Luciana Wrege Rassier (Universidade Federal de Santa Catarina)
Em seus estudos sobre culturas minoritárias, François Paré sublinha que o olhar indiferente dos opressores e a interiorização de uma suposta inferioridade leva à ocultação dos dominados (PARÉ, 1994). Já Achugar (2006) destaca que ouvir o discurso confiscado dos marginalizados e periféricos, a quem é permitido apenas “balbuciar”, é essencial para a compreensão das Américas Latinas. Esse discurso silenciado têm sido objeto de obras da literatura contemporânea que põem em cena personagens anônimos e seu cotidiano (RANCIÈRE, 2021). É o caso do romance Taqawan, no qual o escritor quebequense Éric Plamondon parte de um fato histórico para abordar a violência perpetrada contra os povos originários. Trata-se do episódio conhecido como a guerra do salmão da região Côte-Nord, durante a qual, em junho de 1981, forças da ordem invadem a reserva de Rastigouche para confiscar as redes de pesca do povo mi’gmac. Sucesso de vendas e de crítica, o romance, publicado no Canadá em 2017 e na França no ano seguinte, foi consagrado por prêmios como o Prix France-Québec, o Prix des Lecteurs du Livre de Poche, Prix des chroniqueurs 2018 - Toulouse Polars du Sud e o prêmio Honneur 2018 de la Cause littéraire, entre outros. No presente trabalho analiso tanto a representação dos autóctones e sua cultura quanto os mecanismos de criação literária que tensionam as fronteiras entre o ficcional e o real em Taqawan.
Palavras-chave: literatura quebequense; literatura e exclusão; autóctones; criação literária.