Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
“Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto”: a profanação em Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende
Renata Kelen da Rocha (Universidade Estadual de Maringá)
Em Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende (2012), acompanhamos as tentações e o amadurecimento da narradora-protagonista, Alice, durante a sua quarentena, solitária e aparentemente sem-sentido, pelas ruas de Porto Alegre (RS). Buscamos, em analogia, compreender de que maneira a narrativa dos quarenta dias vividos por Jesus Cristo, no deserto, dialoga com a da autora brasileira. Para tanto, entendemos que a experiência de Jesus foi uma “fase preparatória” para poder herdar os céus e a terra, considerada por Mircea Eliade (2001) como sagrada, haja vista a presença fixa e central desse ser sacralizado em um território caótico, desconhecido e desorientado de sua própria estrutura. Já na obra literária, quando a protagonista percebeu a fragilidade e a ilusão dos significantes “dever e família”, que orientavam a sua identidade, notamos um sinal, via linguagem, de que lhe faltava o desejo. Não faltava qualquer desejo, mas, sim, o desejo do Grande Outro. Empregamos esses elementos na esteira de Lacan (2005; 2016), Silva (2009; 2019) e Žižek (2010; 2015). A partir disso, destacamos que, nas ruas da capital gaúcha, com os desvalidos, a protagonista vagava em uma realidade distinta da envelopada de onde saíra, fosse da Paraíba, estado em que vivera e desfrutara de algo, fosse do apartamento novo que lhe gerava angústia. Nesse “deserto urbano”, onde era a forasteira – por possuir recursos e bens –, a tentação de Alice foi abster-se de confortos, amenizar necessidades enquanto possuía meios e compartilhar misérias, ou seja, a sua tentação foi “jejuar” junto daqueles que lhe eram “inferiores”, os desafortunados. Logo, essa versão literária do jejum no deserto pode ser interpretada como uma profanação da experiência, já que, ao invés de preparar um ser para a sua herança celestial, uma mulher comum experimentou alguns limites e imposições sistémicas que escapam de sua vontade individual.
Palavras-chave: Materialismo Lacaniano; Grande Outro; Sagrado e profano.
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