A historiadora Beatriz Nascimento (NASCIMENTO, 2018; RATTS, 2006) compreende o corpo negro como um corpo-documento político e circunstrito pela memória, ao mesmo tempo em que reivindica poder, questionando o status quo, o imaginário pré-estabelecido pela agenda colonial e propondo suas próprias agendas (ASANTE, 2009). A partir desta categoria e considerando o Estado da Maafa (NJERI, 2022, ANI, 1994), isto é, a experiência de desumanização radical que assola pessoas negras em África e nas diásporas, pretende-se apontar na premiada obra Solitária de Eliana Alves Cruz (2022) as interseções entre a memória, a história e a experiência da Maafa na construção das protagonista-narradoras Eunice e Mabel. Importante frisar que a Maafa está para os corpos negros africanos e afro-diáspóricos, cada um com seus atravessamentos singulares de territórios e culturas, mas todos pautados pela necropolítica (MBEMBE, 2019) e pelo genocídio e suas facetas que vão da morte física ao epitemicídio (SANTOS, 2009; CARNEIRO, 2005). Desta forma, interessa verificar como esses dois corpos femininos negros de diferentes gerações documentam suas trajetória em Estado de Maafa no Brasil e como a literatura, utilizando os Poderes Político-Poéticos da Arte (NJERI, 2020), atua como ferramenta e anti-maafa, revelando estratégias contemporâneas de resistência, permanência e continuidade da população afro-brasileira.
Palavras-chave: Literatura contemporanea; Maafa; Corpo-Documento; Memória