Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Crianças negras e suas vidas mínimas: representações da violência em “Socorrinho” e “Faz de Conta que Não Foi. Nada”, de Marcelino Freire
DOUGLAS FERREIRA DE PAULA (Universidade Federal do Amazonas), Mariana Rissi Azevedo (Universidade Federal do Triângulo Mineiro)
Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, das quase 35 mil mortes de jovens entre 2016 e 2020 no Brasil, 80% eram de negros. Entre 2017 e 2018 foram feitos mais de 858 mil registros de desaparecidos no país segundo o Conselho Nacional de Justiça (2021), estimando-se que 40% destes eram crianças e adolescentes negros. É necessário combinar a luta contra o machismo e o racismo se quisermos que meninas negras não sejam o maior alvo de estupro e de morte na sociedade (HOOKS, 2014; RIBEIRO, 2018). Essa realidade brutal imposta às vidas negras é representada na literatura de Marcelino Freire nos contos “Socorrinho” e “Faz de Conta que Não Foi. Nada” (FREIRE, 2005). Tal literatura pode ser enquadrada em um conjunto de textos que buscam figurar a violência, que é constitutiva da cultura brasileira. Assim, temos, de um lado, a realidade social, de exclusão e violência, e, de outro, a representação desta realidade, que, segundo nossa hipótese de leitura, pode ser constituída por uma ambivalência que se liga tanto à denúncia e busca de superação da realidade retratada, quanto à figuração do exotismo para a complacência do público (PELEGRINI, 2005). O fato é que as crianças, sobretudo, negras, são negligenciadas por uma política perversa que avança sobre a vida, aniquilando-a (MBEMBE, 2019). Se todas as vidas são dignas de serem vividas e até sepultadas (BUTLER, 2022), como os contos escolhidos, lidos sob esta ambivalência, permitem entrever tanto a denúncia de um mundo dominando por poderes que violentam os corpos infantis, quanto pela estilização da miséria e da violência, a qual se pode perceber por traços de linguagem, como os manifestos pela pontuação (ADORNO, 2003) dos dois contos? Da leitura temático-estilística, tentaremos extrair reflexões sobre a realidade social, bem como sobre a criação literária, que estiliza esta realidade.
Palavras-chave: Literatura, representação da violência, crianças negras
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