Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Impossível capturar a morte
MOISES OLIVEIRA ALVES (Universidade Estadual de Feira de Santana)
Trata-se de analisar as proposições poéticas da artista Sophie Calle, especificamente, escritos e uma videoinstalação acerca da mãe. Em 2007, Calle posiciona uma câmera ao lado do leito de morte de sua mãe e com sua anuência, câmera e filha registram sua experiência de morte. A obra ganha a inscrição de "Impossível capturar a morte", devido a ausência de um pretenso desfecho em que, finalmente, a morte se realiza, restando apenas a possibilidade de testemunhar. A princípio, nossa análise acolherá a questão do testemunho como uma noção performativa, conforme vemos em Circonfissão de Derrida (1996), quando o pensador argelino revisita e faz da sua "mãe morrendo", uma autocirurgia: trabalhar com a mão, isto é, rasgar, escrever para restaurar, abrindo, quando possível, novos campos de sensibilidade, portanto de criação e vitalidade. Tal gesto de estar diante do desaparecimento de uma mãe, solicita da artista convocada a habilidade em responder ao acontecimento através de uma proposição, indecidivelmente, poética, clínica e de pensamento, pois o que move Calle é certa habilidade de transfigurar aquilo que nos alcança em obra, à medida em que colonizar as forças que nos tomam de assalto, é um de seus modos radicais de usar o que chamamos de suas micropolíticas da delicadeza. Ao criar uma imagem-fantasma, a morte de sua mãe, Calle cria uma espécie de espectografia cujos personagens - mãe e filha - desenham cenas e afasias de difícil catalogação, além de dizer aquilo que histórias da literatura e das artes visuais consideram indizível, e por não se entregar totalmente às nossas capacidades de registro, insistem que sejam ditas, sobretudo quando exigem do corpo forças infamiliares, a ponto que ele invente para si mesmo outro idioma e presença para capturar eventos cotidianos, e por esta razão, perigam tornar-se incapturáveis, como a morte de uma mãe.
Palavras-chave: Testemunho, mãe, micropolítica
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