O corpo feminino está representado desde as primeiras obras que nos restaram da antiguidade mediterrânica. Nelas, as representações de seres femininos a partir de perspectivas masculinas pertenciam a um sistema hierárquico, de dominância masculina. Todavia, em algumas dessas narrativas, como é o caso da Teogonia, de Hesíodo, e do En?ma Eliš, podemos observar, com todo o aparato dos estudos de gênero, a presença e agência de personagens femininas no curso da narrativa. Muito dessa ação foi relegada pelos estudos da antiguidade, que dão ênfase às ações de personagens masculinas, ignorando o papel, muitas vezes, crucial de personagens como Gaia (Terra, a deusa primordial na cosmogonia grega arcaica) e Tiámat (deusa primordial de uma cosmogonia acádio-babilônica). Os corpos dessas entidades participam dessas narrativas e a violência masculina perpetrada contra elas é digna de ser vista em com outros olhos (em seus próprios termos). A mudança de perspectiva nos permite compreender nuances de como esse processo se deu: essas personagens não ficam passivas diante dos acontecimentos, mas agenciam suas maternidades e monstruosidades, promovendo o desenrolar da narrativa desses poemas e a geração de seus respectivos mundos. Ao mesmo tempo, analisar a violência sofrida por seus corpos revela também a violência historicamente sofrida pela natureza, uma vez que Gaia e Tiámat, nessas narrativas cosmogônicas, são mundo, o espaço, a própria terra.
Palavras-chave: corpo feminino; violência; representação; cosmogonia; natureza.