Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Autoria e autoridade na escrita assinada por mulheres no séc. XIX
RICARDO ALEXANDRE RODRIGUES (UFF)
Parte da estratégia de manutenção da dominação patriarcal consiste na anulação e subalternização das referências usadas para representar o gênero feminino, afetando a construção da memória e dos processos de formação de subjetividades na sociedade. A produção de um discurso único a respeito do corpo da mulher, na tentativa de determinar comportamentos e exercer o controle sobre formas de sociabilidades das mulheres, enfraquece a autoestima, as confunde em estereótipos e as restringe aos formatos políticos dominantes impostos pela elite patriarcal. Todavia, tão habilidosas e fortes quanto às estruturas do poder patriarcal são as respostas dadas pelas mulheres da sociedade brasileira, sobretudo as escritoras pioneiras do séc. XIX, ao tomarem para si domínio da linguagem e se reinventarem. Essas respostas foram articuladas em forma de discursos, conteúdos teóricos e ideológicos, a partir de práticas de linguagens compromissadas com transformações – dos sujeitos, das mentalidades e dos meios. A pesquisa, que tem como objeto a leitura do livro “Zaira Americana mostra as imensas vantagens que a sociedade inteira obtém da ilustração, virtudes e perfeita educação da mulher como mãe, e esposa do homem”, de Maria Benedita de Oliveira Barbosa, 1853, investe na revisão de publicações cujos discursos já revelavam potencial para romper com o monopólio das narrativas ortodoxas que interditavam o exercício da autoria e da autoridade das mulheres na sociedade. O interesse pela obra vem da oportunidade de, além de problematizar as forças que operam na anulação da escrita de autoria feminina, estudar as formas de resistência bem ilustrada nas manobras com a linguagem executadas por Maria Benedita para desviar das interdições armadas contra a instrução da mulher. Destarte, o desdobramento destas ideias visa contribuir para reacender tensões geradas pelas relações de poder que atravessam obras assinadas por mulheres, no séc.XIX, lidas superficialmente pela crítica e apagadas, consequentemente, do repertório cultural.
Palavras-chave: Autoria feminina; Apagamento; Cânone literário
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