria com o diretor e dramaturgo Anderson Claudir, passando pelas atrizes, - vozes femininas que corporificam o coro e as personagens Bertoleza e Zulmira -, até às diversas personalidades femininas negras e às Yabás evocadas no decorrer da trama, condizente com a releitura teatral, em que o foco narrativo parte de Bertoleza. A personagem ganha voz e vez ao (re)contar a história do romance O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, agora do seu ponto de vista, de uma mulher negra, escrava de ganho, ocupando o seu lugar como protagonista, tantas vezes ocultado e/ou reforçado por estereótipos. A releitura dramatúrgica corrobora com a nossa análise literária de que a quitandeira Bertoleza tem papel de destaque na narrativa naturalista. Partimos desta afirmação ao observarmos a própria estrutura do romance, tanto na abertura quanto no desfecho. Dessa forma, tencionamos romper com as imagens cristalizadas e desumanizantes de um passado colonial que fomentou “discursos fundadores”, conforme o pensamento de Rosane Borges (2012) sobre as imagens e os imaginários em torno da mulher negra e de acordo com a reflexão de Patricia Hill Collins (2019) quanto à sobrecarga do papel das mulheres negras como super-heroínas, muito menos reduzido a vítimas da opressão interseccional (CHRENSHAW, 2002).
Palavras-chave: Bertoleza; Protagonismo negro feminino; Representação; Releitura; Encenação teatral.
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