Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Formas de ver uma pedra: o relatório de Bendegó
Ana Maria Amorim (Universidade Federal Fluminense)
O relatório sobre o meteorito Bendegó detalha a sua composição mineral. Observa, em tons científicos, o corpo deslocado da Bahia para o Rio de Janeiro em 1877, a pedido de Dom Pedro II. O meteorito ficou no Brasil, ao invés de ser enviado além-mar, ao ser constatado que ele não simbolizava a presença de algum jazida para extrativismo, não tendo, em sua composição, metais relevantes para o mercado. Assim, foi acolhido pelo Museu Nacional, onde pôde testemunhar, por exemplo, a exposição de indígenas vivos, na década de 1880. Mas o que mais pode ser Bendegó? Em "Relatório de Bendegó Indígena", de 2021, o artista wapichana Gustavo Caboco traz, tendo como suporte o relatório, rasuras, escritas, constelações, desenhos, acréscimos, fios vermelhos, pedaços do próprio meteorito. O que o relatório do Oitocentos chama de “remoção” é reescrito como “deslocamento forçado”; o meteorito, agora chamado de pedra, é referenciado como “vovó da terra”: questiona-se classificações. Compõe o artista uma obra que revela a violência de um suposto neutro discurso descritivista, além de trazer a reivindicação de outras formas de ver/viver a relação humano/natureza, outras práticas e epistemologias possíveis. O relatório antererior surge, assim, não mais como uma breve análise, e sim como uma vivissecção. Este trabalho pretende abordar como a obra de Caboco tensiona pontos científico-culturais do século XIX - como a abordagem dos museus e das literaturas - e propõe uma reflexão sobre as continuidades, explicitando a permanência da colonialidade.
Palavras-chave: Oitocentos; Colonialidade; Gustavo Caboco; Bendegó; Artes visuais
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