Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
“Não tem mais futuro”: modernidade e crise de sentido em Dora sem véu, de Ronaldo Correia de Brito
Haymone Leal Ferreira Neto (Universidade Presbiteriana Mackenzie)
Este trabalho investiga a crise de sentido do personagem Wires no romance Dora sem véu (2018) de Ronaldo Correia de Brito. Wires é um costureiro do Agreste pernambucano. Encontra a narradora Francisca na carroceria do caminhão que os conduz ao santuário de Juazeiro do Norte. Ele vai agradecer por ter se recuperado de um acidente de motocicleta; ela, procurar pelo paradeiro da avó Dora. Wires surpreende a socióloga Francisca ao afirmar trabalhar como costureiro. “Pensei que fosse agricultor”, ela retruca. Mas o rapaz largou o trabalho no campo pelo ramo de confecções. Ela então olha para as mãos dele e não encontra os calos comuns aos camponeses; em vez disso, Wires lhe mostra “as palmas finas, as unhas limpas e bem aparadas”. Quanto a ser agricultor, Wires afirma: “já fui, não tem mais futuro. Lá onde eu moro, os homens da minha idade largaram a terra e a luta com o gado” (BRITO, 2018, pp. 41-42). Entendemos que o personagem pode ser interpretado conforme o que Peter L. Berger e Thomas Luckmann (2004) definem como crise de sentido. No passado, as sociedades tinham sistemas de valores únicos, obrigatórios para todos, conservados e administrados por instituições sociais. Na modernidade, contudo, valores comuns e obrigatórios não conseguem atingir todas as esferas da vida (BERGER; LUCKMANN, 2004, pp. 32-33). A coexistência de diferentes ordens de valores resulta na existência de comunidades paralelas de sentido diferentes entre si: o pluralismo (BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 36). As causas do pluralismo moderno são o crescimento populacional, as migrações, o aumento das cidades, a economia de mercado etc. (BERGER; LUCKMANN, p. 49). Acreditamos que uma crise de sentido profunda na sociedade nordestina é um tema central do romance e o personagem Wires, um exemplo evidente dela, ao representar a transição do trabalho no campo para a indústria.
Palavras-chave: Ronaldo Correia de Brito; romance brasileiro; crise de sentido; pluralismo; nordeste
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